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quarta-feira, 29 de abril de 2026

Vale Abraão (1993) - 3 h 7 min

FORA DO RADAR: Filmes que mais gente deveria ter visto

Ema é uma garota muito bonita e inocente. Ela se casa com o Dr. Carlo Paiva. Eles se estabelecem no Vale de Abraão. Pouco a pouco, Ema se torna infeliz em seu casamento e, aproveitando sua liberdade, ela se apaixona.


Vale Abraão (1993) - IMDb
Dir: Manoel de Oliveira
Drama

MP4 / HD- / LEG: Português / ÁUDIO: Português (Portugal)

IMDB: 7,3 (1,7 mil)   Critic: 75
Letterboxd: 82 (2,8 mil)   Flick Metrix: 76
86%Tomatometer7 Reviews   77%Popcornmeter


Madame Bovary sobreviveu. Mudou de país, de século e de nome. Continua insatisfeita.


Oliveira e a duração como forma

Vale Abraão dura 187 minutos e cada um deles é uma declaração de intenção. Manoel de Oliveira, que tinha 84 anos quando o filmou, não estava interessado em contar uma história com eficiência. Estava interessado em criar uma experiência de tempo que replicasse a experiência interna de Ema: a lentidão sufocante de uma vida que não corresponde ao que se imaginou para ela. A duração não é excesso. É o filme. Espectadores que resistem ao ritmo estão tendo a experiência correta, porque Ema também resiste, e essa resistência é o seu drama central.

Agustina Bessa-Luís e a palavra como arquitetura

O roteiro de Agustina Bessa-Luís, adaptado do seu próprio romance, tem uma relação com a linguagem que é incomum no cinema: as palavras não servem à ação, são a ação. Os diálogos de Vale Abraão têm a densidade da prosa literária portuguesa do século XIX, e Oliveira filma as conversas com uma frontalidade que recusa a naturalização cinematográfica convencional. Personagens falam para a câmera, pausas duram mais do que o conforto permite, e o resultado é um filme que exige do espectador uma escuta ativa que o cinema raramente pede.

Ema e a impossibilidade do suficiente

Leonor Silveira interpreta Ema com uma presença que comunica o vazio sem precisar representá-lo. Ema não é simplesmente insatisfeita: é alguém para quem a realidade tem uma textura errada, um peso errado, uma temperatura errada. Cada relacionamento que busca fora do casamento é uma tentativa de encontrar o mundo que imaginou existir, e cada um fracassa não por causa dos homens mas por causa do que Ema procura neles, que é algo que nenhuma pessoa real poderia oferecer. Oliveira não julga Ema. Observa.

O Douro como contraponto

Oliveira filma o vale do Douro com uma beleza que não é consolação. A paisagem existe no filme como aquilo que permanece enquanto as vidas humanas se consomem, indiferente e permanente, e essa indiferença do mundo natural ao drama humano é um dos argumentos visuais mais consistentes do filme. As quintas, os vinhedos, o rio: tudo tem uma solidez que contrasta com a fluidez autodestrutiva de Ema, e Oliveira usa esse contraste sem sublinhar, deixando-o trabalhar em silêncio por baixo da narrativa.

Onde assistir e o que esperar

Vale Abraão não está disponível nas principais plataformas de streaming brasileiras. Vale buscar em acervos especializados em cinema europeu de autor ou plataformas de importação. Está disponível na Filmoteca Seu Manolo. A experiência pede uma tarde inteira e a disposição de abandonar qualquer expectativa de ritmo convencional. A fotografia de Mario Barroso usa a luz natural do Douro com uma qualidade pictórica que justifica sozinha parte da duração. Assistir em tela pequena é possível, mas empobrece o trabalho visual de Oliveira de forma considerável.

Por que ficou fora do radar

Vale Abraão chegou em 1993 num circuito de festivais que já reconhecia Oliveira como mestre, mas nunca o transformou em nome acessível ao público cinéfilo mais amplo. A duração funcionou como barreira de entrada, a língua portuguesa como barreira de distribuição, e o refinamento extremo da linguagem como barreira de recepção. O filme exige demais para quem não está preparado e entrega demais para quem está, e esse desequilíbrio entre exigência e recompensa é o destino comum das obras que chegam antes do público que precisariam ter encontrado.