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sábado, 6 de junho de 2026

Frango com Ameixas (2011) Poulet aux prunes - 1 h 33 min

 Filme incluso na Série "CLC INDICA"


Frango com Ameixas (2011) - IMDb
Dir: Vincent Paronnaud, Marjane Satrapi
Comédia, Drama

MP4 / HD / LEG: Português

AVALIAÇÕES:
IMDB: 6,9   METASCORE: 7,0
Letterboxd: 7,0   CLC Rating: 7,1
74%Tomatometer70 Reviews

Nasser Ali Khan decidiu morrer. O violino foi quebrado, o amor da vida ficou para trás décadas atrás, e o resto não era suficiente para continuar.

A decisão como ponto de partida

Frango com Ameixas começa onde a maioria dos filmes terminaria: com a decisão irreversível já tomada. Nasser Ali Khan, músico renomado no Teerã de 1958, deita na cama depois que a mulher quebra seu violino durante uma briga e resolve não se levantar mais. O filme não trata isso como crise a ser resolvida. Trata como fato estabelecido em torno do qual tudo o mais vai girar.

Marjane Satrapi adapta sua própria graphic novel — publicada em 2004 e premiada em Angoulême — e co-dirige com Vincent Paronnaud, a mesma dupla de Persépolis. A passagem do desenho animado para o live action é a primeira aposta do filme, e Satrapi a faz sem ansiedade: os atores são europeus, falam francês, e o Irã de 1958 é reconstruído com uma liberdade estilística que deve mais à tradição da fábula do que ao realismo histórico. Quem espera Persépolis em versão live action vai encontrar algo diferente, e o filme não se desculpa por isso.


A estrutura como forma de sentir

O roteiro organiza os oito dias de Nasser Ali de forma não linear, intercalando o presente da cama com flashbacks, flash-forwards e digressões que incluem o Anjo da Morte, visões do futuro dos filhos e uma conversa imaginária com Sophia Loren. Satrapi e Paronnaud constroem essa estrutura para criar acúmulo emocional. O espectador vai entendendo o peso da decisão de Nasser Ali à medida que entende o que ele perdeu, e a ordem em que essas perdas são reveladas importa tanto quanto as perdas em si.

A cena central do filme, quando a história de amor com Irane é contada em sua extensão completa, reorganiza tudo o que veio antes e explica o que o violino representava além do violino. Satrapi filmou o amor que não se realizou com a mesma precisão com que filmou o casamento que não deveria ter acontecido, e a comparação entre os dois não precisa ser declarada porque a câmera já a fez.


Mathieu Amalric e o limite da contenção

Amalric é um ator de grande superfície interna e pouca superfície externa, o que o torna ideal para personagens que carregam mais do que mostram. Nasser Ali é construído sobre essa qualidade: um homem que decidiu encerrar tudo e que ainda assim não consegue não reagir ao mundo que continua acontecendo ao redor da cama. A performance tem momentos de uma precisão que o filme inteiro depende, especialmente nas cenas com os filhos, onde Nasser Ali precisa ser simultaneamente ausente e presente.

Parte da crítica da época apontou rigidez na performance. É uma leitura possível, mas confunde uma escolha com uma limitação. Nasser Ali não é um homem que demonstra, é um homem que decidiu parar de demonstrar, e Amalric sustenta essa recusa com consistência.


O que Satrapi entende sobre perda

Frango com Ameixas é um filme sobre o amor que ficou no passado e envenenou tudo o que veio depois, mas Satrapi tem inteligência suficiente para não romantizar essa leitura. Nasser Ali é um homem difícil, egoísta em relação aos filhos, incapaz de reconhecer o que a mulher carregou ao lado dele por anos. O filme não pede que o espectador o absolva pela grandeza artística, e não sugere que a arte justifica a ausência emocional. O que faz é mais honesto: mostra um homem que fez escolhas e que vai morrer com o peso delas, e deixa o espectador decidir o que fazer com isso.

Golshifteh Farahani aparece em poucas cenas como Irane e carrega o filme inteiro nelas. É o tipo de performance que define um filme sem protagonizá-lo.


Por que vale

Frango com Ameixas chegou às salas em 2011 e ficou pouco tempo. É um filme que pede um tipo de atenção que o circuito comercial raramente consegue sustentar: lento, estruturalmente incomum, emocionalmente caro. Para quem tem paciência para deixar o filme trabalhar no seu próprio tempo, o resultado é um dos retratos mais honestos sobre perda, escolha e o custo de viver com as próprias decisões que o cinema europeu produziu nos anos 2010.









quarta-feira, 27 de maio de 2026

Permissão (1967) La permission - 1 h 27 min

 Filme incluso na mostra da Filmoteca:



Permissão (1967) - IMDb
Dir: Melvin Van Peebles
Drama, Romance

MP4 / HD / LEG: Inglês e português traduzido

AVALIAÇÕES:
IMDB: 7,1   METASCORE: 7,7
Letterboxd: 7,6   Flick Metrix: 6,9
100%Tomatometer9 Reviews

Turner é um soldado negro americano estacionado na França. Recebe três dias de licença em Paris. O que encontra nesse fim de semana não poderia ter sido filmado nos Estados Unidos.

Van Peebles e o caminho até o filme

Melvin Van Peebles nasceu em Chicago em 1932 e chegou a Hollywood no final dos anos 1950 depois de ter dirigido alguns curtas em San Francisco. O que encontrou foi o sistema de segregação que definia o cinema americano da época: não havia espaço para um diretor negro numa indústria que mal permitia que atores negros interpretassem personagens complexos. A oferta que recebeu foi de operador de elevador.

Foi para Paris. Aprendeu francês do zero. Trabalhou como motorista de bonde e como assistente em astronomia para sobreviver. Escreveu cinco romances em francês, publicados na França para um público francês. O quinto, La Permission, publicado em 1967, tornou-se a base do seu primeiro longa-metragem, filmado no mesmo ano com financiamento do governo francês e um orçamento de 200 mil dólares.

A história de como Van Peebles chegou a fazer o filme é ela mesma o argumento central do filme: um homem que não encontrou permissão no único lugar onde deveria tê-la encontrado foi buscar permissão em outro lugar, e o que trouxe de volta mudou o cinema americano de forma que Hollywood não havia calculado.

Turner e os três dias

Turner, interpretado pelo ator britânico-guianense Harry Baird, é promovido pelo capitão Lutz num ato que o filme deixa claro ser motivado por culpa racial, não por mérito. A promoção vem acompanhada de três dias de licença em Paris. Turner chega à cidade sozinho, sem plano, sem conhecer ninguém, e perambula pelas ruas com a qualidade de deslocamento específica de alguém que está num lugar onde a língua não é a sua e as regras sociais não são as que conhece.

No primeiro dia, numa boate, encontra Miriam Duval, interpretada por Nicole Berger, uma jovem francesa que trabalha numa loja e que aceita acompanhá-lo numa viagem ao litoral no dia seguinte. Os três dias que seguem são o coração do filme: dois estranhos descobrindo que se importam um com o outro num espaço temporário criado pela licença militar, sabendo que esse espaço vai acabar.

A Nouvelle Vague como instrumento

Van Peebles passou seus anos em Paris frequentando a Cinémathèque Française de Henri Langlois, onde assistiu sistematicamente ao cinema que Godard, Truffaut e Varda estavam fazendo nas ruas ao redor. O que aprendeu não foi uma estética para imitar mas um método: filmar com liberdade formal, usar a montagem como comentário, deixar que a câmera pense junto com o personagem.

Permissão usa jump cuts, inserções de fantasia, voz em off irônica e câmera na mão de uma forma que é ao mesmo tempo um filme da Nouvelle Vague e um filme completamente diferente de qualquer coisa que a Nouvelle Vague havia produzido. A diferença é o que o filme está examinando: a Nouvelle Vague francesa filmava a liberdade como conquista natural. Van Peebles filma a liberdade como concessão temporária que tem data de vencimento e condições específicas de uso.

Quando Turner e Miriam entram num restaurante chinês e Turner acha que o músico está fazendo piadas racistas sobre ele, Van Peebles usa a câmera subjetiva e a montagem para mostrar o que está acontecendo dentro da cabeça de Turner: a suspeita permanente, a vigilância constante, o cansaço de nunca poder simplesmente estar num lugar sem calcular o que a sua presença significa para quem está ao redor.

Nicole Berger e a tragédia fora do filme

Nicole Berger interpreta Miriam com uma naturalidade e uma generosidade que tornam a relação entre os dois personagens completamente crível. É uma das melhores performances femininas do cinema francês dos anos 1960 e praticamente ninguém sabe que existe porque Berger morreu num acidente de carro em 1967, pouco depois de terminar as filmagens. Tinha 31 anos. O filme foi um dos seus últimos trabalhos.




O Festival de San Francisco e o que aconteceu depois

Van Peebles conheceu numa festa em Paris Albert Johnson, crítico de cinema afro-americano e programador do Festival Internacional de San Francisco. Johnson o convidou para apresentar o filme no festival de 1967, na seção de novos diretores. Van Peebles chegou ao festival como delegado da França, num momento em que Hollywood ainda não havia permitido que um diretor negro fizesse um único longa-metragem de ficção numa grande produtora.

O filme venceu o prêmio da crítica. Como Van Peebles descreveu décadas depois: enquanto Hollywood enrolava para deixar o poder sair das mãos brancas, ele apareceu no Festival de San Francisco com sua traseira de mogno como delegado da França. Hollywood o chamou logo depois. O resultado foi Watermelon Man em 1970 e Sweet Sweetback's Baadasssss Song em 1971, que com orçamento de 150 mil dólares arrecadou quinze milhões e lançou as bases do cinema blaxploitation.

O que o filme diz sobre raça e permissão

O título é mais preciso do que parece. Permissão não é apenas o nome da licença militar que Turner recebe. É o tema central do filme: quem precisa de permissão para existir, para amar, para ocupar espaço, e quem concede essa permissão e em que condições.

A França do filme não é o paraíso racial que a narrativa americana frequentemente construiu em torno de Paris como lugar onde artistas negros americanos encontraram liberdade. Van Peebles filma as contradições da França com a mesma precisão com que filma as contradições dos Estados Unidos: o capitão Lutz é casualmente racista com Turner ao mesmo tempo em que o promove, os franceses ao redor de Miriam reagem à relação interracial com uma mistura de curiosidade e desconforto que o filme não minimiza.

O que Turner encontra em Paris são três dias de uma liberdade relativa que depende de ele estar de licença, de estar longe da base, de estar num país que não é o dele. Quando a licença acaba, a permissão acaba com ela.

Onde assistir: Permissão está disponível na Filmoteca Seu Manolo e quem quiser acesso é só pedir por direct através do Instagram. Um filme para assistir quando você quer entender o que Van Peebles precisou fazer para poder fazer cinema.



terça-feira, 12 de maio de 2026

Frantz (2016) - 1 h 53 min

Mostra

VALE O PLAY: Prime Video - Edição 1

No rescaldo da Primeira Guerra Mundial, uma jovem alemã que chora a morte do seu noivo em França encontra um misterioso francês que visita o túmulo do seu noivo para depositar flores.


Frantz (2016) - IMDb
Dir: François Ozon
Drama de Época, Drama Psicológico, Romance Trágico, Guerra, História


MP4 / HD / LEG: Português

IMDB: 7,5   METASCORE: 7,3
Letterboxd: 7,6   Flick Metrix: 76
91%Tomatometer138 Reviews

O luto compartilhado não une duas pessoas. Cria entre elas um espaço onde a mentira pode parecer amor.


O túmulo como ponto de encontro

Frantz começa numa Alemanha de 1919 com Anna visitando o túmulo de seu noivo morto na guerra. No mesmo túmulo, em dias diferentes, ela encontra Adrien, um jovem francês que também deposita flores para Frantz. A guerra acabou de terminar, o ódio entre os dois países ainda está quente o suficiente para que a presença de um francês numa cidade alemã seja um ato que exige coragem ou desatenção, e Ozon usa essa tensão como ambiente antes de usá-la como argumento.

François Ozon filma Frantz em preto e branco com exceções deliberadas: quando Adrien conta histórias sobre Frantz em Paris, quando a memória do morto entra numa cena com sua presença máxima, a imagem ganha cor. É uma escolha formal que funciona como mapa emocional do filme: o presente é cinza, o passado é onde a vida ainda tem saturação, e a fronteira entre os dois vai sendo testada à medida que Anna e Adrien constroem uma relação ao redor do homem que os dois perderam.


Ozon e a melodrama como instrumento

François Ozon trabalha no território do melodrama com uma consciência da tradição que evita tanto a ironia distanciada quanto a entrega ingênua ao gênero. Frantz é um filme que usa as convenções do melodrama clássico europeu, a guerra como ruptura, o luto como estado de suspensão, o amor impossível como motor narrativo, e as usa sem aspas, sem piscar para o espectador, com a seriedade que o material exige.

A referência declarada é Broken Lullaby de Ernst Lubitsch, de 1932, que Ozon revisita não como remake mas como ponto de partida para um filme que vai em direção diferente. Onde Lubitsch seguia a perspectiva do soldado francês que matou o alemão e foi buscar absolvição na família do morto, Ozon faz o movimento de câmera que transforma o filme: coloca Anna no centro, acompanha a perspectiva dela, e descobre que a história de culpa e perdão que Lubitsch contou é uma história completamente diferente quando vista de dentro da família do morto.


Paula Beer e o luto como estado de consciência

Paula Beer ganhou o prêmio de melhor atriz em Veneza pela performance e a distinção é justa por razões que o filme vai revelando em camadas. Anna começa como personagem dentro do luto convencional do melodrama, a noiva enlutada que preserva a memória do morto, e vai se tornando outra coisa à medida que Frantz revela o que Adrien está escondendo e o que Anna decide fazer com esse conhecimento.

Beer constrói Anna com uma economia que deixa o processo interno visível sem externalizar. Cada cena em que Anna recebe uma informação nova, sobre Frantz, sobre Adrien, sobre a mentira que está sendo construída ao redor da memória do noivo, é filmada com atenção ao rosto de Beer de uma forma que torna desnecessário qualquer diálogo explicativo. Anna é uma mulher que está escolhendo, conscientemente, o que quer saber e o que prefere não saber, e essa escolha é o centro moral do filme.


A mentira como presente

Frantz tem uma estrutura que divide o filme em dois movimentos, e a transição entre eles é o momento mais corajoso das escolhas de Ozon. Quando a verdade sobre Adrien e sua relação com Frantz é revelada, o filme não usa essa revelação como clímax dramático que resolve o que estava em suspensão. Usa como ponto de partida para uma pergunta mais difícil: o que fazer com a verdade quando a mentira está sustentando pessoas que precisam ser sustentadas?

A família de Frantz, o pai interpretado por Ernst Stötzner com uma rigidez que vai rachando ao longo do filme, recebeu as histórias de Adrien sobre o filho como presente, como a possibilidade de continuar conhecendo alguém que estava morto. A revelação de que essas histórias eram parcialmente ficção não apaga o que fizeram pelas pessoas que as receberam. Ozon filma essa ambiguidade sem resolvê-la, e é nesse espaço não resolvido que Frantz encontra sua maior profundidade.


A segunda metade e o movimento de Anna

O que distingue Frantz da maioria dos filmes sobre luto e guerra é a segunda metade, quando Anna vai para Paris em busca de Adrien e o filme muda completamente de território. A Alemanha cinza e fechada dá lugar a uma Paris que tem cor mas não tem o calor que Anna esperava encontrar, e a busca por Adrien revela que o homem que ela conheceu em Quedlinburg não é o mesmo homem que existe no próprio país, dentro da própria família, dentro da própria culpa.

Ozon usa essa viagem como instrumento de emancipação que não chega completo: Anna não encontra o que foi buscar, não resolve o que esperava resolver, e o filme não a pune por isso nem a recompensa de forma conveniente. O que ela encontra é outra coisa, menor e maior ao mesmo tempo, e a última cena do filme, Anna diante de um quadro num museu, é o tipo de final aberto que só funciona quando tudo que veio antes foi construído com suficiente precisão para que o silêncio do final carregue peso.


Onde assistir e o que esperar

Frantz está disponível no Prime Video e na Filmoteca Seu Manolo. O filme tem 113 minutos que têm o ritmo do melodrama europeu clássico, mais lento do que o thriller contemporâneo e mais denso do que a comédia romântica, e essa lentidão é argumento: o luto não tem pressa, e Ozon não vai apressá-lo para acomodar espectadores que chegam esperando outra velocidade. Pierre Niney como Adrien tem a tarefa de construir um personagem que o espectador precisa entender sem completamente perdoar, e encontra o equilíbrio com uma contenção que combina com o tom geral do filme.


O morto que organiza os vivos

Frantz examina um território que o cinema de guerra raramente explora: o que acontece com as pessoas que ficaram depois que a guerra terminou, como os mortos continuam organizando as vidas dos sobreviventes, e como a fronteira entre memória e ficção se torna irrelevante quando a ficção está fazendo o trabalho que a verdade não conseguiria fazer.

Anna e Adrien são unidos por Frantz de uma forma que nenhum dos dois planejou e que nenhum dos dois sabe completamente como nomear, e Ozon entende que esse tipo de vínculo, formado na borda do luto e da culpa e da mentira bem-intencionada, é tão real quanto qualquer outro. Talvez mais, porque foi construído sem nenhuma das ilusões que o amor costuma usar como andaime.


segunda-feira, 11 de maio de 2026

Bom Trabalho (1999) Beau travail - 1 h 32 min

Mostra:

TOP 10. MAS DE QUEM? - Sight and Sound / BFI: Os Maiores Filmes de Todos os Tempos (2022)

Este filme se concentra em um ex-oficial da Legião Estrangeira que relembra sua vida antes gloriosa, liderando tropas em Djibouti.


Bom Trabalho (1999) - IMDb
Dir: Claire Denis
Drama, Guerra


MP4 / HD- / LEG: Português

IMDB: 7,3   METASCORE: 9,1
Letterboxd: 8,2   Flick Metrix: 8,1
87%Tomatometer47 Reviews

O corpo como única linguagem disponível para o que não pode ser dito.


O deserto como interior

Beau Travail começa e termina com Galoup, ex-sargento da Legião Estrangeira Francesa, numa discoteca em Marselha, sozinho entre corpos que dançam. Entre essas duas cenas, Claire Denis constrói um filme sobre a vida militar no Djibuti, sobre hierarquia e disciplina e desejo reprimido e destruição, usando uma gramática visual que recusa a narrativa convencional com uma consistência que é ela mesma um argumento. Não há diálogo que explique o que está acontecendo. Não há cena de confronto que verbalize o que está em jogo. Há corpos no deserto, exercícios militares filmados com a atenção de uma coreografia, e a presença de Sentain, o soldado cuja beleza e integridade Galoup não consegue suportar.

Denis filmou Beau Travail a partir de Billy Budd de Herman Melville, transpondo a história do marinheiro injustamente destruído por um superior para o contexto da Legião Estrangeira no final do século XX, e essa transposição preserva o que Melville estava examinando: o que acontece quando a inveja e o desejo e a incapacidade de nomear o que se sente se combinam numa pessoa com poder suficiente para agir a partir disso.


Denis e o cinema do corpo

Claire Denis é a cineasta contemporânea que mais consistentemente filmou o corpo como território narrativo primário, e Beau Travail é o ponto mais alto dessa filmografia. A câmera de Agnès Godard habita o espaço entre os corpos dos soldados, registra o contato e a distância com uma atenção que transforma cada exercício militar numa dança e cada dança num mapa de desejo e poder.

A decisão de filmar os exercícios da Legião como coreografia é o argumento central do filme: numa instituição onde a linguagem emocional é proibida e o corpo é o único instrumento disponível, tudo que não pode ser dito encontra forma no movimento. Os soldados dobram, esticam, rolam, marcham em formações que têm a precisão de balé e a violência contida de algo que está sempre prestes a explodir. Denis filma esse vocabulário físico com uma câmera que se move dentro dele em vez de observá-lo de fora, e o resultado é uma experiência que o espectador sente antes de entender.


Denis Lavant e o corpo como confissão

Denis Lavant interpreta Galoup com uma fisicalidade que o filme usa de forma precisa. Galoup é um homem que existe inteiramente no corpo: na postura militar, na contenção dos gestos, na forma como ocupa o espaço com uma autoridade que é também uma armadura. Lavant construiu o personagem a partir do exterior para dentro, e essa construção é visível de uma forma que o filme precisa que seja: o que Galoup sente nunca aparece diretamente, aparece na tensão do corpo, na forma como ele olha para Sentain, no espaço que mantém e que mantém com esforço.

A narração em voz over de Galoup, fragmentada e não linear, existe em contraste com o que o corpo mostra: as palavras organizam e racionam e controlam, e o corpo entrega o que as palavras estão escondendo. Denis usa essa contradição como instrumento narrativo central, e Lavant a sustenta com uma precisão que exige do espectador uma atenção ao físico que o cinema narrativo convencional raramente solicita.


Sentain e o que Galoup não suporta

Grégoire Colin interpreta Sentain com uma presença que o filme mantém deliberadamente opaca. Sentain não tem narração, não tem cenas que expliquem seu estado interno, não tem momento em que o filme entra dentro de sua perspectiva. Ele existe como Galoup o vê: como objeto de uma atenção que Galoup não consegue nomear e não consegue desviar.

O que Galoup não suporta em Sentain não é hostilidade nem rivalidade no sentido convencional. É a integridade de Sentain, a forma como ele existe plenamente dentro de si mesmo sem precisar de aprovação ou de hierarquia para se sustentar, e o desejo que essa presença desperta em Galoup, desejo de destruir o que não se pode ter ou ser. Denis não explica essa dinâmica. Filma os dois em cena com uma atenção à distância entre os corpos que diz o suficiente sem precisar de mais.


A música como ruptura

Beau Travail usa a música de forma que poucos filmes tentaram. A trilha de Charles Henri de Pierrefeu e Eran Tzur coexiste com Neil Young e com Benjamin Britten, e essas camadas musicais diferentes criam a textura de um filme que existe em múltiplos registros ao mesmo tempo, o documental e o lírico e o operístico.

O uso de The Rhythm of the Night de Corona na cena final é o movimento mais audacioso do filme e o mais discutido. Galoup sozinho numa discoteca de Marselha, dançando com uma intensidade que o filme inteiro havia contido, liberando num espaço vazio e numa música de dança comercial tudo que a Legião e a masculinidade e a incapacidade de se nomear haviam reprimido. Denis não prepara essa cena nem a explica. Chega nela e a deixa durar, e o que acontece nessa duração é o filme se revelando completamente depois de ter ficado à beira de si mesmo por noventa minutos.


Onde assistir e o que esperar

Beau Travail está disponível no Filmicca e na Filmoteca Seu Manolo. O filme tem 90 minutos que exigem uma forma de atenção diferente da que o cinema narrativo convencional solicita: a atenção ao que os corpos fazem, ao espaço entre eles, ao que a câmera escolhe registrar e ao que escolhe deixar fora do quadro. Espectadores que chegam esperando história no sentido convencional vão precisar de ajuste. O que Denis oferece é mais próximo de poema do que de romance, e a experiência de se render ao ritmo do filme é parte do que o filme está pedindo.




O que o corpo diz quando a palavra falha

 

Beau Travail pertence à lista do Sight & Sound 2022 no sétimo lugar, e sua presença ali é ela mesma um argumento sobre o que o eleitorado ampliado decidiu valorizar. É um filme feito por uma mulher sobre homens que não têm linguagem para o que sentem, filmado num território colonial com uma atenção à dimensão física da existência que o cinema dominante raramente oferece. Denis não faz concessões à legibilidade imediata, não oferece chave interpretativa, não resolve o que deixou em aberto.

O que Beau Travail oferece em vez disso é a experiência de um cinema que confia completamente na imagem e no corpo como instrumentos de significado, que entende que o que não pode ser dito pode ser filmado, e que o espaço entre dois corpos num deserto pode conter o mesmo peso que qualquer diálogo jamais carregaria. Que um eleitorado de dois mil e quinhentos pessoas tenha colocado esse filme no sétimo lugar da maior lista do cinema mundial diz algo sobre onde a crítica cinematográfica internacional está olhando agora, e para que tipo de grandeza decidiu apontar.

sábado, 9 de maio de 2026

Quem Você Pensa que Sou (2019) Celle que vous croyez - 1 h 41 min

Mostra:

O AMOR NO TEMPO DO QUASE: Vínculos Frágeis num Mundo Acelerado

Com intenção de espiar o seu companheiro, Claire, uma professora divorciada de 50 anos, cria um perfil falso no Facebook de uma mulher de 24 anos, apropriando-se de uma foto de uma jovem bonita.



Drama Psicológico, Romance Sensual, Comédia, Suspense


MP4 / HD / LEG: Português

IMDB: 6,8   METASCORE: 7,0
Letterboxd: 6,8   Flick Metrix: 71
88%Tomatometer73 Reviews

Claire tem 50 anos e criou um perfil falso de uma jovem de 24. O que começou como espionagem virou amor. O problema é que o amor é real e a pessoa não existe.

Nebbou e o romance de Camille Laurens

Safy Nebbou adaptou o romance de Camille Laurens com uma fidelidade que preserva o que o livro tem de mais perturbador: a primeira pessoa de Claire, essa voz que narra e que o espectador vai gradualmente percebendo ser uma narração dentro de uma narração. O filme usa a estrutura do livro, Claire contando sua história a uma psicanalista, para criar uma distância entre o que aconteceu e como Claire o interpreta, e essa distância é o espaço onde o filme vive. Nebbou filma material com a seriedade de quem entende que a história de uma mulher de 50 anos que cria um avatar digital para espionar o ex-amante e se apaixona pelo amigo dele é simultaneamente ridícula e completamente humana.




Juliette Binoche e a performance dupla

Juliette Binoche interpreta Claire em dois registros simultâneos: a mulher de 50 anos sentada no consultório da psicanalista e a jovem Clara de 24 anos que existe apenas nas telas e na imaginação de Alex. Nebbou resolve esse desafio formal com uma elegância que poderia facilmente virar truque: quando Claire é Clara, o filme a mostra como ela imagina que Alex a imagina, não como ela realmente é, e Binoche habita essa distinção com uma precisão que torna a performance tecnicamente extraordinária. O espectador vê simultaneamente a mulher que Claire é e a mulher que Clara finge ser, e a distância entre as duas é o tema central do filme.




Alex e o amor que não sabe o que está amando


François Civil interpreta Alex com uma abertura emocional que torna o equívoco ainda mais doloroso: Alex está genuinamente se apaixonando, genuinamente se revelando, genuinamente construindo uma intimidade que Claire recebe sem poder revelar quem realmente é. Nebbou usa essa assimetria para fazer um argumento sobre a natureza da identidade nos relacionamentos digitais: o que Alex ama em Clara é real no sentido de que são emoções reais respondendo a estímulos reais, mas a pessoa que os produziu não existe. Quando a ficção e o sentimento são reais mas a identidade é falsa, o amor que resulta é válido?


A invisibilidade da mulher de meia-idade


O que motiva Claire a criar Clara não é apenas ciúme ou vingança: é a descoberta de que como Claire, com 50 anos, ela se tornou invisível para um tipo específico de atenção que como Clara, com 24 anos, recupera instantaneamente. Nebbou filma essa dimensão com uma honestidade que o cinema raramente permite sobre o envelhecimento feminino: como diagnóstico preciso sobre o que a cultura contemporânea faz com as mulheres quando elas saem da faixa etária que o mercado considera desejável. Claire criou Clara porque descobriu que Clara existe num mundo que Claire havia deixado de habitar sem perceber.


A estrutura do interrogatório como argumento


O filme é construído como uma sessão de análise em que Claire conta sua história à psicanalista, e Nebbou usa essa moldura para introduzir uma ambiguidade sobre a confiabilidade da narradora que só se revela completamente no final. O espectador está ouvindo a versão de Claire, que é a única versão disponível, e vai gradualmente percebendo que a versão de Claire sobre si mesma é tão construída quanto o perfil de Clara. Essa recursividade, uma mulher que inventou uma identidade falsa contando sua história para uma profissional que está avaliando sua sanidade, é onde o filme encontra sua profundidade mais perturbadora.


Onde assistir

Quem Você Pensa que Sou está disponível em plataformas de streaming com disponibilidade variável e na Filmoteca Seu Manolo. O filme tem uma estrutura que se revela gradualmente: o final recontextualiza o que veio antes de uma forma que justifica a revisita. Juliette Binoche é a razão principal para assistir, mas o roteiro de Nebbou e Julie Peyr sustenta a performance com uma precisão que o cinema de gênero raramente oferece ao material que usa.


A identidade fabricada como forma de amor

Quem Você Pensa que Sou é o filme desta mostra que mais diretamente mapeia o que as redes sociais fizeram com a identidade nos relacionamentos contemporâneos. Claire descobriu que pode ser outra pessoa com um clique e que essa outra pessoa é amada de formas que ela mesma não é. O argumento do filme não é que Claire agiu errado: é que o mundo que tornou Clara possível e desejável é o mesmo mundo que tornou Claire invisível. A tecnologia não criou o desejo de ser outra pessoa nos relacionamentos, mas deu a esse desejo uma interface tão fácil de usar que a fronteira entre quem somos e quem gostaríamos de ser nunca foi tão porosa. E nunca foi tão difícil saber de qual lado do espelho estamos.

sexta-feira, 8 de maio de 2026

Dois Procuradores (2025) Zwei Staatsanwälte - 1 h 58 min

Filme incluso na série CLC INDICA

Na URSS de 1937, o promotor Kornev descobre uma carta não destruída de um prisioneiro que revela corrupção no NKVD. Sua busca pela verdade se torna perigosa.


Dois Procuradores (2025) - IMDb
Dir: Sergey Loznitsa
Drama Jurídico, Biografia, Crime, História, Mistério, Suspense


MP4 / HD / LEG: Inglês e português traduzido

AVALIAÇÕES:
IMDB: 7,1   METASCORE: 8,5
Letterboxd: 6,8   CLC Balanced Rating: 7,6
97%Tomatometer78 Reviews

Um jovem promotor chega ao campo de trabalho stalinista convicto de que o sistema ainda funciona. O que encontra é a prova de que nunca funcionou.


Loznitsa e a obsessão com o totalitarismo


Sergei Loznitsa é um dos cineastas mais rigorosos e mais politicamente corajosos do cinema europeu contemporâneo. Nascido na Ucrânia soviética, radicado na Alemanha, fez documentários sobre a Segunda Guerra, sobre Maidan, sobre Babi Yar, e ficções sobre o Gulag e a colaboração nazista. Dois Procuradores é mais um capítulo dessa investigação obsessiva sobre o que o totalitarismo faz com as pessoas que o habitam: não apenas com as vítimas, mas com os funcionários, os burocratas, os crentes que mantêm o sistema funcionando por convicção ou por medo. Através desta adaptação, Loznitsa expõe o poder destrutivo da burocracia sobre o conceito de justiça, que sob Stalin se tornou sinônimo de opressão. 

Demidov e a origem autobiográfica


O filme é baseado na novela homônima de Georgy Demidov, escritor soviético que foi enviado aos campos de trabalho de Kolyma em 1937 e sobreviveu anos de prisão no sistema Gulag, enquanto suas obras permaneceram enterradas sob a censura soviética. Essa origem importa: o que Kornyev, o jovem promotor protagonista, vai descobrir no campo é o que Demidov viveu na carne. Loznitsa usa essa proximidade entre autor e material para dar ao filme uma textura de documento que vai além da reconstituição histórica. Não é apenas um filme sobre o passado soviético. É, principalmente, um arquivo do que o poder faz quando não tem limite. 


Kornyev e a inocência como armadilha

Alexander Kuznetsov interpreta Kornyev com uma convicção que o filme usa como instrumento de tensão: quanto mais o espectador entende o sistema que Kornyev está tentando navegar, mais dolorosa se torna a persistência do personagem em acreditar que ele pode funcionar. Quando Kornyev chega à prisão com uma nota que deveria ter sido destruída, é preciso se perguntar mais sobre o pesadelo que aguarda seu idealismo ingênuo do que sobre como o bilhete escapou da destruição. Loznitsa trata Kornyev como alguém que foi formado para acreditar no que acredita, e que descobre que essa formação era parte do mecanismo de controle. 

A burocracia como horror

A trama não poderia ser mais simples: um jovem promotor cheio de ambição e boa vontade milagrosamente chega a um caso e ao campo de prisioneiros para entrevistar seu predecessor. Convicto de que está no caminho certo e trabalhando dentro de um sistema honesto, ele persegue seu objetivo de remediar as injustiças. O que ele não sabe é que está operando num mundo que já se tornou inferno há muito tempo. Loznitsa filma a burocracia stalinista com a precisão de Kafka: cada porta que Kornyev abre revela outra porta, cada responsável redireciona para outro responsável, cada confirmação produz uma negação equivalente. O horror não está na violência explícita mas na normalidade com que o sistema processa a destruição de pessoas como se fossem papéis mal arquivados. 

Oleg Mutu e a fotografia como argumento

Com composições austeras e quietude perturbadora, a câmera captura o colapso da consciência dentro de um sistema que recompensa o silêncio acima da verdade, envolto em tons cinza-azulados que envolvem o espectador numa atmosfera de sufocamento. Oleg Mutu, o fotógrafo de 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias de Cristian Mungiu e de vários outros filmes essenciais do cinema do leste europeu, usa a luz com uma austeridade que é ela mesma um comentário sobre o ambiente: num sistema onde a verdade foi suprimida, a luz também é administrada com parcimônia. 

O ritmo como experiência

As cenas de vinte minutos ou mais de diálogo puro envolvem o espectador na psicologia dos ideologicamente possuídos. Loznitsa não o ritmo lento como argumento sobre o que a burocracia totalitária faz com o tempo. Kornyev espera. É transferido. Espera de novo. Cada espera é uma demonstração de poder. Apesar de o ritmo ser extremamente lento, o filme não é entediante. Você não tem tempo de olhar para o celular enquanto o filme passa, o que fala do gênio do diretor e da habilidade do cinematógrafo.

Onde assistir

Dois Procuradores estreou na competição principal de Cannes em maio de 2025 e foi lançado na Alemanha em fevereiro de 2026. Está disponível no Telecine, para locação no Prime Video e na Filmoteca Seu Manolo. O filme exige do espectador a disposição de habitar o tempo de Kornyev, que é o tempo da burocracia: lento, opaco e deliberadamente desumanizante. Quem chega esperando thriller político com ritmo convencional vai precisar reajustar completamente as expectativas.

Por que a CLC Indica

Dois Procuradores é exatamente o tipo de filme que a série existe para indicar: qualidade comprovada em Cannes, diretor de prestígio internacional, praticamente invisível no Brasil, e um argumento sobre poder e burocracia que tem a relevância contemporânea que Loznitsa nunca precisou declarar explicitamente. É um filme conciso, duro e bem construído que deixa o espectador com sensação de impotência, mas também com renovada consciência sobre como o poder descontrolado pode destruir quem deveria sustentá-lo. Num momento em que sistemas institucionais ao redor do mundo estão sendo testados de formas que lembram o que o filme retrata, Dois Procuradores funciona como aviso.


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