Sinopse
Uma jovem, cujo
nome e profissão mudam sutilmente ao longo da narrativa, sem que ninguém pareça
notar essas inconsistências, viaja de carro com o namorado recente, Jake, para
conhecer os pais dele numa fazenda isolada, em meio a uma tempestade de neve cada
vez mais intensa. Durante todo o trajeto, ela reflete internamente, em voz over
constante, sobre sua vontade crescente de terminar o relacionamento, pensamento
que parece, de forma inquietante, ecoar nas próprias reações de Jake ao
volante.
Intercalada a
essa viagem, uma linha narrativa paralela acompanha um zelador idoso e
solitário que trabalha à noite numa escola secundária, observando de longe o
ensaio de uma produção estudantil do musical Oklahoma!. Conforme o jantar na
fazenda avança, e os pais de Jake envelhecem e rejuvenescem entre um corte de
cena e outro sem explicação aparente, a fronteira entre as duas histórias, e
entre identidade, memória e fantasia, começa a se dissolver por completo.
Análise Crítica
Estou Pensando em
Acabar com Tudo adapta o romance homônimo de Iain Reid, e Charlie Kaufman, já
conhecido por roteiros que investigam identidade e subjetividade fraturada em
obras como Quero Ser John Malkovich e Brilho Eterno de uma Mente sem
Lembranças, aqui assume também a direção para construir talvez sua obra mais
deliberadamente resistente a qualquer resumo definitivo de enredo. O filme
recusa, por completo, a estabilidade básica de identidade que a maioria das
narrativas cinematográficas toma como ponto de partida inquestionável: o nome,
a profissão e até pequenos detalhes biográficos da protagonista mudam ao longo
do filme sem que nenhum personagem pareça perceber a inconsistência.
A fotografia de
Lukasz Zal explora tanto o confinamento claustrofóbico do carro durante a longa
viagem noturna quanto os espaços domésticos da fazenda dos pais de Jake,
cenário que se transforma, por meio de cortes discretos entre planos, em palco
de saltos temporais impossíveis, em que os mesmos personagens aparecem jovens,
depois idosos, depois já mortos, dentro de uma única sequência de jantar. Essa
instabilidade visual e temporal, que poderia soar como erro de continuidade em
qualquer outra produção, é aqui elemento central e deliberado da proposta do
filme sobre a natureza fundamentalmente instável da memória e da identidade
quando revisitadas pela mente de quem as constrói.
Jessie Buckley
sustenta com virtuosismo notável uma personagem que precisa, a cada cena,
reajustar sutilmente tom, vocabulário e postura conforme sua identidade se
desloca entre estudante de física quântica, pintora, garçonete e outras
profissões que se sucedem sem qualquer explicação narrativa direta. Jesse
Plemons confere a Jake uma ansiedade contida que oscila entre carência afetiva
genuína e um controle sutilmente perturbador sobre a narrativa e sobre a
própria namorada, enquanto Toni Collette e David Thewlis, como os pais de Jake,
atravessam transformações físicas e emocionais radicais dentro de cenas
isoladas, sustentando com convicção total uma lógica de sonho que nunca precisa
se explicar.
O filme intercala
referências explícitas a obras como o musical Oklahoma!, o filme Uma Mulher sob
Influência de John Cassavetes e o discurso de aceitação de prêmio Nobel do
longa Uma Mente Brilhante, camadas de citação cultural que Kaufman usa não como
mero exercício de erudição, mas como material bruto da própria consciência
fragmentada que constrói toda a narrativa, num processo que ele descreveu
publicamente como interesse em investigar como a mente humana empresta, sem
perceber, fragmentos de cultura consumida ao longo da vida para preencher
lacunas da própria experiência e memória.
⚠️ ATENÇÃO: A
PARTIR DESTE PONTO, O TEXTO CONTÉM SPOILERS
Se você ainda não
assistiu ao filme, recomendamos interromper a leitura e retornar depois.
A Interpretação
da Obra
A revelação,
sugerida com progressiva clareza ao longo do terceiro ato, de que a jovem
protagonista nunca existiu como pessoa real e independente, mas é, na verdade,
invenção da imaginação do zelador idoso que intercala a narrativa principal,
reorganiza retroativamente cada elemento inconsistente que o filme vinha
acumulando desde o início. O próprio Charlie Kaufman confirmou, em entrevistas
concedidas após o lançamento, que o zelador e Jake são a mesma pessoa em
diferentes momentos de uma vida solitária e cheia de arrependimentos, e que a
jovem é fantasia construída a partir de uma mulher real que ele avistou
brevemente, décadas antes, num bar, sem jamais ter trocado com ela mais do que
poucas palavras triviais.
Kaufman explicou
que a decisão de conceder à jovem voz interior própria e autonomia narrativa
aparente, mesmo sabendo-se, ao final, tratar-se de mera fantasia, era
deliberada: mesmo dentro da própria imaginação, Jake não consegue obter aquilo
que deseja, projetando sobre sua criação mental a mesma incerteza e o mesmo
tédio que imagina que uma companheira real sentiria por ele. Esse detalhe
transforma a fantasia numa expressão ainda mais desoladora da baixa autoestima
do protagonista: incapaz até mesmo de imaginar, com plena satisfação, uma
versão de amor correspondido sem também inserir nela sinais de rejeição
iminente.
O confronto final
dentro do prédio da escola, quando a jovem, agora encurralada pelo próprio
zelador, descreve com um tom de voz repentinamente distinto e sincero que o
suposto namorado era apenas um estranho brevemente cruzado décadas antes, sem
qualquer relação real construída, revela ao espectador que testemunhamos, ao
longo de todo o filme, a elaboração fantasiosa de uma vida inteira que nunca
chegou a acontecer. Essa confissão, entregue com desprendimento quase clínico,
quebra a ilusão narrativa que sustentava toda a jornada anterior, sem que
Kaufman precise recorrer a qualquer explicação verbal adicional para justificar
a reviravolta.
A sequência de
balé que se segue, em que dançarinos interpretam versões físicas de Jake e da
jovem numa coreografia que culmina no assassinato ritual do próprio zelador, e
a subsequente cena em que o zelador caminha nu pelos corredores da escola
conversando com um porco animado que faz referências à carreira de físico que
Jake nunca teve, empurram o filme definitivamente para um registro de colapso
mental completo, em que a fronteira entre metáfora visual e narrativa literal
deixa de fazer qualquer sentido operacional.
O discurso final,
em que uma versão envelhecida e elegante de Jake recebe um prêmio Nobel
fictício recitando, quase literalmente, o discurso de aceitação do filme Uma
Mente Brilhante, intercalado com números musicais de Oklahoma!, condensa o
desejo mais profundo e nunca realizado do protagonista: ser reconhecido
publicamente como brilhante, amado e bem-sucedido, fantasia de validação que se
sobrepõe, num colapso final de todas as camadas narrativas anteriores, à imagem
mais provável e mais triste do zelador real, morrendo sozinho de frio dentro do
próprio carro estacionado no pátio da escola, cena que fecha o filme sem
oferecer qualquer certeza definitiva sobre quanto do que vimos foi memória,
fantasia ou alucinação terminal.
Conclusão
Estou Pensando em
Acabar com Tudo permanece um dos experimentos narrativos mais radicais já
produzidos sobre solidão, arrependimento e a tendência da mente humana de
reconstruir, por meio de fragmentos de cultura consumida ao longo da vida,
aquilo que a experiência real jamais ofereceu. Charlie Kaufman recusa qualquer
estrutura de resolução satisfatória convencional, optando por um mosaico
deliberadamente instável que exige do espectador tolerância genuína à
ambiguidade irresolúvel como condição para engajamento pleno com a obra.
É essa disposição
de habitar, sem pressa de explicar, o território exato onde memória, desejo e
fantasia se confundem de forma irreconciliável, que a FILMOTECA reconhece como
o valor mais singular desta obra: a lembrança de que algumas das solidões mais profundas
nunca encontram palavras precisas o suficiente para se explicar, restando
apenas a tentativa, sempre incompleta, de reconstruir por meio de fragmentos
emprestados aquilo que a vida real nunca ofereceu por completo.