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sexta-feira, 20 de março de 2026

Andando (2008) Aruitemo aruitemo - 1 h 55 min

ROTTEN TOMATOES: The 100% Club

Uma família reúne-se para um ritual memorial, cuja natureza só gradualmente se torna clara.


Andando (2008) - IMDb
Dir: Hirokazu Koreeda
Drama

MP4 / HD- / LEG: Português

IMDB: 7,9   METASCORE: 8,9
FLICK METRIX: 85   Average Percentile: 73.21%
100%Tomatometer66 Reviews   90%Popcornmeter


“Um filme onde o tempo não passa — ele se acumula, silenciosamente, dentro das pessoas.”


O retorno que nunca é simples


Dirigido por Hirokazu Kore-eda, Still Walking (Andando, 2008) acompanha um encontro familiar aparentemente comum: os filhos retornam à casa dos pais para uma reunião anual em memória de um irmão falecido. O que poderia ser apenas um ritual afetivo revela-se um território de tensões sutis, ressentimentos antigos e afetos não resolvidos. Kore-eda constrói esse retorno como um espaço onde o passado permanece ativo, infiltrando-se em cada conversa e silêncio.


O peso invisível das relações


A força do filme está naquilo que não é dito. Pequenos comentários, gestos mínimos e olhares desviados revelam hierarquias familiares, frustrações e expectativas não cumpridas. O luto não é apenas pela perda do filho, mas também pelo que cada um se tornou — ou deixou de se tornar. Kore-eda observa essas dinâmicas com extrema delicadeza, recusando julgamentos e permitindo que cada personagem exista em sua complexidade.


O cotidiano como memória viva


A mise-en-scène privilegia o cotidiano: preparar comida, caminhar pela casa, compartilhar refeições. Esses gestos simples tornam-se veículos de memória, como se cada ação carregasse ecos do passado. A casa funciona como um organismo vivo, onde o tempo se deposita em camadas. A câmera de Kore-eda, discreta e paciente, transforma o banal em algo profundamente significativo.


Recepção, legado e para quem é este filme


Andando
é amplamente considerado uma das obras centrais de Hirokazu Kore-eda, frequentemente comparado ao cinema de Yasujirō Ozu pela atenção às dinâmicas familiares e ao cotidiano. Aclamado pela crítica internacional, o filme consolidou Kore-eda como um dos grandes observadores da vida doméstica no cinema contemporâneo. Seu legado reside na capacidade de transformar um encontro familiar simples em um retrato profundo do tempo e das relações humanas. É especialmente indicado para espectadores que apreciam narrativas intimistas, ritmo contemplativo e a exploração sensível da memória e do afeto.


A vida que continua, apesar de tudo

No fim, Andando não oferece reconciliações completas nem resoluções dramáticas. A vida segue — com suas imperfeições, seus silêncios e suas pequenas ternuras. O filme entende que as famílias não se resolvem, elas se prolongam. E é nesse movimento contínuo, quase imperceptível, que encontra sua verdade mais profunda.

 




sábado, 27 de setembro de 2025

Depois da Vida (1998) Wandafuru raifu - 1 h 58 min


Dir: Hirokazu Koreeda

Drama, Fantasia


CLC Score: 8,2





Sinopse

Numa espécie de estação intermediária entre a vida e o que vem depois dela, um pequeno grupo de funcionários recebe, toda semana, um novo lote de recém-falecidos. A tarefa desses funcionários é simples de enunciar e quase impossível de cumprir: ajudar cada pessoa a escolher, entre todas as lembranças de uma vida inteira, uma única memória. Essa memória será recriada num filme, e é apenas ela, e mais nenhuma outra, que a pessoa levará consigo para a eternidade.

O prazo é curto, poucos dias, e as respostas variam tanto quanto variam as vidas que chegam àquele lugar. Há quem escolha rápido demais e quem não consiga escolher de jeito nenhum. Nesse intervalo entre a pergunta e a resposta, Hirokazu Kore-eda constrói um dos exercícios mais originais do cinema japonês contemporâneo sobre um tema que, à primeira vista, parece simples: o que, afinal, vale a pena ser lembrado.

Análise Crítica

Depois da Vida nasce de uma decisão de produção que se tornou também sua principal força estética. Kore-eda entrevistou centenas de pessoas reais, pedindo que descrevessem a lembrança que escolheriam levar para sempre, e incorporou parte significativa desses depoimentos ao filme, entremeados às cenas com atores profissionais. O resultado é uma textura rara, em que ficção e depoimento documental convivem sem que o corte entre um e outro seja sempre perceptível. Essa opção, que Kore-eda retomaria e refinaria em obras posteriores como Ninguém Sabe e Assunto de Família, já aparece aqui em sua forma mais radical: o filme não finge que sabe a resposta certa sobre o que é uma vida bem vivida. Ele escuta.

A encenação reforça essa escolha. O prédio onde vivem os funcionários e passam os recém-chegados tem a aparência de uma repartição pública decadente, com salas frias, papéis empilhados e uma rotina burocrática que contrasta, de propósito, com a gravidade metafísica do que ali se decide. Kore-eda recusa qualquer estética de além-vida grandiosa. Não há luz dourada, não há coro celestial, não há explicação teológica para o lugar. Essa sobriedade visual funciona como argumento: a pergunta sobre o sentido de uma vida não precisa de cenário espetacular para ganhar peso, precisa apenas de tempo e atenção.

O roteiro organiza uma quantidade generosa de personagens em vinhetas curtas, e Kore-eda demonstra, já nesse segundo longa de ficção, o domínio de ritmo que marcaria toda sua obra posterior: cenas de humor seco convivem com momentos de melancolia sem que uma tonalidade cancele a outra. Um adolescente que só pensa em Disneylândia é tratado com a mesma delicadeza que uma senhora que recorda o vento entre as árvores numa tarde qualquer. O filme nunca hierarquiza as memórias por grandiosidade, e essa recusa é também uma posição crítica sobre o próprio cinema, meio que costuma privilegiar o extraordinário em detrimento do cotidiano.

Entre as várias histórias, duas ganham fôlego maior e sustentam a espinha dramática do filme: a de um homem idoso que resiste a encontrar qualquer lembrança satisfatória em setenta e um anos de vida relatada com desânimo, e a do jovem funcionário encarregado de acompanhá-lo, cuja discrição esconde uma ligação pessoal com o caso que só se revela aos poucos. É nessa segunda linha que o filme desloca sua pergunta central: já não se trata apenas do que os mortos escolhem lembrar, mas do que os vivos, ou os quase vivos, fazem quando alguém aparece para reabrir um capítulo que julgavam encerrado.

⚠️ ATENÇÃO: A PARTIR DESTE PONTO, O TEXTO CONTÉM SPOILERS

Se você ainda não assistiu ao filme, recomendamos interromper a leitura e retornar depois.

A Interpretação da Obra

A revelação que estrutura o filme é também seu argumento mais radical sobre memória e cinema: os funcionários daquela estação não são anjos nem burocratas de outro plano, são eles próprios mortos que, em algum momento do passado, não conseguiram escolher uma lembrança. Por não terem escolhido, ficaram. O trabalho de ajudar outros a decidir o que levar para a eternidade é, para eles, uma espécie de purgatório funcional, uma tarefa que os mantém presos justamente ao processo que falharam em completar sozinhos.

Essa escolha de roteiro transforma retroativamente tudo o que veio antes. O escritório burocrático deixa de ser apenas cenário e passa a ser também um símbolo, o lugar de quem ficou sem resposta e por isso segue ajudando outros a encontrar a deles. A repetição semanal do processo, que no início do filme parecia apenas rotina narrativa, revela-se agora um ciclo sem saída, uma espera que só termina quando alguém finalmente consegue escolher.

É dentro dessa lógica que o encontro entre o jovem funcionário e o homem idoso ganha sua verdadeira dimensão. Ao revisar as fitas com a história de vida do idoso, o funcionário descobre que a memória de amor que o velho relata pertence, na verdade, à mesma mulher que ele próprio amou antes de morrer, décadas atrás, numa guerra que o impediu de voltar. O idoso casou-se com ela depois, construiu uma vida inteira ao lado dela, e é esse casamento, e não o breve romance anterior, que aparece nas fitas como o momento mais significativo de sua existência. O funcionário, que durante décadas guardou aquela mulher como sua própria lembrança não escolhida, precisa decidir o que fazer com essa informação.

A decisão de não revelar o que descobriu ao homem idoso, e de recriar em vez disso, com sua colega, a cena do próprio pedido de casamento como parte do arquivo do velho, é o gesto que finalmente permite ao jovem funcionário escolher sua própria memória. Ao reencenar o momento que nunca teve a chance de viver por conta própria, ele consegue, enfim, transformar a lembrança alheia em elemento suficiente para atravessar aquilo que o prendia. O filme sugere, com isso, que memória não é propriedade privada e estanque, mas algo que se constrói também pelo que os outros guardam de nós, mesmo quando não sabemos disso.

Há ainda uma camada reflexiva sobre o próprio cinema que atravessa o filme inteiro. A recriação da memória escolhida, filmada dentro de um estúdio improvisado pela equipe da estação, com efeitos artesanais e atores contratados para viver papéis secundários da lembrança de um estranho, é uma metáfora explícita do que o cinema faz desde sempre: reconstituir o passado com meios materiais limitados para produzir algo que, na experiência de quem assiste, se torna indistinguível da própria lembrança verdadeira. Kore-eda, ao misturar depoimentos reais e atuação profissional na textura do próprio filme, pratica na produção exatamente o que narra na trama.

Conclusão

Depois da Vida permanece relevante porque recusa oferecer uma resposta pronta para a pergunta que propõe. O filme não diz qual memória vale mais a pena guardar, apenas mostra o esforço, às vezes cômico, às vezes doloroso, de cada pessoa diante dessa tarefa. Ao fazer isso, Kore-eda antecipa o que se tornaria sua marca mais reconhecível: um cinema que observa a vida comum com atenção quase documental e encontra ali, sem golpes de efeito, a matéria de que o sentido humano é feito.