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domingo, 10 de maio de 2026

Closer: Perto Demais (2004) Closer - 1 h 44 min

Mostra:

O AMOR NO TEMPO DO QUASE: Vínculos Frágeis num Mundo Acelerado

As relações de dois casais tornam-se complicadas e enganosas quando o homem de um dos casais conhece a mulher do outro.


Romance Sensual, Romance Sombrio, Drama


MP4 / HD / LEG: Português

IMDB: 7,1   METASCORE: 6,5
Letterboxd: 6,8   Flick Metrix: 68
67%Tomatometer207 Reviews

As palavras certas ditas com intenção errada fazem mais estrago do que qualquer silêncio.

O palco que virou tela

 Closer nasceu como peça teatral de Patrick Marber e chegou ao cinema pelas mãos de Mike Nichols sem perder a densidade do palco, o que é simultaneamente seu maior trunfo e sua marca mais visível. Os diálogos têm a precisão cirúrgica de texto escrito para ser ouvido numa sala pequena, onde cada palavra carrega peso e cada pausa é calculada. Nichols não tenta disfarçar essa origem: filma Closer como se o espaço entre os personagens fosse um palco onde a batalha de linguagem acontece, e usa Londres como cenário de uma forma que a torna presente sem nunca torná-la turística.

A estrutura do filme recusa a continuidade convencional. Cenas se sucedem com elipses de meses ou anos sem aviso, e o espectador chega a cada novo encontro precisando reconstruir o que aconteceu no intervalo a partir do que os personagens dizem e do que deliberadamente não dizem. Essa estrutura fragmentada é o argumento formal do filme sobre como os relacionamentos existem em momentos de intensidade separados por períodos que a narrativa não precisa mostrar porque o que importa é o que resta depois deles.


Nichols e a crueldade como método

Mike Nichols passou a carreira filmando a violência que existe dentro das relações humanas mais íntimas, de Quem Tem Medo de Virginia Woolf até Closer, e chegou a este filme com uma maestria do território que é visível em cada escolha de câmera e de ritmo. Nichols entendeu que a crueldade entre pessoas que se amam precisa apenas de duas pessoas num quarto com tempo suficiente e histórico suficiente para que as palavras encontrem os lugares certos para doer.

Stephen Goldblatt fotografa Closer com uma paleta que usa a luz de Londres de forma que favorece a ambiguidade: não há vilões iluminados de um jeito e vítimas iluminados de outro. Os quatro personagens existem na mesma luz porque o filme entende que todos os quatro estão fazendo o mesmo tipo de dano, em momentos diferentes, com instrumentos diferentes, e que a distinção entre quem machuca e quem é machucado é sempre temporária nesse universo.


Quatro personagens, nenhum inocente

Closer opera com quatro personagens que formam dois casais que se cruzam e se reconfiguram ao longo do filme: Dan, escritor medíocre com ambições de profundidade; Alice, jovem com uma história que o filme guarda até o fim; Anna, fotógrafa com mais autoconhecimento do que coragem para agir a partir dele; e Larry, dermatologista com uma brutalidade emocional que é pelo menos honesta sobre o que é.

Jude Law constrói Dan como alguém que usa a sensibilidade artística para justificar comportamentos que a sensibilidade artística não justifica. Natalie Portman faz Alice com uma vulnerabilidade estratégica que o filme vai revelando ser mais construída do que parece. Julia Roberts interpreta Anna com uma contenção que é ela mesma uma forma de violência: a pessoa que sente tudo e revela pouco, que usa o autocontrole como proteção e como arma. Clive Owen entrega Larry com uma carnalidade e uma raiva que são as mais honestas do quarteto, porque o que ele quer e o que está disposto a fazer para conseguir estão sempre visíveis, sem o verniz que os outros usam.


A cena do aquário e a cena do strip club

Closer tem duas cenas que concentram o que o filme está fazendo de forma que o resto do filme explica e essas duas cenas demonstram. A primeira é a conversa entre Dan e Larry num aquário público, onde Larry descobre a traição de Anna e exige detalhes que Dan fornece com uma crueldade que se disfarça de honestidade. Os dois homens estão se machucando através das mulheres que compartilharam, usando informação como instrumento de dominância, e Nichols filma essa troca com uma frieza que recusa qualquer julgamento fácil sobre quem está sendo mais cruel.

A segunda é a cena entre Larry e Alice num strip club, onde Larry tenta comprar de Alice o que ela não está vendendo e Alice usa as regras do ambiente para manter o controle de uma situação que foi projetada para retirá-lo dela. Portman e Owen jogam essa cena como um duelo de linguagem em que cada um tenta usar as palavras para chegar a um lugar que o outro não quer ceder, e o resultado é simultaneamente a cena mais erótica e a mais fria do filme, porque o desejo e o poder estão completamente entrelaçados e nenhum dos dois pode existir sem o outro naquele espaço.


A verdade como arma

O que Closer examina com mais precisão é o uso da verdade como instrumento de dano. Os personagens não mentem apenas para se proteger: dizem a verdade de formas calibradas para machucar, revelam o que revelam no momento em que a revelação vai causar mais estrago, usam a honestidade como cobertura para impulsos que a honestidade não explica. Dan quer que Anna saiba dos detalhes de sua noite com Alice porque sabe que os detalhes vão doer de uma forma específica.

Marber e Nichols entendem que nos relacionamentos íntimos a verdade raramente é um valor neutro. É sempre dita por alguém com alguma intenção, no momento escolhido por alguma razão, com a dosagem determinada pelo efeito desejado. Closer é o filme mais honesto disponível sobre essa desonestidade específica, a que se esconde dentro da verdade e usa a verdade como disfarce.


Onde assistir e o que esperar

Closer está disponível em plataformas de streaming e na Filmoteca Seu Manolo. O filme tem 104 minutos que são densos de forma incomum para a duração: não há cena de respiro, não há momento em que a tensão entre os personagens baixa completamente. A trilha usa Damien Rice de forma que se tornou referência involuntária para o tipo de melancolia que o filme habita, e The Blower's Daughter sobre os créditos iniciais estabelece o tom antes que o primeiro diálogo comece. Espectadores que chegam esperando romance vão precisar de ajuste: Closer usa a gramática do romance para fazer outra coisa completamente.


O idioma da crueldade

Closer é o estudo mais preciso disponível no cinema sobre como a linguagem, mesmo quando tecnicamente funciona, pode ser usada de formas que tornam a comunicação real impossível. Dan, Alice, Anna e Larry falam bem, articulam com clareza, têm vocabulário emocional sofisticado, e usam tudo isso para se ferir com uma eficiência que o silêncio nunca alcançaria.

Nichols filma personagens que dizem demais, que revelam com precisão cirúrgica o que vai causar mais dano, que usam a honestidade como cobertura para impulsos que não têm nada de honesto. A comunicação nos relacionamentos pode falhar pelo excesso que machuca ou pelo déficit que sufoca, e o resultado, em ambos os casos, é a mesma solidão de duas pessoas que existem no mesmo espaço sem conseguir se alcançar.

quinta-feira, 19 de março de 2026

Assassinato em Gosford Park (2001) Gosford Park - 2 h 17 min

O CINEMA DE ROBERT ALTMAN — Uma Obra em Mosaico

Apresenta a vida dos convidados e criados de uma festa de 1932 em uma casa de campo na Inglaterra, enquanto investigam um assassinato envolvendo um deles.


Comédia de Humor Negro, Drama, Mistério


MP4 / HD / LEG: Português

IMDB: 7,2   METASCORE: 9,0
FLICK METRIX: 77   Average Percentile: 57.4%
87%Tomatometer163 Reviews   78%Popcornmeter

Elegância e Segredo

Em uma casa onde tudo parece ordenado, o crime revela aquilo que a etiqueta insiste em esconder.


Arquitetura Social

Em Assassinato em Gosford Park, Robert Altman constrói um retrato minucioso da sociedade inglesa dos anos 1930, articulando dois mundos paralelos: o dos aristocratas e o dos empregados. A mansão torna-se um microcosmo rigidamente hierarquizado, onde cada gesto, cada palavra e cada silêncio carregam significados sociais precisos. A câmera circula com fluidez, revelando as conexões invisíveis entre os diferentes níveis dessa estrutura.




O Crime como Sintoma

Embora estruturado em torno de um assassinato, o filme subverte as expectativas do gênero policial. O mistério não é o centro, mas um catalisador que expõe tensões já existentes. Altman desloca o foco da resolução para a observação: mais importante do que descobrir o culpado é compreender o sistema que torna o crime possível. Assim, o enigma se dissolve em um retrato mais amplo de poder, classe e aparência.





Recepção e Consagração

Amplamente aclamado, o filme marcou um dos momentos mais celebrados da fase final de Altman. Vencedor do Oscar de Melhor Roteiro Original e indicado a diversas categorias, Gosford Park foi reconhecido por sua sofisticação narrativa, direção precisa e elenco excepcional. Com o tempo, consolidou-se como uma das grandes obras corais do cinema contemporâneo, reafirmando a relevância do diretor em sua maturidade.





Entre Fascínio e Rejeição

Os índices de recepção confirmam seu prestígio: avaliações elevadas tanto em plataformas gerais quanto em ambientes mais especializados. Em espaços como Flick Metrix e Criticker, o filme figura entre os mais bem avaliados da carreira de Altman, refletindo sua ampla aceitação crítica e cinéfila. Ainda assim, sua grande quantidade de personagens, seus diálogos sobrepostos e sua narrativa pouco didática podem exigir maior atenção do espectador, afastando aqueles que buscam um mistério mais direto ou convencional — embora seja justamente nessa complexidade que reside sua força.


terça-feira, 28 de outubro de 2025

O Plano Perfeito (2006) Inside Man - 2 h 9 min

Filme incluso na mostra da Filmoteca Seu Manolo:

7 FILMES COM DENZEL WASHINGTON


Dir: Spike Lee
Assalto, Drama, Mistério, Suspense

MP4 / HD / LEG: Português

AVALIAÇÕES:
IMDB: 7,6   METASCORE: 7,6
letterboxd: 7,4   CLC: 7,6
86%Tomatometer210 Reviews

Um ladrão que planejou o roubo perfeito. Um detetive que descobriu tarde demais que estava sendo usado.


Spike Lee no gênero

Inside Man é o filme mais lucrativo da carreira de Spike Lee e o mais despretensioso. Depois de Malcolm X, Clockers e 25th Hour, Lee entra no thriller bancário sem a ambição de redefinir o gênero e entrega exatamente o que o gênero pede: ritmo, tensão, um roteiro que guarda informação até o momento certo. O resultado é o filme mais acessível da parceria entre Lee e Washington, e também o que menos exige dos dois, o que não é necessariamente uma crítica.

Russell Gewirtz escreveu um roteiro de engrenagens bem calibradas. Dalton Russell planeja um assalto a banco em Manhattan com uma precisão que vai além do dinheiro, e o detective Keith Frazier é chamado para a negociação sem saber que o verdadeiro jogo está acontecendo numa camada abaixo da que consegue enxergar. O prazer do filme é acompanhar a distância entre o que Frazier acredita estar controlando e o que Russell está de fato executando.



Washington no registro da inteligência

Keith Frazier é um personagem diferente dos que Washington havia interpretado até então. A integridade moral está lá, mas em segundo plano. O que o filme coloca no centro é a inteligência operacional, a capacidade de ler uma situação em movimento e ajustar a posição sem revelar que está ajustando. Washington constrói Frazier como um homem acostumado a ser subestimado e que aprendeu a usar essa subestimação como recurso.

As cenas de negociação com Clive Owen têm uma qualidade de xadrez verbal que depende do equilíbrio entre os dois atores. Owen interpreta Russell com uma calma que beira a indiferença, e Washington responde com uma atenção crescente de quem percebe que a calma do outro lado da linha tem uma fonte que ainda não consegue identificar. É uma troca de informação mínima com implicações máximas, e os dois atores sabem exatamente quanto revelar em cada linha.



Jodie Foster e o terceiro tabuleiro

A entrada de Madeleine White, interpretada por Jodie Foster, adiciona uma camada ao filme que o distingue do thriller bancário convencional. White representa interesses que o banco não quer que a polícia descubra, e sua presença indica que há um terceiro jogo acontecendo além do assalto e da negociação. Foster joga o personagem com uma frieza corporativa que contrasta com a temperatura emocional de Washington, e as cenas entre os dois funcionam porque nenhum dos personagens diz o que realmente quer.

Essa estrutura de múltiplos jogos simultâneos é onde o roteiro de Gewirtz é mais preciso, e Lee filma as camadas sem hierarquizá-las prematuramente, deixando o espectador montar a sequência correta ao longo do último ato.



O que o filme prova

Inside Man foi recebido como entretenimento competente, que é, mas também como prova de que Washington consegue sustentar um filme de gênero popular sem reduzir o nível da performance ao nível do gênero. Frazier não tem a profundidade de Trip ou de Malcolm X, mas Washington o trata com o mesmo respeito técnico, construindo um homem específico dentro de uma estrutura genérica em vez de entregar um tipo.

O filme arrecadou 186 milhões de dólares mundialmente e tem 86% no Rotten Tomatoes, números que importam menos do que o que revelam sobre o alcance de Washington como ator: consegue preencher um blockbuster sem ser consumido por ele, o que é uma habilidade rara e frequentemente subestimada.



Uma parceria em dois registros

Malcolm X e Inside Man são os dois extremos da parceria entre Spike Lee e Washington, e a distância entre eles define o alcance dos dois. Em Malcolm X, Lee exige tudo e Washington entrega tudo. Em Inside Man, Lee pede competência e Washington entrega mais do que competência. O que os dois filmes têm em comum é que Lee nunca trata Washington como estrela a ser protegida, e Washington nunca usa Lee como plataforma para demonstração de alcance. É uma parceria de trabalho no sentido mais direto, e Inside Man é a prova de que funciona mesmo quando os dois estão operando abaixo do nível máximo.

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