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terça-feira, 26 de maio de 2026

Nachalo (1970) (THE BEGINNING) - 1 h 31 min

<= O Cinema como Cura


Nachalo (1970) - IMDb
Dir: Gleb Panfilov

Drama, Romance

CLC Score: 8,0 (púbico)







Sinopse

Numa pequena cidade de província soviética, Pasha Stroganova trabalha como tecelã numa fábrica têxtil e dedica as horas livres a um grupo de teatro amador, onde vive papéis modestos, como o de uma bruxa numa peça local, longe de qualquer reconhecimento maior. Sua vida muda de rumo quando um diretor de cinema, à procura de uma atriz desconhecida para viver Joana d'Arc num longa-metragem, a descobre por acaso e a convida para o papel principal.

Enquanto se prepara para viver a santa guerreira francesa diante das câmeras, Pasha também vive, na vida real, um romance com Arkadi, um homem casado cuja situação familiar complica tudo o que parecia, à primeira vista, o começo de uma vida nova. Gleb Panfilov entrelaça essas duas histórias, a ficção histórica em produção e o drama íntimo de Pasha, para construir um retrato pouco comum sobre o que significa, para uma mulher comum, ser convocada a interpretar uma heroína.

Análise Crítica

Nachalo organiza sua estrutura em torno de um contraste ousado: de um lado, a vida cotidiana de Pasha na fábrica e na cidade de província, filmada em preto e branco com um naturalismo quase documental, que capta multidões reais, bailes populares e rostos anônimos com a atenção de quem observa a vida tal como ela é; de outro, os fragmentos do filme sobre Joana d'Arc que Pasha protagoniza, encenados com a solenidade estilizada de um drama histórico, remetendo à tradição de Dreyer e Bresson na representação da santa francesa. Gleb Panfilov intercala essas duas texturas visuais sem aviso prévio, exigindo do espectador atenção constante para distinguir onde termina a vida de Pasha e onde começa a personagem que ela interpreta.

Essa estrutura não é apenas virtuosismo formal, é o próprio argumento do filme. Ao colocar lado a lado o julgamento de Joana d'Arc pela Inquisição e as reuniões de produção, os ensaios e as intrigas de bastidores do estúdio soviético que filma sua história, Panfilov sugere uma continuidade entre a submissão histórica de uma mulher a tribunais que decidem seu destino e as pressões, menos dramáticas mas igualmente reais, que uma mulher comum da União Soviética enfrenta ao tentar transformar um talento inesperado em vida nova.

Inna Churikova entrega uma atuação dupla notável, alternando entre a Pasha desajeitada e cheia de energia contida da vida cotidiana e a Joana d'Arc de gravidade quase litúrgica das cenas do filme dentro do filme. A atriz evita qualquer contraste artificial entre as duas personas, deixando entrever, mesmo nos momentos mais leves de Pasha, um traço da mesma determinação silenciosa que caracteriza sua Joana, e é essa continuidade sutil entre as duas performances que torna crível a ideia de que Pasha foi escolhida para o papel não por acaso, mas por carregar dentro de si algo da mesma disposição ao sacrifício que a personagem histórica encarna.

A fotografia de Dmitri Dolinin sustenta esse contraste com precisão, optando por câmera mais solta e luz natural nas cenas do cotidiano provinciano, e por composições mais rígidas e contrastadas nas cenas medievais. Panfilov, que originalmente pretendia realizar uma cinebiografia direta de Joana d'Arc e não obteve autorização das autoridades soviéticas para o projeto, encontra nesse formato de filme dentro do filme uma solução criativa que preserva sua ambição original, ao mesmo tempo em que a disfarça dentro de uma narrativa aparentemente mais palatável ao contexto de produção da época.

⚠️ ATENÇÃO: A PARTIR DESTE PONTO, O TEXTO CONTÉM SPOILERS

Se você ainda não assistiu ao filme, recomendamos interromper a leitura e retornar depois.

A Interpretação da Obra

À medida que a produção do filme sobre Joana d'Arc avança, o romance de Pasha com Arkadi se deteriora. Ele não deixa a esposa, e o casamento dele, longe de se desfazer diante da nova paixão, se reafirma justamente no momento em que Pasha mais precisaria de apoio para sustentar a transformação que sua vida está atravessando. O filme recusa transformar essa decepção amorosa em melodrama explícito, preferindo mostrar Pasha absorvendo o golpe com a mesma contenção física que Churikova emprega em toda sua atuação, um recuo interior que nunca se traduz em cena de choro convencional.

É nesse ponto que a montagem paralela entre a vida de Pasha e o julgamento de Joana d'Arc revela seu propósito mais agudo. As cenas finais do filme dentro do filme, com a fogueira e a condenação da santa, são intercaladas com o desfecho da vida amorosa de Pasha, sugerindo um paralelo que o filme nunca declara abertamente em diálogo, mas que a montagem torna inevitável: assim como Joana é abandonada pelos mesmos poderes que antes a haviam exaltado como instrumento de salvação nacional, Pasha é deixada por Arkadi no momento exato em que sua ascensão como atriz deveria estar sendo celebrada.

Essa comparação não busca elevar a dor pessoal de Pasha ao nível místico do martírio de Joana por mera hipérbole dramática. Ela expõe, de forma mais precisa, como estruturas de poder, sejam elas tribunais eclesiásticos medievais ou hierarquias sociais e profissionais da vida soviética comum, tendem a usar mulheres extraordinárias como instrumento e, uma vez cumprida a função, abandoná-las à própria sorte. Pasha ganha aclamação como atriz, mas o filme deixa claro que esse reconhecimento profissional não se traduz automaticamente em estabilidade pessoal ou em reconhecimento pleno de sua nova identidade fora do palco e das telas.

O título do filme, Nachalo, que significa começo, ganha assim um peso irônico e ambíguo. O começo em questão não é apenas o início de uma carreira promissora, mas também o começo de uma solidão nova, a consciência de que a transformação vivida por Pasha, por mais real e conquistada por mérito próprio que seja, não vem acompanhada de garantias sobre o que virá depois. O filme termina sem oferecer certezas sobre o futuro profissional ou afetivo de Pasha, deixando em aberto se a experiência de interpretar Joana d'Arc foi ponto de partida para uma vida mais plena ou apenas um episódio isolado de reconhecimento numa existência que, fora das telas, permanece tão incerta quanto antes.

Há, por fim, uma leitura possível sobre a própria condição da atriz, e por extensão da artista, dentro do sistema soviético de produção cultural. Pasha é escolhida, usada, celebrada e depois deixada à margem das decisões que definirão se voltará a atuar, numa dinâmica que espelha, em escala menor e sem o peso religioso do caso histórico, a mesma lógica de instrumentalização que a narrativa de Joana d'Arc denuncia. O talento de Pasha é reconhecido, mas o controle sobre o próprio destino profissional permanece, como o de Joana perante seus juízes, nas mãos de outros.

Conclusão

Nachalo permanece uma obra singular do cinema soviético por recusar tanto o triunfalismo do relato de ascensão pessoal quanto o didatismo fácil da alegoria histórica. Ao entrelaçar a vida modesta de uma tecelã de província com o julgamento de uma das figuras mais reverenciadas da história ocidental, Gleb Panfilov constrói um argumento sutil sobre como sistemas de poder, antigos ou modernos, tendem a tratar mulheres extraordinárias como instrumento temporário de seus próprios propósitos.


segunda-feira, 11 de maio de 2026

Um Homem com uma Câmera (1929) Chelovek s kino-apparatom - 1 h 8 min (MUDO)

Mostra:

TOP 10. MAS DE QUEM? - Sight and Sound / BFI: Os Maiores Filmes de Todos os Tempos (2022)

Um homem viaja por uma cidade com uma câmera no ombro, documentando a vida urbana com uma invenção deslumbrante.


Documentário


MP4 / HD- / SEM FALAS

IMDB: 8,3   METASCORE: 9,6
Letterboxd: 8,6   Flick Metrix: 89
98%Tomatometer43 Reviews

Um filme sobre fazer filmes que ainda não sabia que estava inventando o cinema.


O documento que virou manifesto

O Homem com a Câmera não tem roteiro, não tem atores, não tem intertítulos explicativos e não tem narrativa no sentido convencional. Dziga Vertov filmou a vida soviética de 1929, Moscou e Kiev e Odessa em movimento, e montou o material numa sequência que é simultaneamente documento, experimento formal e declaração de intenções sobre o que o cinema pode ser quando liberto das convenções que havia importado do teatro e da literatura. O filme começa com uma plateia entrando numa sala de cinema para assistir a um filme, e o filme que assistem é o filme que estamos assistindo, e dentro desse filme há um cameraman filmando o filme que estamos assistindo. Vertov instala essa recursividade nos primeiros minutos e a usa como argumento central: o cinema não é uma janela transparente para a realidade. É um instrumento que constrói a realidade que registra, e ser honesto sobre isso é condição para fazer cinema honesto.

Vertov chamava sua teoria de Cine-Olho, kino-glaz em russo, a ideia de que a câmera vê de forma que o olho humano não vê e que o cinema deve explorar essas capacidades em vez de escondê-las para simular a percepção humana convencional. O Homem com a Câmera é a demonstração prática dessa teoria, e o que a demonstração revela é que Vertov estava certo sobre o que o cinema levou décadas para assimilar completamente.


Vertov e a montagem como pensamento

Dziga Vertov e sua irmã Elizaveta Svilova, que editou o filme e aparece nele editando o filme, desenvolveram uma linguagem de montagem que vai além do que Eisenstein havia feito com a montagem de atrações. Onde Eisenstein usava o corte para criar choque e significado político através da colisão de imagens, Vertov usa o corte para criar ritmo e associação e análise, para mostrar conexões entre coisas que a narrativa linear não conectaria, para fazer o espectador pensar através da justaposição em vez de receber através da sequência.

O filme acelera e desacelera, usa câmera lenta e câmera rápida, congela a imagem, divide a tela, filma em ângulos que a convenção cinematográfica da época considerava errados, e faz tudo isso com uma consciência de que cada escolha formal é também uma escolha de significado. Svilova montando o filme dentro do filme não é apenas autorreferência: é a afirmação de que a montagem é onde o cinema pensa, que o sentido não está nas imagens individuais mas no que acontece entre elas, e que mostrar esse processo é parte do que o filme está fazendo.


A cidade soviética como personagem

O material filmado por Mikhail Kaufman, o irmão de Vertov que opera a câmera e aparece no filme operando a câmera, cobre a vida urbana soviética com uma abrangência que vai do amanhecer ao anoitecer, do trabalho nas fábricas ao lazer nas praias, do nascimento à morte, do casamento ao divórcio. Sem fazer propaganda no sentido de glorificar o projeto soviético com imagens selecionadas para esse fim, Vertov faz um inventário da vida moderna que inclui o trabalho e o descanso e o movimento e a pausa com uma equanimidade que transforma o cotidiano em material cinematográfico sem precisar elevá-lo artificialmente.

A cidade que emerge desse inventário é uma cidade em movimento permanente, onde os bondes e os automóveis e os corpos humanos e as máquinas industriais existem numa coreografia que a montagem de Svilova torna visível como coreografia. Vertov está mostrando que a modernidade tem um ritmo e que o cinema é o instrumento capaz de capturar e revelar esse ritmo, de tornar perceptível o que a percepção humana desacelera demais para ver.


As técnicas que o cinema absorveu sem lembrar a origem

O inventário de recursos formais que O Homem com a Câmera usa em 1929 é perturbador para qualquer espectador que conheça a história do cinema: câmera na mão, câmera oculta, split screen, slow motion, stop motion, câmera acelerada, imagem congelada, câmera subjetiva, montagem paralela de múltiplas ações simultâneas. Vertov sistematizou e usou todos esses recursos com uma consciência teórica que o cinema comercial da época não tinha e que o cinema experimental levaria décadas para recuperar.

O cinema de vanguarda dos anos 1960 e 1970, o cinema direto americano e o cinéma vérité francês, o videoclipe dos anos 1980, o cinema de não ficção contemporâneo: todos eles usam linguagens que Vertov havia desenvolvido, frequentemente sem saber que estavam usando Vertov. O Homem com a Câmera é um dos filmes mais influentes da história do cinema precisamente porque sua influência se dissolveu no ar que o cinema respira, tornando-se invisível de tão onipresente.


Mikhail Kaufman como personagem

A presença de Mikhail Kaufman no filme, o cameraman que aparece filmando as cenas que estamos vendo, é o dispositivo através do qual Vertov resolve o problema central de sua teoria: como fazer um filme honesto sobre a realidade sem fingir que a câmera não está lá. A resposta de Vertov é colocar a câmera dentro do filme, tornar o ato de filmar parte do que é filmado, fazer do cameraman um personagem cuja presença lembra constantemente ao espectador que está assistindo a uma construção e não a uma janela.

Kaufman filmou em condições que o filme documenta com prazer: em cima de trens em movimento, dentro de fábricas, embaixo de carroças, em ângulos que exigem posições físicas que a câmera da época tornava ainda mais difíceis. A fisicalidade do ato de filmar é parte do argumento do filme sobre o que o cinema é: uma intervenção ativa na realidade, que exige corpo e risco e escolha a cada segundo.


Onde assistir e o que esperar

O Homem com a Câmera está disponível em domínio público em múltiplas versões online, e a escolha da versão importa: o filme foi lançado sem trilha sonora original, e as trilhas adicionadas ao longo das décadas variam enormemente em adequação ao material. A versão com trilha do grupo The Alloy Orchestra é uma das mais respeitadas e uma das que melhor replica o ritmo que Vertov pretendia. O filme tem 68 minutos que passam com a velocidade do material que filma: a cidade em movimento é a experiência do filme, e o espectador que se deixar mover pelo ritmo da montagem vai descobrir que 1929 e o presente não estão tão distantes quanto o calendário sugere. A segunda visita revela camadas de construção que a primeira passagem, ocupada em absorver o ritmo, não tem tempo de registrar completamente.


O cinema que se vê fazendo

O Homem com a Câmera pertence à lista do Sight & Sound 2022 no nono lugar, e sua presença ali é a mais antiga da lista, um filme de 1929 que continua sendo votado por críticos contemporâneos não por reverência histórica mas porque continua sendo mais radical do que a maioria do que foi feito depois. Vertov resolveu em 1929 problemas que o cinema ainda está tentando resolver: como ser honesto sobre o que a câmera faz à realidade, como usar a montagem como instrumento de pensamento em vez de instrumento de ilusão, como fazer um filme que seja simultaneamente sobre o mundo e sobre o ato de filmá-lo.

Que um eleitorado de dois mil e quinhentos críticos e programadores e curadores tenha colocado esse filme entre os dez maiores de todos os tempos é a confirmação de que a grandeza cinematográfica não envelhece quando é grandeza real. O Homem com a Câmera tinha noventa e três anos quando entrou no top 10 do Sight & Sound. Ainda parecia mais novo do que a maioria dos filmes feitos na semana anterior.

sexta-feira, 27 de março de 2026

O Espelho (1975) Zerkalo - 1 h 47 min

Incluso nas mostras da Filmoteca Seu Manolo:

IMAGENS DO PENSAMENTO: Cinema e Filosofia

TOP 10. MAS DE QUEM? - Sight and Sound / BFI: Os Maiores Filmes de Todos os Tempos - Lista dos Diretores (2022)

Um homem moribundo de quarenta anos lembra-se do seu passado. Sua infância, sua mãe, a guerra, momentos pessoais e coisas que contam a história recente de toda a nação russa.


O Espelho (1975) - IMDb
Dir: Andrei Tarkovsky
Drama Psicológico, Biografia


MP4 / HD / LEG: Português

IMDB: 7,9   METASCORE: 8,2
Flick Metrix: 85   Letterboxd: 8,6
100%Tomatometer30 Reviews   91%Popcornmeter

O tempo como memória fragmentada


A Vida como Fluxo de Imagens

Em O Espelho, Andrei Tarkovsky abandona qualquer estrutura narrativa convencional para construir um filme que opera como memória em estado puro. Não há uma história linear, mas uma sucessão de lembranças, sonhos, imagens históricas e fragmentos autobiográficos que se entrelaçam sem hierarquia clara.

O tempo deixa de ser organizado ele se manifesta como fluxo, como algo que retorna, se repete e se transforma.


Memória e Identidade

O filme articula diferentes tempos - infância, guerra, vida adulta - não como etapas separadas, mas como dimensões coexistentes. A memória não é evocação do passado, mas presença contínua.

Nesse sentido, a identidade surge como algo instável, construída a partir dessas camadas que nunca se fixam completamente. Ser é lembrar, mas lembrar é também reinventar.


A Imagem como Pensamento Poético

Tarkovsky utiliza a imagem não para representar, mas para sugerir. Elementos como água, fogo, vento e reflexo atravessam o filme, criando uma rede sensorial que substitui a lógica narrativa.

A montagem não organiza; ela associa. Cada imagem carrega múltiplos sentidos, abrindo espaço para uma experiência mais intuitiva do que racional.


Entre o Íntimo e o Histórico

Ao mesclar memórias pessoais com imagens de arquivo da história soviética, o filme dissolve a fronteira entre o individual e o coletivo. A vida privada e os acontecimentos históricos passam a compartilhar o mesmo plano.

O tempo, assim, não pertence apenas ao sujeito; ele é também histórico, político, atravessado por forças maiores.


Recepção e Legado

Inicialmente recebido com dificuldade, The Mirror tornou-se uma das obras mais celebradas de Tarkovsky, frequentemente apontada como uma das experiências mais radicais do cinema moderno.

Sua influência se estende a cineastas que exploram o cinema como linguagem poética e subjetiva.


Leitura Crítica

O Espelho é um filme sobre a impossibilidade de organizar a própria vida em narrativa coerente. Ao fragmentar o tempo, Tarkovsky sugere que a existência não se apresenta como linha, mas como dispersão.

Dentro do eixo Tempo e Existência da mostra IMAGENS DO PENSAMENTO: Cinema e Filosofia, o filme radicaliza a proposta do bloco: não apenas sentir o tempo, mas perceber que ele nunca é único: é múltiplo, instável, profundamente subjetivo.


Para quem é (e para quem não é)

The Mirror é indicado para quem se interessa por cinema experimental, poético e profundamente introspectivo. É uma obra que exige entrega sensorial e abertura interpretativa.

Por outro lado, pode não agradar quem busca narrativa clara ou linearidade: aqui, o filme não guia, ele se oferece como experiência. 

Stalker (1979) - 2 h 42 min

IMAGENS DO PENSAMENTO: Cinema e Filosofia

Um homem guia dois visitantes através de uma área conhecida como Zona em busca de uma sala que conceda desejos.


Stalker (1979) - IMDb
Dir: Andrei Tarkovsky
Drama Psicológica, Ficção Científica Distópica


MP4 / HD / LEG: Português

IMDB: 8,0   METASCORE: 8,5
Flick Metrix: 85   Average Percentile: 77.04%
100%Tomatometer47 Reviews   92%Popcornmeter

O tempo como travessia interior


A Zona e o Deslocamento

Em Stalker, Andrei Tarkovsky constrói um espaço que é, ao mesmo tempo, geográfico e mental: a Zona. Guiando um escritor e um cientista por esse território proibido, o Stalker não conduz apenas uma jornada física, mas uma travessia existencial.

A Zona não funciona segundo leis estáveis — ela exige atenção, escuta, hesitação. Cada passo é uma decisão, e cada desvio pode ser irreversível. O tempo, aqui, deixa de ser medida objetiva e passa a ser vivido como incerteza.


Duração e Experiência

Tarkovsky radicaliza a relação entre cinema e tempo. Seus planos longos, a recusa da montagem acelerada e o ritmo contemplativo criam uma experiência onde o espectador não observa o tempo — ele o habita.

A narrativa se dilui em duração. Caminhar, esperar, parar: ações mínimas ganham densidade, transformando o filme em uma experiência sensorial que exige entrega. O tempo não conduz à ação; ele a suspende.


Desejo e Verdade

No centro da Zona está o Quarto, um lugar onde os desejos mais profundos se realizam. No entanto, o filme desloca rapidamente a questão: o problema não é alcançar o desejo, mas reconhecê-lo.

O que queremos de fato? E o que acontece quando somos confrontados com essa verdade? Tarkovsky transforma a promessa de realização em um dilema ético e existencial.


Paisagem e Espírito

A materialidade da Zona — água, ferrugem, vegetação, ruínas — constrói um mundo que parece ao mesmo tempo abandonado e vivo. A natureza não é cenário, mas presença ativa, quase consciente.

Essa paisagem não explica: ela sugere. Cada imagem carrega uma densidade simbólica que não se resolve em significado único, mas se abre à experiência.


Recepção e Legado

Embora inicialmente recebido com certa reserva, Stalker tornou-se uma das obras mais influentes do cinema moderno, sendo central para discussões sobre tempo, espiritualidade e linguagem cinematográfica.

Hoje, é frequentemente associado a uma ideia de cinema que resiste à pressa — um cinema que exige contemplação e disponibilidade.


Leitura Crítica

Stalker é um filme sobre a dificuldade de desejar — e sobre o medo de confrontar aquilo que nos constitui. Ao transformar o percurso em experiência, Tarkovsky sugere que o sentido não está no destino, mas no próprio atravessamento.

Dentro do eixo Tempo e Existência da mostra IMAGENS DO PENSAMENTO: Cinema e Filosofia, o filme ocupa um lugar essencial: ele nos obriga a desacelerar, a habitar o tempo, a perceber que existir talvez seja, antes de tudo, permanecer.


Para quem é (e para quem não é)

Stalker é fundamental para quem se interessa por cinema contemplativo, filosofia e experiências que desafiam a narrativa convencional.

Por outro lado, pode afastar espectadores que buscam ritmo acelerado ou resoluções claras: aqui, o filme não responde — ele permanece.

 







segunda-feira, 23 de março de 2026

O Encouraçado Potemkin(1925) Bronenosets Potyomkin - 1 h 15 min (MUDO)

O MUNDO EM DISPUTA: Cinema Sociopolítico

Em meio à Revolução Russa de 1905, a tripulação do navio de guerra Potemkin se rebelou contra o regime brutal e tirânico dos oficiais do navio, e a posterior manifestação de rua em Odessa provocou um massacre policial.


Docudrama, Drama de Época, Guerra, História, Suspense


MP4 / HD / LEG: Português

IMDB: 7,9   METASCORE: 9,7
FLICK METRIX: 85   Average Percentile: 68.01%
100%Tomatometer52 Reviews   86%Popcornmeter

A revolta não começa com um grito — começa com uma imagem.


A revolução como forma

Em O Encouraçado Potemkin, a revolução não é apenas tema — é linguagem. Sergei Eisenstein constrói o filme como um experimento formal onde a montagem deixa de ser continuidade para se tornar choque.
👉 o sentido nasce do conflito entre imagens.






Coletivo em primeiro plano

Não há protagonista individual. O sujeito do filme é o coletivo — marinheiros, multidão, povo. A narrativa dissolve a figura do herói tradicional para dar lugar a uma experiência compartilhada.
👉 a história não pertence a um — pertence a muitos.







🎞️ A montagem como política

A célebre sequência da escadaria de Odessa sintetiza o projeto do filme: ritmo, repetição e fragmentação criam não apenas emoção, mas posicionamento. A violência não é apenas mostrada — é construída pela forma.
👉 ver é também ser afetado.






🏛️ Cinema e ideologia

Produzido no contexto pós-revolucionário soviético, o filme articula estética e ideologia de maneira indissociável. Não se trata de ilustrar uma ideia, mas de incorporá-la na própria estrutura do filme.







🎯 Para quem é (e para quem não é)

Indicado para quem se interessa pela história do cinema e por sua dimensão formal e política.
Pode não agradar quem busca narrativa convencional ou identificação individual — aqui, o impacto está na construção coletiva e na linguagem.







🧭 Leitura Crítica

O Encouraçado Potemkin redefine o que o cinema pode ser. Ao transformar a montagem em princípio ativo, o filme desloca o olhar do “o que é mostrado” para “como é mostrado”.

Mais do que representar a revolução, ele a realiza no próprio gesto cinematográfico.

👉 aqui, a forma não acompanha a ideia — ela é a ideia.








sexta-feira, 13 de março de 2026

Zashchitnik Sedov (1988) (Defence Counsel Sedov) - 42 min

Um advogado de Moscou defende quatro agrônomos durante o Grande Terror, viajando ao país em busca de provas e enfrentando diferentes níveis burocráticos, com resultados surpreendentes.


Drama


MP4 / HD / LEG: Inglês e português traduzido

IMDB: 7,7








quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

A Ascensão (1977) Voskhozhdenie - 1 h 51 min

Mostra Festival de Berlim: A Linhagem do Urso de Ouro

Dois partidários soviéticos em missão de coleta de alimentos enfrentam o frio do inverno, os ocupantes alemães e suas próprias mentes.


A Ascensão (1977) - IMDb
Dir: Larisa Shepitko
Drama Psicológico, Guerra

MP4 / SD+ / LEG: Português

IMDB: 8,2
100%Tomatometer29 Reviews   91%Popcornmeter




Um drama de guerra austero que transforma sobrevivência em prova moral extrema.


❄️ Inverno e Provação

Em A Ascensão (1977) — Voskhozhdenie —, a diretora soviética Larisa Shepitko constrói um dos filmes de guerra mais espirituais e devastadores do cinema. Ambientado durante a ocupação nazista na Bielorrússia, o filme acompanha dois partisans soviéticos enviados em missão de sobrevivência no inverno rigoroso. O que começa como busca por mantimentos rapidamente se converte numa jornada de resistência física e teste moral absoluto.


✝️ Fé, Culpa e Escolha

Shepitko estrutura o filme como um confronto ético entre dois homens diante do medo e da morte. A narrativa abandona o heroísmo convencional para investigar até que ponto o indivíduo mantém sua integridade sob pressão extrema. A dimensão quase religiosa da obra — sugerida já no título — transforma a história em uma meditação sobre sacrifício, traição e redenção.


🎬 Rigor e Intensidade Espiritual

Com fotografia em preto e branco de forte contraste e uso expressivo das paisagens nevadas, o filme cria uma atmosfera de purificação e sofrimento. A câmera de Shepitko é precisa e contemplativa, privilegiando rostos marcados e silêncios prolongados. O resultado é uma experiência de grande intensidade moral e visual, distante do espetáculo bélico tradicional.


🏆 Recepção e Legado

Vencedor do Urso de Ouro no Festival de Berlim de 1977, A Ascensão foi amplamente reconhecido como uma obra-prima do cinema soviético. O filme consolidou Larisa Shepitko como uma das vozes mais importantes de sua geração, e sua morte prematura pouco depois do lançamento reforçou o caráter quase mítico da obra. Hoje, o filme é frequentemente citado entre os mais profundos dramas de guerra já realizados.


🌌 Subir é Pagar o Preço

Ao final, A Ascensão sugere que a verdadeira elevação não é física, mas moral. Entre neve, silêncio e escolhas irreversíveis, o filme permanece como uma experiência austera e profundamente humana sobre o que significa manter a própria alma intacta em tempos de horror.