Filme incluso na mostra da Filmoteca Seu Manolo:
Sempre esteja fechando. Os que não fecham não existem.
Mamet
e a linguagem como arma
David Mamet escreveu Glengarry Glen Ross como peca teatral em 1983 e ganhou o Premio Pulitzer no ano seguinte. A adaptação cinematográfica de James Foley em 1992 adicionou uma cena de abertura que não existe na peça original, o monólogo de Alec Baldwin como o executivo da matriz que chega para informar as regras do concurso de vendas, e essa adição é a decisão mais importante do filme porque estabelece o sistema antes de mostrar as pessoas que funcionam dentro dele.
O monólogo de Baldwin dura cerca de sete
minutos e é uma das cenas mais citadas do cinema americano: uma demonstração de
como a linguagem corporativa pode ser usada para humilhar, ameaçar e
desumanizar enquanto tecnicamente permanece dentro dos limites do discurso
profissional. Cada frase é simultaneamente motivacional e cruel, cada elogio é também um insulto, e a estrutura do discurso é projetada para fazer os
corretores sentirem que a única saida da humilhação é vender mais, que é exatamente o que o sistema quer que eles sintam.
O
elenco e o que cada um representa
Glengarry Glen Ross tem um dos elencos mais extraordinários do cinema americano dos anos 1990: Al Pacino, Jack Lemmon, Ed Harris, Alan Arkin, Kevin Spacey e Alec Baldwin numa única sala de vendas durante menos de 24 horas. Foley usa esse elenco para construir um mapa humano do ambiente de alta pressão: cada personagem representa uma posição diferente dentro do sistema e uma forma diferente de responder à pressão que o sistema produz.
Ricky Roma, interpretado por Pacino, e o
líder do ranking, o vendedor que internalizou completamente a lógica predatória
do sistema e a aplica com uma fluência que é ao mesmo tempo impressionante e
perturbadora. Shelly Levene, interpretado por Lemmon, é o vendedor que estava
no topo há anos e que o declínio transformou em desespero: a cena em que Levene
tenta subornar o gerente para conseguir acesso às melhores listas de clientes é uma das mais dolorosas do filme porque Lemmon filma a humilhação de um homem
que está comprometendo o que resta da própria dignidade para sobreviver num
sistema que decidiu que ele não serve mais.
Dave Moss, interpretado por Ed Harris, é o
vendedor que responde à pressão com raiva e com um plano de roubar as listas de
clientes da concorrência, e George Aaronow, interpretado por Alan Arkin, é o
vendedor que acompanha Moss no plano sem entender completamente no que está se
metendo. Os dois juntos representam o que o sistema produz quando a pressão
ultrapassa o ponto em que as pessoas conseguem se manter dentro das regras: não
vilania planejada, mas desespero que encontra uma saida disponível.
Kevin
Spacey e o sistema personificado
John Williamson, o gerente interpretado por Kevin Spacey, é o personagem que o filme usa para mostrar o que o sistema produz quando funciona perfeitamente: um homem que aplica as regras sem julgamento moral, que protege os interesses da corporação sem questionar se esses interesses são legítimos, e que é odiado por todos os corretores precisamente porque representa o sistema que os está destruindo sem ser destruído por ele.
A cena em que Roma confronta Williamson
após descobrir que uma venda foi comprometida pela incompetência do gerente é o
momento em que o filme revela a lógica do sistema com mais clareza: Roma não
está errado que Williamson errou, mas a forma como Roma articula o erro replica
exatamente a lógica de humilhação e dominância que Baldwin havia estabelecido
na abertura. O predador e o gerente são o mesmo sistema aplicado a posições
diferentes.
A
linguagem e o que ela faz
O que torna Glengarry Glen Ross extraordinário como objeto cinematográfico é que a linguagem de Mamet é ela mesma o argumento do filme. Os diálogos são um ambiente predatório. Cada conversa é uma negociação de poder, cada frase é simultaneamente informação e posicionamento, e o espectador que presta atenção ao ritmo dos diálogos vai percebendo que as mesmas técnicas que os corretores usam para vender imóveis para clientes que não precisam deles são as técnicas que usam uns com os outros o tempo todo.
Mamet entendeu que o ambiente de vendas de
alta pressão não é um lugar onde pessoas se comportam de determinada
forma, que produz uma linguagem própria e que essa linguagem, uma
vez internalizada, torna-se a única forma disponível de se relacionar com o
mundo. Os corretores de Glengarry Glen Ross não conseguem ter uma conversa que
não seja uma venda porque o sistema os treinou para que qualquer interação seja
uma oportunidade e qualquer pessoa seja um cliente potencial.
O
que fica
Glengarry Glen Ross termina com o sistema continuando: o concurso de vendas vai para o próximo mês, as listas de melhores clientes vão continuar sendo o prêmio, e os corretores que sobreviveram vão continuar tentando sobreviver ao próximo ciclo. O filme não oferece saída do sistema porque não há alguma disponível dentro do quadro que escolheu mostrar: o sistema é total e as pessoas dentro dele só tem as opções que o sistema oferece. O que fica não é a história de nenhum personagem específico mas o mecanismo que o sistema usa para produzir esses personagens, e a consciência de que o mesmo mecanismo opera em qualquer ambiente que recompensa resultado sem questionar método.
Onde assistir: Glengarry Glen Ross está disponível na Filmoteca Seu Manolo e na Oldflix: O Sucesso a Qualquer Preço - Onde assistir. O filme tem 100 minutos em ambiente quase inteiramente interno que passam com a velocidade do thriller de diálogos. O espectador que tiver paciência para ouvir o que as palavras estão fazendo além do que estão dizendo vai encontrar o retrato mais preciso da lógica predatória do ambiente de vendas que o cinema americano produziu.
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