Mostra Retrospectiva Woody Allen - Risos, Neurose e Nova York
Um protagonista em guerra com o mundo
Boris Yellnikoff é um misantropo brilhante e insuportável. Ex-gênio da física, niilista convicto e desprezador da humanidade, ele encara a vida como um erro estatístico. Interpretado por Larry David, Boris é talvez o personagem mais agressivamente pessimista já criado por Allen.
Quebra da quarta parede e filosofia popular
A filosofia apresentada é simples, mas brutal:
não existe justiça cósmica, moral objetiva ou sentido
profundo — só estratégias de sobrevivência emocional.
Amor improvável e lógica do acaso
O filme sustenta que a vida não é guiada por mérito ou
coerência, mas por arranjos temporários que reduzem a dor. Quando deixam
de funcionar, devem ser abandonados sem culpa metafísica.
Desconstrução da normalidade
Nova York como território do acaso
A cidade volta a ser filmada como espaço da coincidência e do encontro improvável. Não há nostalgia poética como em Manhattan nem glamour melancólico como em Meia-Noite em Paris. Nova York aqui é campo de batalha existencial, onde cada um tenta sobreviver intelectualmente à própria lucidez.Um filme-manifesto
Entre todos os filmes tardios de Woody Allen, Tudo Pode Dar Certo é talvez o mais explicitamente ideológico. Ele não constrói uma narrativa moral; constrói uma tese:
a felicidade não precisa ser digna, justa ou bonita — apenas possível.
Síntese final
Tudo Pode Dar Certo é uma comédia agressiva, verbal e filosoficamente desencantada. Um filme que abandona qualquer ilusão de harmonia moral e aposta numa ética mínima:
se algo reduz o sofrimento e não destrói ninguém, já está valendo.
Na obra de Woody Allen, ele ocupa o lugar do cinema-sem-consolo,
onde o riso não redime — mas protege. Um filme que encara o caos de frente e
responde com sarcasmo, lucidez e a única regra possível:
whatever works.