Mostra Filmes Ganhadores do Leão de Ouro - Festival de Veneza
Um estudioso desesperado vende sua alma a Satanás em troca de uma noite com uma jovem bonita.
Drama, Fantasia, Mistério
MP4 / HD- / LEG: Português
IMDB: 6,5 METASCORE: 6,5
Fausto (Faust) é uma obra densa, filosófica e
visualmente vertiginosa dirigida por Aleksandr Sokurov, vencedora do Leão
de Ouro no Festival de Cinema de Veneza de 2011. O filme encerra a
chamada Tetralogia do Poder de Sokurov, ao lado de Moloch, Taurus
e O Sol, deslocando o olhar do poder político concreto para sua origem
metafísica e moral.
Fausto antes do mito
Inspirado livremente na obra de
Johann Wolfgang von
Goethe, Sokurov não adapta o
Fausto clássico de forma narrativa. Em
vez disso, reinventa o personagem como um homem obcecado pelo
conhecimento,
pelo corpo e pela matéria, aprisionado em um mundo grotesco, carnal e em
decomposição. Seu Fausto não é grandioso nem heroico: é sujo, inquieto, faminto
— intelectual e fisicamente.
Aqui, o pacto com o diabo não surge como clímax dramático,
mas como consequência inevitável de um desejo ilimitado.
Um mundo deformado
Visualmente,
Fausto é uma experiência sensorial
extrema. Sokurov utiliza lentes distorcidas, enquadramentos instáveis e uma
paleta de cores turva para criar um universo
claustrofóbico e disforme,
onde corpos e espaços parecem em constante colapso. A materialidade do mundo é
excessiva: suor, carne, lama, vísceras, ruínas.
O espaço físico reflete o estado moral dos personagens. Tudo
pesa, tudo oprime. Não há horizonte nem transcendência.
O demônio como espelho
O Mefistófeles de Sokurov não é majestoso nem sedutor. É
vulgar, rasteiro, quase patético — um ser que se mistura ao mundo humano sem
distinção clara. Essa escolha desmonta a ideia tradicional do mal como entidade
externa: o diabo aqui é apenas
a extensão lógica do desejo humano, não
sua causa.
Fausto não é corrompido; ele já nasce em ruína.
Corpo, desejo e poder
O filme associa o impulso de conhecimento ao desejo de posse
— do corpo feminino, da natureza, da verdade absoluta. Sokurov sugere que toda
busca totalizante carrega em si uma vocação autoritária. O Fausto que quer
compreender tudo é o mesmo que está disposto a
dominar tudo.
Nesse sentido, Fausto dialoga diretamente com os
filmes anteriores da tetralogia, apontando que os grandes tiranos da história
nascem antes como impulsos metafísicos, não como líderes políticos.
Por que o Leão de Ouro
Ao premiar
Fausto, Veneza reconheceu:
- a
ambição filosófica extrema do projeto;
- a
originalidade radical da linguagem visual;
- a
coerência de um cineasta que transforma literatura, história e metafísica
em cinema sensorial.
👉 Fausto não é um
filme de fácil acesso nem de prazer imediato. É uma obra que sufoca, provoca
e exige. Um cinema que pensa o mal, o desejo e o poder não como exceções,
mas como fundamentos da condição humana — plenamente digno de um Leão de Ouro
que celebra o risco e a radicalidade artística.
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