VIAGEM NO TEMPO NO CINEMA: Paradoxos, memória e destino em movimento
Um garoto acidentalmente se junta a um bando de anões que viajam no tempo, enquanto pulam de época em época procurando tesouros para roubar.
Dir: Terry Gilliam
Fantasia Sombria, Farsa, Missão, Viagem no Tempo, Sátira, Aventura, Comédia
MP4 / HD / LEG: Português
IMDB: 6,9 METASCORE: 7,9
Flick Metrix: Criticker Average Percentile:
Time Bandits, dirigido por Terry Gilliam, é uma das
obras mais inventivas e ambíguas do cinema de fantasia e um título fundamental
para compreender a viagem no tempo como maravilhamento, sátira e desencanto
filosófico. À primeira vista, o filme se apresenta como uma aventura
infantil caótica; sob a superfície, porém, revela-se uma crítica mordaz à ideia
de progresso, autoridade e sentido histórico.
Inserido no Núcleo 1 — O Tempo como Maravilhamento, Time
Bandits ocupa um lugar singular: ele recupera o encanto lúdico do cinema de
Méliès, mas o contamina com ironia pós-moderna e pessimismo existencial.
A infância como portal temporal
O protagonista é Kevin, um menino solitário e imaginativo
que escapa da monotonia da vida suburbana ao ser literalmente arrancado de seu
quarto por um grupo de anões que viajam pelo tempo. Esses personagens não são
heróis nem sábios: são
burocratas do acaso, ex-funcionários do “Ser
Supremo” que roubaram um mapa dos buracos no tempo para saquear diferentes
períodos históricos.
A escolha de uma criança como eixo narrativo é central. Em Os
Bandidos do Tempo, a viagem temporal acontece no ponto onde:
- curiosidade
infantil,
- imaginação
desenfreada,
- e
caos histórico
se encontram.
O tempo não é explicado, é vivenciado.
História como parque de diversões (e de absurdos)
Napoleão, Robin Hood, Agamenon, Hitler, cavaleiros
medievais: a História surge como uma sucessão de cenários caricaturais,
desmontados pela lógica do nonsense. Gilliam trata os grandes eventos e figuras
históricas como
decoração instável, não como marcos sagrados.
Essa abordagem dialoga diretamente com Le Voyage dans la
Lune:
- em
Méliès, o passado e o futuro são palcos para o truque;
- em
Gilliam, são palcos para a desmistificação.
A viagem no tempo deixa de ser reverente e passa a ser
irreverente.
O mal como força banal e administrativa
O vilão do filme, o “Mal Absoluto”, não é grandioso nem
demoníaco no sentido clássico. Ele é:
- oportunista,
- racional,
- obcecado
por tecnologia e controle.
Quando finalmente encontramos o Ser Supremo, a revelação é
desconcertante: o universo não é governado por um plano moral elevado, mas por erros,
ajustes improvisados e desleixo cósmico.
Essa visão transforma Time Bandits em algo raro
dentro do subgênero:
👉
um filme de viagem no tempo que nega qualquer sentido transcendente da
História.
O tempo como maravilhamento corroído
Apesar de seu humor e imaginação visual exuberante, o filme
carrega um fundo profundamente amargo. O desfecho, abrupto, cruel e sem
redenção, rompe qualquer ilusão de segurança infantil.
Gilliam parece afirmar que:
- o
mundo adulto não recompensa a imaginação,
- a
autoridade não protege,
- e o
tempo não ensina automaticamente.
O maravilhamento existe, mas é precário.
Lugar no subgênero da viagem no tempo
Dentro da mostra, Os Bandidos do Tempo cumpre uma
função essencial:
- mantém
vivo o espírito lúdico da viagem temporal,
- desmonta
a ideia de História como narrativa coerente,
- antecipa
a ironia cética de filmes posteriores como Brazil e O Dorminhoco.
Ele marca a transição entre:
- o
encanto fundacional de Méliès
- e o
desencanto moderno da ficção científica pós-anos 1970.
Conclusão: brincar com o tempo — e pagar o preço
Time Bandits é um filme sobre crescer, não no sentido
moralizante, mas no sentido brutal: descobrir que o mundo não tem compromisso
com nossas fantasias. O tempo oferece aventuras, mas não garantias.
Em Os Bandidos do Tempo, viajar pelo tempo é um ato
de imaginação radical e também a descoberta dolorosa de que nem a História, nem o universo, devem
explicações a ninguém.