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domingo, 4 de janeiro de 2026

Tudo Pode Dar Certo (2009) Whatever Works - 1 h 33 min

Mostra Retrospectiva Woody Allen - Risos, Neurose e Nova York

Surpreendentemente, um divorciado de meia-idade da cidade de Nova York começa um relacionamento com uma garota muito mais jovem e menos sofisticada.


Comédia Peculiar, Comédia, Romance


MP4 / HD- / LEG: Português

IMDB: 7,1   METASCORE: 4,5
50%Tomatometer167 Reviews   61%Popcornmeter


Tudo Pode Dar Certo marca um retorno assumido de Woody Allen à comédia verbal clássica, centrada na figura do intelectual neurótico, cínico e agressivamente racional. Filmado em Nova York após anos de produções europeias, o longa funciona como uma declaração de princípios: o mundo é caótico, injusto e sem sentido — portanto, se algo funciona emocionalmente, já é suficiente.

Um protagonista em guerra com o mundo


Boris Yellnikoff é um misantropo brilhante e insuportável. Ex-gênio da física, niilista convicto e desprezador da humanidade, ele encara a vida como um erro estatístico. Interpretado por Larry David, Boris é talvez o personagem mais agressivamente pessimista já criado por Allen.

Diferente de protagonistas que sofrem em silêncio, Boris ataca verbalmente o mundo. Seu ódio à estupidez humana é a base do humor do filme — e também sua forma de defesa contra o vazio existencial.

Quebra da quarta parede e filosofia popular

Boris fala diretamente com o espectador, comentando suas próprias ações e ridicularizando as convenções sociais. Essa quebra constante da quarta parede reforça o caráter teatral e ensaístico do filme, aproximando-o do stand-up filosófico.

A filosofia apresentada é simples, mas brutal:

não existe justiça cósmica, moral objetiva ou sentido profundo — só estratégias de sobrevivência emocional.



Amor improvável e lógica do acaso

O romance entre Boris e Melody é deliberadamente absurdo: grande diferença de idade, visões de mundo opostas e expectativas incompatíveis. Allen não tenta tornar essa relação “verossímil” no sentido moral; ela é funcional, e isso basta.

O filme sustenta que a vida não é guiada por mérito ou coerência, mas por arranjos temporários que reduzem a dor. Quando deixam de funcionar, devem ser abandonados sem culpa metafísica.



Desconstrução da normalidade

À medida que a narrativa avança, personagens rígidos — moralistas, conservadores, dogmáticos — entram em colapso e descobrem desejos reprimidos. Allen sugere que a “normalidade” é apenas uma máscara social frágil, mantida por conveniência.

Não há punição por incoerência: ao contrário, adaptar-se é sinal de inteligência prática.

Nova York como território do acaso

A cidade volta a ser filmada como espaço da coincidência e do encontro improvável. Não há nostalgia poética como em Manhattan nem glamour melancólico como em Meia-Noite em Paris. Nova York aqui é campo de batalha existencial, onde cada um tenta sobreviver intelectualmente à própria lucidez.





Um filme-manifesto


Entre todos os filmes tardios de Woody Allen, Tudo Pode Dar Certo é talvez o mais explicitamente ideológico. Ele não constrói uma narrativa moral; constrói uma tese:
a felicidade não precisa ser digna, justa ou bonita — apenas possível.

Essa visão aproxima o filme do humor judaico clássico e do existencialismo popularizado: rir não para entender o mundo, mas para suportá-lo.

Síntese final

Tudo Pode Dar Certo é uma comédia agressiva, verbal e filosoficamente desencantada. Um filme que abandona qualquer ilusão de harmonia moral e aposta numa ética mínima:
se algo reduz o sofrimento e não destrói ninguém, já está valendo.

Na obra de Woody Allen, ele ocupa o lugar do cinema-sem-consolo, onde o riso não redime — mas protege. Um filme que encara o caos de frente e responde com sarcasmo, lucidez e a única regra possível:
whatever works.

 



quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

O Lutador (2008) The Wrestler - 1 h 49 min

ARQUITETURAS DA OBSESSÃO: O Cinema de Darren Aronofsky

Mostra Filmes Ganhadores do Leão de Ouro - Festival de Veneza

Um lutador profissional decadente precisa se aposentar, mas descobre que sua busca por uma nova vida fora do ringue é uma luta desanimadora.


O Lutador (2008) - IMDb
Dir: Darren Aronofsky
Drama Psicológico, Tragédia, Esporte


MP4 / HD / LEG: Português

IMDB: 7,9   METASCORE: 8,0
FLICK METRIX: 83   Average Percentile: 66.86%
99%Tomatometer227 Reviews   88%Popcornmeter

O Lutador (The Wrestler) é um drama físico e emocional dirigido por Darren Aronofsky que transforma o corpo em campo de batalha e a persistência em tragédia. Vencedor do Leão de Ouro no Festival de Cinema de Veneza de 2008, o filme marca um dos retornos mais emblemáticos da história recente do cinema.


Um corpo que já passou do limite

Randy “The Ram” Robinson, interpretado por Mickey Rourke, é um lutador profissional decadente, sobrevivente de um passado de glória nos anos 1980. Aronofsky acompanha seu cotidiano sem romantização: pequenas arenas, dores constantes, cirurgias, remédios. O corpo de Randy não é símbolo de força, mas arquivo de danos acumulados.

A câmera insiste em seguir o personagem por trás — corredores, vestiários, supermercados — como se o filme inteiro fosse uma marcha lenta rumo ao esgotamento.


Espetáculo e intimidade

O wrestling surge como performance híbrida: violência coreografada, pacto com o público, ritual de resistência. Fora do ringue, Randy é socialmente deslocado, incapaz de manter vínculos estáveis — seja com a filha afastada, seja com Cassidy, uma stripper que também vive de um corpo consumido pelo olhar alheio.

O filme constrói um paralelo delicado entre esses dois mundos: ambos dependem do espetáculo, ambos enfrentam o envelhecimento como ameaça existencial.


Realismo físico, emoção contida

Aronofsky adota um estilo quase documental: câmera na mão, luz crua, montagem discreta. A trilha sonora evita grandiloquência; quando a música surge, ela ecoa um passado que já não retorna. O drama nasce da repetição dos gestos, da insistência em continuar quando o corpo já não consente.





Um retorno que é também espelho

A escalação de Mickey Rourke — ator que viveu sua própria queda e marginalização em Hollywood — confere ao filme uma camada metacinematográfica poderosa. A performance é de exposição absoluta, sem vaidade, onde ficção e biografia parecem se tocar.



Por que o Leão de Ouro


Ao premiar O Lutador, Veneza reconheceu um cinema que alia intensidade física, empatia sem sentimentalismo e rigor formal. O Leão de Ouro consagrou um filme sobre dignidade no limite, onde a escolha final não é vitória nem derrota, mas fidelidade a si mesmo — ainda que ao custo máximo.

👉 O Lutador é um retrato seco e profundamente humano de quem só sabe existir em movimento, mesmo quando parar seria sobreviver. Um cinema que olha o corpo ferido sem desviar — e encontra, nesse gesto, uma forma rara de verdade.