Mostra:
O AMOR NO TEMPO DO QUASE: Vínculos Frágeis num Mundo Acelerado
Uma estudante universitária britânica se apaixona por um estudante americano, só para ter que se separar dele quando for expulsa dos Estados Unidos por prolongar sua estadia.
O amor que sobrevive à distância costuma não sobreviver ao reencontro.
O visto como sentença
Like Crazy começa onde a maioria dos filmes românticos termina: dois jovens que se encontraram, se reconheceram e decidiram que o que têm vale qualquer custo. Anna é britânica, Jacob é americano, os dois estudam em Los Angeles, e o problema que vai destruir tudo que construíram não é falta de amor nem incompatibilidade de caráter. É um visto de estudante vencido e uma decisão de ficar mais algumas semanas para aproveitar o verão. Drake Doremus filma a consequência dessa decisão com uma crueldade específica: a da realidade que não se dobra para acomodar o que as pessoas sentem. A deportação de Anna e a proibição de reentrada nos Estados Unidos instalam a distância que o filme vai usar como instrumento de erosão. Like Crazy é um filme sobre o que o amor se torna quando os obstáculos são permanentes o suficiente para que as pessoas precisem construir vidas paralelas enquanto esperam que eles sejam resolvidos.Doremus e a gramática do improviso
Drake Doremus dirigiu Like Crazy a partir de um roteiro de outline, sem diálogo fixo, deixando que Felicity Jones e Anton Yelchin construíssem as cenas em tempo real. Essa escolha formal é método para chegar a uma textura de verdade que o diálogo escrito raramente produz. As hesitações, as frases que começam e não terminam, os momentos em que duas pessoas estão no mesmo espaço e não sabem o que dizer, têm a qualidade específica de algo que está acontecendo em vez de algo que foi ensaiado. John Guleserian fotografa o filme numa paleta que privilegia a luz natural e os ambientes íntimos, e o resultado é uma proximidade física com os personagens que amplifica o efeito do distanciamento emocional quando ele chega. O filme foi rodado em Super 16mm, e essa granularidade da imagem contribui para a sensação de que estamos vendo algo que não deveria ser visto, que a câmera chegou cedo demais ou ficou tarde demais numa cena que pertencia só a eles.Anna e Jacob como versões de si mesmos
Felicity Jones e Anton Yelchin entregam performances que funcionam pela acumulação de pequenos detalhes ao longo do tempo. Like Crazy percorre vários anos na vida dos dois, e Doremus registra como os corpos mudam, como os jeitos mudam, como as formas de estar juntos mudam sem que nenhum dos dois tenha feito algo que possa ser identificado como o erro que causou tudo. Há o desgaste silencioso de duas pessoas que constroem vidas separadas porque não têm alternativa e descobrem que as vidas separadas vão tomando forma própria. Jacob começa a se aproximar de Samantha, interpretada por Jennifer Lawrence numa das primeiras aparições que estabeleceram o que ela seria, e essa aproximação é a resposta natural de alguém que está sozinho e que encontrou outra pessoa que também está. Like Crazy tem a honestidade de não punir Jacob por isso, da mesma forma que não pune Anna pelo que ela faz do lado de lá do Atlântico. O filme entende que a fidelidade exige condições que a situação deles não oferece.A distância como personagem
O que Like Crazy filma com mais precisão é o efeito específico da distância longa sobre a intimidade. Não é que Anna e Jacob parem de amar um ao outro. É que o amor passa a existir em modo de suspensão, ativado nos reencontros e desligado nos intervalos, e essa intermitência vai criando uma relação com o próprio sentimento que é diferente da relação que se tem com algo contínuo. Eles aprendem a guardar o amor, a acessá-lo nos momentos certos, a fechá-lo quando a vida cotidiana exige presença em outras direções.O problema é que amor guardado e amor vivido são coisas diferentes, e a diferença vai aparecendo nos reencontros. Cada vez que Anna e Jacob se encontram depois de um longo intervalo, há um período de reajuste, de lembrar quem a outra pessoa é agora em vez de quem era na última vez. Doremus filma esses períodos de reajuste com atenção, e é nesses momentos que o filme é mais honesto: os dois querem que funcione, se esforçam para que funcione, e mesmo assim alguma coisa não encaixa completamente, e nenhum dos dois sabe nomear o que é.O final como argumento
Like Crazy termina num lugar que desconcertou parte do público e é o mais preciso que o filme poderia ter escolhido. Anna e Jacob finalmente conseguem estar juntos de forma permanente, o obstáculo burocrático é resolvido, e o que acontece então é o contrário do que os filmes românticos prometem: o problema não era a distância. A distância era o sintoma. O que estava se corroendo era outra coisa, e a presença permanente não conserta, apenas torna visível o que estava escondido atrás da saudade.Doremus termina o filme num close de Felicity Jones que diz mais do que qualquer diálogo conseguiria. Anna conseguiu o que queria e o que ela sente não é felicidade nem alívio. É a pergunta que o filme inteiro estava construindo: quando o amor sobrevive a tudo que tentou acabar com ele, o que sobra ainda é o mesmo amor? A resposta que o close sugere é que talvez a pergunta seja o problema. Talvez o amor não precise ser o mesmo para continuar sendo amor. Ou talvez precise, e esse seja o problema.Onde assistir e o que esperar
Like Crazy está disponível para locação em plataformas de streaming com disponibilidade variável. O filme tem 1h26 que passam com a velocidade irregular da memória afetiva: alguns momentos parecem durar mais do que o relógio indica, outros desaparecem antes que você perceba que eram importantes. A trilha de Dustin O'Halloran, piano solo e cordas esparsas, é uma das mais funcionalmente discretas do cinema romântico americano da década, presente quando necessária e ausente quando o silêncio serve melhor. Anton Yelchin, que morreu em 2016, está aqui numa das performances que mostram com mais clareza o que o cinema perdeu.
O amor que não consegue pousar
Like Crazy não mostra personagens que fogem da vulnerabilidade, mas personagens que a enfrentam completamente e descobrem que enfrentar não é suficiente para garantir que o que se tem vai durar. Anna e Jacob não têm medo de se expor um ao outro. O problema deles é outro, é estrutural, é feito de fronteiras e vistos e vidas que cresceram em direções diferentes enquanto o amor ficava em espera.