Filme incluso na mostra da Filmoteca Seu Manolo:
Wells
e o realismo sem concessão
The Company Men foi lançado em 2010, dois anos depois da crise financeira que havia produzido o maior desemprego nos Estados Unidos desde a Grande Depressão, e o timing é parte do argumento do filme: as reestruturações que acompanha são o tipo de coisa que estava acontecendo em escala massiva naquele momento, e Wells escolheu examinar esse fenômeno através de personagens cujo nível de vida tornava a perda simultaneamente mais visível e mais facilmente ignorada pelo público que estava assistindo.
A decisão de centrar o filme em executivos
de alto nível é uma decisão editorial precisa: a obsolescência profissional é frequentemente retratada como problema dos trabalhadores de nível mais baixo, e
ao mostrar que o mesmo mecanismo opera nos níveis mais altos da hierarquia,
Wells revela que o sistema não respeita curriculo nem lealdade nem posição. A
reestruturação é um calculo matematico, e quem está nos dois lados do cálculo é determinado pelos números, não pelo valor humano de quem está sendo eliminado.
Ben
Affleck, Tommy Lee Jones e Chris Cooper
Ben Affleck como Bobby Walker é o personagem que o filme usa para examinar a fase de negação: Bobby demitido não acredita que vai ficar desempregado por muito tempo, continua jogando golfe, continua com o carro caro, continua apresentando o currículo com a confiança de quem nunca precisou vender sua experiência porque a experiência sempre se vendia sozinha. Affleck interpreta Bobby com uma qualidade de certeza que vai progressivamente custando mais para manter, e o momento em que Bobby percebe que a certeza não é suficiente é um dos mais honestos do filme porque Affleck filma sem colapso dramático: há apenas o momento em que a expressão muda antes que o personagem tenha tido tempo de decidir o que expressar.
Tommy Lee Jones como Gene McClary é o
executivo senior que havia construído a empresa e que vê a reestruturação de
dentro, com o poder de decidir quem fica e quem vai mas sem o poder de impedir
que o processo aconteça. Jones interpreta Gene com o peso de alguém que entende
completamente o que está acontecendo e não tem argumentos suficientes dentro do
sistema para impedí-lo: o argumento moral contra a reestruturação não é um
argumento que o sistema reconhece.
Chris Cooper como Phil Woodward é o
personagem mais devastador do filme: um engenheiro de 60 anos que havia
dedicado trinta anos à empresa e que descobre que trinta anos de lealdade não
são argumento numa planilha de cortes. Cooper filma Phil com uma quietude que é a escolha formal mais precisa do filme: Phil não grita, não confronta, não faz
cenas. Há apenas o progressivo encolhimento de um homem que o sistema declarou
desnecessário e que internalizou essa declaração de forma que o filme não
precisa verbalizar.
O
trabalho dos desempregados
Uma das dimensões mais precisas de The Company Men é a que examina o que os executivos demitidos fazem com o tempo: os centros de recolocação, as sessões de atualização de currículo, os simulacros de entrevista com coaches que ensinam como apresentar a experiência de forma que o mercado queira comprar. Wells filma esses ambientes com uma ironia que não é cruel mas reveladora: o sistema que eliminou esses trabalhadores criou um mercado paralelo para ajudar esses trabalhadores a voltar para o sistema, e esse mercado tem sua própria lógica de lucratividade que não depende do sucesso dos que usa.
A cena em que Bobby é instruído a não
mencionar o salário anterior nas entrevistas porque tornaria o candidato não
competitivo é o momento em que o filme revela o que a obsolescência
profissional produz além do desemprego: a necessidade de se tornar uma versão
menor de si mesmo para caber num mercado que já havia decidido que a versão
original era cara demais para ser mantida.
O
que fica
The Company Men termina com uma resolução que é simultaneamente satisfatória emocionalmente e honesta sobre suas próprias limitações: Gene usa a indenização para abrir um negócio com Bobby e Phil, e o filme filma isso como um final possível sem apresentá-lo como o final ideal. Três homens encontraram uma forma de continuar dentro de um sistema que havia declarado que não precisava mais deles, e a forma que encontraram dependeu de um conjunto de recursos e de uma rede de relações que a maioria dos trabalhadores demitidos não tem.
Wells entendeu que o final feliz de The
Company Men é um final de privilégio, e filmou essa consciência nas margens: o
que Bobby, Gene e Phil conseguem fazer no final do filme não é disponível para
Phil se fosse mais velho, para Bobby se não tivesse o cunhado com quem pudesse
trabalhar enquanto procurava emprego, para Gene se não tivesse a indenização
que permitiu o investimento. O mecanismo da obsolescência é democrático. As
saídas disponíveis não são.
Onde assistir: The Company Men está disponível na Filmoteca Seu Manolo e em plataformas de streaming no Brasil: A Grande Virada - Veja onde assistir. O filme tem 109 minutos que passam com o ritmo do drama bem executado. O espectador que tiver paciência para um filme que prefere a acumulação de detalhe ao drama de superfície vai encontrar o retrato mais honesto da obsolescência profissional que o cinema americano produziu sobre a crise de 2008.