Filme incluso na mostra da Filmoteca Seu Manolo:
Sofia fez uma escolha. Passou o resto da vida tentando esquecer que a fez.
William Styron e o romance
William Styron publicou A Escolha de Sofia em 1979, um romance semi-autobiográfico narrado pelo jovem escritor Stingo, que se muda para um quarto alugado no Brooklyn e conhece o casal vizinho: Nathan, um pesquisador americano de saúde mental instável, e Sofia, uma refugiada polonesa que sobreviveu a Auschwitz e carrega um segredo que o romance só revela perto do final. O livro venceu o National Book Award e foi considerado pela crítica como uma das obras mais importantes da literatura americana do século XX sobre o Holocausto.Após planos iniciais de escalar uma atriz eslovaca desconhecida, Pakula ofereceu o papel a Streep em 1980. Os dois adiaram a produção para que ela pudesse terminar A Mulher do Tenente Francês e Rollover. O filme foi rodado em três meses, de março a maio de 1982 em Brooklyn, com as últimas semanas em Zagreb, na Iugoslávia, para as cenas de flashback, e lançado em dezembro do mesmo ano.
A exigência técnica da performance
A Escolha de Sofia é estudada em escolas de cinema como o exemplo mais documentado de preparação técnica para um papel. Streep precisava dominar três idiomas distintos de forma crível: inglês com sotaque polonês específico da região de Cracóvia, polonês e alemão. Cada idioma exigiu um professor diferente e meses de trabalho separado antes das filmagens.Mas a preparação linguística é apenas a camada mais visível de uma performance que exige muito mais. Sofia existe em dois tempos completamente diferentes: a mulher jovem e viva nos flashbacks de Auschwitz e a mulher destruída pelo que sobreviveu no presente do filme. Streep constrói as duas Sofias com corpos diferentes, ritmos diferentes, relações com o espaço diferentes. A Sofia do passado tem uma presença física que a Sofia do presente perdeu completamente, e essa diferença é o que comunica o que Auschwitz produziu numa pessoa antes que qualquer palavra seja dita.
A cena da escolha
A cena que dá título ao filme, em que um oficial nazista obriga Sofia a escolher qual dos seus dois filhos vai para a câmara de gás, é filmada por Pakula com uma austeridade que recusa o espetáculo. Não há música. A câmera não dramatiza. O que Streep faz nessa cena é o que torna impossível esquecer: a velocidade com que Sofia faz a escolha, porque a velocidade é o único gesto de misericórdia disponível para alguém que está sendo forçado a fazer o inaceitável.Streep venceu o Oscar de Melhor Atriz e o Globo de Ouro, além de prêmios da National Board of Review, New York Film Critics Circle e praticamente todos os outros reconhecimentos disponíveis naquele ano. É a performance que estabeleceu definitivamente Streep como a atriz mais tecnicamente rigorosa da geração dela, e provavelmente de todas as gerações que vieram depois.
Kevin Kline e Peter MacNicol
Kevin Kline em seu primeiro papel cinematográfico como Nathan e Peter MacNicol como Stingo são os dois pontos de referência que permitem ao espectador calibrar o que está vendo em Sofia. Nathan, com toda a sua instabilidade, é a única pessoa que viu Sofia antes de Auschwitz, e a relação entre os dois tem a qualidade de algo que o presente não consegue mais sustentar mas que nenhum dos dois sabe como abandonar. Stingo como narrador é o espectador dentro do filme: descobre aos poucos o que Sofia carrega, e o que descobre é o que o filme comunica ao espectador externo.