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sábado, 3 de janeiro de 2026

Um dia de Chuva em Nova York (2019) A Rainy Day in New York - 1 h 32 min

Mostra Retrospectiva Woody Allen - Risos, Neurose e Nova York

Apaixonado por Nova York, Gatsby decide passar um fim de semana na cidade ao lado de Ashleigh, sua namorada. No entanto, aquilo que era pra ser uma aventura romântica acaba tomando um rumo inesperado.


Comédia, Romance


MP4 / HD / LEG: Português

IMDB: 6,4   METASCORE: 3,8
47%Tomatometer113 Reviews   56%Popcornmeter


Um Dia de Chuva em Nova York é um retorno deliberado de Woody Allen à sua mitologia urbana original: a Nova York chuvosa, elegante e melancólica, onde o acaso, o amor e a frustração se entrelaçam em poucas horas. O filme funciona como uma variação tardia — consciente e autocitada — de Annie Hall e Manhattan, agora filtrada por um olhar mais cético e cansado.

Uma comédia de desencontros

A narrativa acompanha Gatsby Welles e Ashleigh Enright, jovens estudantes que planejam um fim de semana romântico em Manhattan. A chuva constante, porém, desfaz qualquer projeto linear. O casal se separa fisicamente — e emocionalmente — em trajetórias paralelas, marcadas por encontros improváveis, seduções, mal-entendidos e revelações incômodas.

Como em muitas comédias allenianas, o amor não fracassa por grandes tragédias, mas por pequenas diferenças de sensibilidade, desejo e visão de mundo. O acaso não une: ele expõe incompatibilidades.

Nova York como personagem


A cidade é filmada como um palco idealizado, quase atemporal. Ruas molhadas, cafés discretos, parques vazios e interiores acolhedores criam uma atmosfera de refúgio estético contra o mundo real. A chuva não é obstáculo narrativo, mas condição poética: ela desacelera o tempo, favorece a introspecção e dissolve certezas.

Allen não busca o realismo urbano, mas uma Nova York mental, construída a partir da memória cinéfila e afetiva — um espaço onde ainda é possível acreditar que o amor depende de coincidências elegantes.

Personagens entre idealização e amadurecimento

Gatsby é o típico herdeiro espiritual do protagonista alleniano clássico: culto, nostálgico, desconfortável com a própria geração e seduzido por um passado que não viveu. Ele acredita em gestos românticos cuidadosamente coreografados, como se o mundo ainda obedecesse a uma lógica estética.

Ashleigh, por sua vez, encarna a curiosidade ingênua, aberta ao brilho do acaso. Sua deriva por encontros com figuras do cinema revela um fascínio pela promessa do sucesso e da experiência — mesmo quando essas promessas se mostram vazias ou ridículas.

O desencontro entre ambos não é moral, mas existencial: eles desejam coisas diferentes, ainda que usem a mesma palavra — amor.

Humor leve, melancolia persistente

O filme privilegia o humor de situação e o diálogo espirituoso, evitando conflitos profundos ou viradas dramáticas. Ainda assim, a melancolia é constante. Allen filma jovens personagens como quem observa um mundo que já não lhe pertence inteiramente.

Diferente dos filmes mais sombrios da fase europeia (Match Point, Golpe de Sorte em Paris), aqui o acaso é gentil, quase cúmplice. Mas essa gentileza não garante finais felizes — apenas finais coerentes.


Um filme sobre aprender a escolher

O desfecho não oferece redenção romântica, mas clareza emocional. Os personagens descobrem que amar implica reconhecer limites: do outro, de si mesmo e do momento da vida. O amadurecimento vem menos pela dor do que pela constatação silenciosa de que certas histórias só funcionam na imaginação.

Síntese final

Um Dia de Chuva em Nova York é uma comédia romântica tardia, elegante e autoconsciente. Não busca reinventar Woody Allen, mas destilar sua essência: o amor como acaso, a cidade como sonho e a vida como sucessão de pequenas perdas aceitáveis. Sob a chuva fina de Manhattan, o filme sugere que crescer talvez signifique isso — abrir mão do ideal para não perder completamente o encanto.

 




terça-feira, 30 de setembro de 2025

O Terminal (2004) The Terminal - 2 h 8 min

Filme incluso nas mostras da Filmoteca Seu Manolo:

STEVEN SPIELBERG: Vida e Obra

7 FILMES COM TOM HANKS: Como um Homem Comum se Tornou o Maior Fenômeno de Hollywood



Dir: Steven Spielberg
Comédia Peculiar, Drama, Romance

MP4 / HD / LEG: Português

IMDB: 7,4   METASCORE: 5,5
Letterboxd: 7,4   Flick Metrix: 69
61%Tomatometer207 Reviews

Viktor chegou ao aeroporto de Nova York. O país de origem havia deixado de existir enquanto ele voava. Ficou dois anos no terminal.


O Terminal é inspirado livremente na história real de Mehran Karimi Nasseri, um refugiado que viveu anos no aeroporto Charles de Gaulle.

O filme mistura humor, delicadeza e crítica social para construir uma fábula moderna sobre um homem preso entre fronteiras que não o reconhecem e que, ainda assim, encontra maneiras de criar comunidade e dignidade.


Enredo - um homem sem país e sem saída

Viktor Navorski, cidadão da fictícia Krakozhia, chega ao Aeroporto JFK em Nova York para realizar um desejo antigo de seu pai. Ao desembarcar, descobre que:

  • uma revolução armada explodiu em seu país,
  • o novo governo não é reconhecido pelos EUA,
  • seu passaporte foi invalidado,
  • e ele não pode entrar nos EUA, nem voltar para casa.

Preso em limbo jurídico, Viktor é obrigado a permanecer no terminal até que a situação política se resolva.

A história acompanha sua adaptação dormindo em portões vazios, improvisando refeições, estudando inglês sozinho, arrumando pequenos trabalhos e, principalmente, construindo laços humanos com funcionários, imigrantes, tripulações e outros “habitantes” do aeroporto.


Humanidade em espaços impessoais

O grande tema do filme é como um ambiente burocrático e desumanizado pode se transformar em um espaço de afeto, solidariedade, amizade e pequenas gentilezas.

Viktor, com sua paciência e generosidade, “contamina” positivamente as pessoas à sua volta.
Spielberg transforma o terminal, símbolo de transitoriedade, em uma comunidade viva.


Personagens marcantes

Viktor Navorski (Tom Hanks)

Com sua performance gentil e precisa, Hanks incorpora ingenuidade, esperança, dignidade, humor e uma forte ética pessoal.

Viktor é um homem simples com enorme força interna.


Frank Dixon (Stanley Tucci)

Diretor de segurança do aeroporto, ele representa o sistema burocrático que segue regras ao pé da letra, sem espaço para empatia.
Dixon não é vilão por maldade, mas pela incapacidade de enxergar além dos regulamentos.



Amelia Warren (Catherine Zeta-Jones)

Comissária de bordo, escape romântico de Viktor. É uma mulher perdida emocionalmente, cujo arco ajuda a reforçar a humanidade do protagonista, embora seja uma personagem menos desenvolvida.

Os amigos do terminal

Gupta (Kumar Pallana), Enrique (Diego Luna) e Dolores (Zoë Saldana) formam um núcleo carismático que simboliza a multiculturalidade do aeroporto.


Temas centrais

Imigração e burocracia global

O filme mostra a fragilidade do imigrante diante de regras que mudam de um dia para o outro, e como a burocracia pode aprisionar vidas.

Identidade e dignidade humana

Mesmo sem documentos, Viktor mantém um senso de honra e integridade. Ele é, literalmente, um homem reduzido a nada e mesmo assim encontra dignidade na rotina.

Solidariedade como resistência

No terminal, a humanidade floresce não pela lei, mas pelas relações que Viktor estabelece.

Tempo suspenso

O filme trabalha a sensação de “tempo parado”. Viktor vive meses num presente contínuo, enquanto sua vida e seus sonhos esperam autorização para continuar.

Promessa e legado familiar

O verdadeiro motivo da viagem de Viktor revela uma camada emocional poderosa e dá sentido profundo à sua jornada.


Estilo Spielberg - ternura e precisão

Spielberg filma com:

  • humor leve,
  • ritmo fluido,
  • cenografia impressionante (o terminal inteiro foi construído em estúdio),
  • enquadramentos que reforçam a sensação de prisão e deslocamento,
  • jogos de câmera que mostram o terminal como organismo vivo.

A trilha de John Williams combina jazz suave com melancolia, perfeita para o clima de “fábula moderna”.


Por que o filme funciona tão bem

Porque Spielberg entrega:

  • otimismo sem ingenuidade;
  • crítica social sem agressividade;
  • humor sem superficialidade;
  • drama sem melodrama.

É um filme sobre bondade; um valor raramente celebrado com tanta sinceridade no cinema contemporâneo.


Recepção e legado

Na época do lançamento, O Terminal recebeu críticas mistas na imprensa, mas o público o abraçou com carinho. Com o passar dos anos, ganhou status de filme “conforto”, lembrado por:

  • sua atmosfera acolhedora,
  • sua mensagem universal,
  • a performance humana de Tom Hanks.

Hoje é visto como um dos trabalhos mais subestimados de Spielberg - leve na superfície, profundo no subtexto.


🎯 Conclusão

O Terminal é uma história sobre um homem preso em nenhum lugar, mas que, paradoxalmente, encontra nesse “não-lugar” um senso de comunidade que o mundo lá fora não lhe oferecia.

É um filme sobre acolher o outro, sobre gentileza como força, e sobre acreditar que, mesmo em meio a burocracias frias, a humanidade pode florescer.

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