Mostra:
O AMOR NO TEMPO DO QUASE: Vínculos Frágeis num Mundo Acelerado
Uma mulher casada e feliz se apaixona pelo artista que mora do outro lado da rua.
Polley e o filme que ninguém esperava
Sarah Polley tinha 32 anos quando dirigiu Take This Waltz, seu segundo longa-metragem após Longe dela, e entregou um dos filmes mais honestos e mais incômodos sobre desejo e insatisfação do cinema canadense recente. Polley está interessada em filmar com precisão o estado específico de alguém que tem uma vida boa e que sente falta de algo que não consegue nomear. Esse estado é o mais difícil de retratar no cinema porque não tem vilão, não tem causa clara e não produz a simpatia automática que a tragédia convencional oferece. Polley filma com a coragem de quem sabe que o espectador vai se dividir e não tenta evitar isso.Margot e o espaço entre as coisas
Michelle Williams interpreta Margot com uma qualidade de presença que comunica simultaneamente o amor genuíno pelo marido Lou e a atração genuína pelo vizinho Daniel, sem que nenhum dos dois seja ficção ou pretexto. Margot não está num casamento ruim procurando uma saída: está num casamento bom que de alguma forma não preenche um espaço que ela não consegue descrever. Polley usa essa ambiguidade com uma honestidade que o cinema raramente permite a personagens femininos: Margot não precisa ter razão para que sua experiência seja válida, e o filme nunca a força a escolher entre ter razão e ser compreendida.Lou e Daniel como territórios
Seth Rogen interpreta Lou com uma ternura que transforma o personagem no mais difícil do filme: um homem bom, engraçado, presente e genuinamente apaixonado pela mulher que está se afastando dele sem que ele saiba completamente por quê. A dificuldade de torcer contra Lou é parte do argumento do filme: se ele fosse inadequado, a escolha de Margot seria mais fácil de entender e mais fácil de perdoar. Luke Kirby como Daniel representa o território do ainda não, da possibilidade que não foi testada pelo tempo e pela rotina e Polley usa essa distinção com uma inteligência que vai além do triângulo amoroso convencional: Daniel não é melhor que Lou, é diferente, e a diferença é o que seduz.A piscina e o que o corpo diz antes das palavras
Take This Waltz tem uma cena numa piscina pública onde Margot, Daniel e outras mulheres se trocam num vestiário coletivo sem a timidez convencional das cenas de nudez no cinema. Polley filmou os corpos em diferentes idades e formas com uma naturalidade que é ela mesma um argumento: o desejo existe em corpos reais, não em corpos cinematográficos convencionais, e a intimidade que a cena produz é mais honesta do que qualquer quantidade de diálogo sobre o que Margot está sentindo. É uma das cenas mais corajosas do cinema canadense recente e uma das mais precisas sobre o que significa ser um corpo que deseja num mundo que não sabe muito bem o que fazer com esse desejo.
O que a nova vida oferece e o que cobra
Polley tem a coragem de mostrar o depois: o que acontece quando Margot finalmente faz a escolha que o filme inteiro construiu como inevitável. A nova vida com Daniel, filmada numa sequência que condensa meses em minutos, tem a mesma qualidade de rotina e de insatisfação difusa que a vida com Lou tinha. A novidade passou. O espaço voltou. Polley não está dizendo que Margot fez a escolha errada: está dizendo que o problema não era a escolha. Era o espaço, e o espaço viaja junto.
Onde assistir
Entre o Amor e a Paixão está disponível no Belas Artes A La Carte e na Filmoteca Seu Manolo. O filme tem um ritmo que usa o verão canadense com uma qualidade visual que transforma a luz e o calor em extensões do estado emocional de Margot. A trilha sonora, incluindo a canção que dá título ao filme, é parte essencial da experiência. Michelle Williams está em cada cena e é impossível imaginar o filme com outra atriz.
A distância emocional mascarada por presença física
Take This Waltz é o filme desta mostra que mapeia com mais precisão o que acontece quando duas pessoas estão fisicamente presentes num relacionamento e emocionalmente habitando lugares diferentes. Lou está lá. Ama Margot. Cozinha para ela, ri com ela, dorme ao lado dela. E ainda assim há um espaço entre os dois que nenhuma presença física consegue preencher, que Margot não consegue nomear e que Lou não consegue ver. Polley filmou esse espaço com uma honestidade que incomoda porque é reconhecível: a distância emocional não precisa de briga, de traição ou de momento dramático para existir. Às vezes existe simplesmente como o silêncio entre duas pessoas que se amam e que, por razões que nenhuma das duas consegue completamente articular, já não habitam o mesmo lugar. O filme entende que os relacionamentos contemporâneos carregam ambiguidade permanente, quase nada se resolve completamente e quase ninguém consegue expressar integralmente o que sente, e como são afetados por mudanças emocionais, sociais e culturais.