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quarta-feira, 13 de maio de 2026

Tempo de Revanche (1981) Tiempo de revancha - 1 h 52 min

Mostra:

FORA DO RADAR: filmes que ficaram menores do que são

Dois colegas de trabalho fingem um acidente para chantagear a empresa em que trabalham por uma quantia em dinheiro. No entanto, o plano dá errado e um deles morre. O funcionário sobrevivente exige uma compensação, mas a empresa se recusa a pagá-lo.


Tempo de Revanche (1981) - IMDb
Dir: Adolfo Aristarain
Drama, Suspense

MP4 / SD / LEG: Português

IMDB: 7,8
Letterboxd: 8,2



Aristarain filmou a ditadura argentina sem mostrar um único militar. Federico Luppi fez o resto com o silêncio.


O thriller como linguagem de resistência

Tempo de Revanche começa com Pedro Bengoa chegando a uma mineradora no interior da Argentina para trabalhar como dinamiteiro. Saiu de Buenos Aires porque seu passado sindical o tornava persona non grata na capital, e aceitou o trabalho porque precisava de dinheiro e porque a empresa não sabia ou não se importava com quem ele havia sido. Adolfo Aristarain estabelece esse ponto de partida com a economia de um cineasta que aprendeu com o thriller clássico americano que a melhor forma de instalar tensão é instalar contexto sem que o espectador perceba que está recebendo contexto.

O que Aristarain faz com esse contexto é o que torna Tempo de Revanche um dos filmes mais corajosos do cinema latino-americano: constrói um thriller de gênero rigoroso, com estrutura de suspense, protagonista moralmente complexo e reviravolta final de impacto, e dentro dessa estrutura embute uma alegoria sobre a ditadura argentina tão precisa que a censura militar não conseguiu identificá-la a tempo de proibir o filme. Lançado em julho de 1981, no auge da ditadura de Videla, Tempo de Revanche foi visto por milhões de argentinos que entenderam exatamente o que estavam vendo enquanto os censores viam apenas um thriller trabalhista.


Aristarain e o cinema político sem panfleto

Adolfo Aristarain tinha quarenta anos quando fez Tempo de Revanche e chegou ao filme com uma clareza sobre o que queria dizer e sobre como não queria dizer. O cinema político panfletário, que verbaliza sua mensagem em diálogos e situações didáticas, era facilmente identificável pela censura e igualmente facilmente rejeitado pelo público que já sabia o que ia ouvir antes de sentar na poltrona. Aristarain escolheu outro caminho: a mensagem política entra pelo gênero, pelo que as situações implicam sem verbalizar, pelo comportamento de personagens que nunca dizem ditadura mas que vivem dentro de uma sociedade onde o poder é exercido com violência arbitrária e impunidade sistemática.

A empresa de mineração que Bengoa enfrenta opera com a lógica da ditadura: compra testemunhos, ameaça quem resiste, usa instrumentos legais para fins ilegítimos e conta com a cumplicidade de um sistema que foi projetado para protegê-la. Aristarain nunca precisa mostrar um militar ou mencionar o regime para que o espectador argentino de 1981 reconheça o ambiente. Está nos gestos, nos silêncios, na forma como as pessoas ao redor de Bengoa desviam o olhar quando o assunto fica perigoso.


Federico Luppi e o silêncio como instrumento

Federico Luppi interpreta Pedro Bengoa com uma fisicalidade contida que o filme usa de forma progressivamente mais precisa à medida que a história avança. No início do filme, Bengoa fala. Tem opiniões, tem humor seco, tem a presença de um homem que já enfrentou sistemas antes e aprendeu a medir o que diz e para quem. Quando o plano que ele e o companheiro Bruno traçaram para extorquir a empresa vai de frente com a tragédia, e Bengoa decide fingir que ficou mudo no acidente para pressionar a empresa a pagar a indenização, o filme muda de natureza.

A partir do momento em que Bengoa para de falar, Luppi precisa fazer com expressão facial, postura e movimento o que a maioria dos atores faz com texto, e o que entrega é uma das performances mais precisas do cinema argentino de qualquer época. O silêncio de Bengoa começa como estratégia e vai se tornando outra coisa: a externalização de uma recusa, a forma que o trabalhador explorado encontrou de dizer não com o único instrumento que o sistema não consegue confiscar completamente. Aristarain entendeu que numa ditadura onde as pessoas desaparecem por falar, o silêncio voluntário é um ato político.


O plano e o que ele revela

O dispositivo central do filme, dois trabalhadores que simulam um acidente para extorquir uma empresa que os explora sistematicamente, poderia ter sido tratado como comédia negra ou como thriller de rapina. Aristarain trata como tragédia com estrutura de thriller, e essa escolha revela o argumento moral do filme: o plano de Bengoa e Bruno é eticamente questionável, mas o sistema contra o qual eles se voltam é eticamente indefensável, e Aristarain se recusa a resolver essa tensão de forma fácil.

Bruno morre no acidente simulado de forma que não estava no plano, e essa morte transforma o que havia começado como extorsão em algo mais complicado: Bengoa continua não por ganância mas por uma mistura de lealdade ao companheiro morto, raiva acumulada por anos de exploração e a descoberta de que o silêncio que adotou como estratégia lhe deu um tipo de poder que nunca havia tido enquanto falava. A empresa que achava que podia esmagar Bengoa descobriu que um homem que decidiu não abrir a boca por nenhum motivo é mais difícil de derrubar do que qualquer sindicalista que ainda acredita que as palavras vão mudar alguma coisa.


A alegoria e o que a censura não viu

Tempo de Revanche é uma alegoria sobre os desaparecidos da ditadura argentina construída de forma que a censura militar não conseguiu identificá-la. Bengoa finge ser mudo: é uma pessoa que existe mas que o sistema não consegue fazer falar, que resiste à pressão institucional com o silêncio como única arma disponível. A empresa usa contra ele os mesmos instrumentos que a ditadura usava contra os opositores: vigilância, intimidação, corrupção do sistema judicial, violência implícita e explícita.

O final do filme, que Aristarain filma com uma contenção que amplifica o impacto em vez de diminuí-lo, é o momento em que a alegoria se fecha de forma que qualquer argentino de 1981 entendia completamente e que a censura havia perdido a oportunidade de proibir. Bengoa ganha de uma forma que custa tudo que tinha, e essa vitória impossível é a resposta do filme à ditadura: a resistência tem um preço real, mas a rendição tem um preço maior.


Onde assistir e o que esperar

Tempo de Revanche está disponível em plataformas de streaming com disponibilidade variável no Brasil, e vale buscar com o título original Tiempo de revancha em plataformas de cinema latino-americano. O filme tem 112 minutos em espanhol argentino legendado que se movem com o ritmo do thriller clássico: Aristarain não desperdiça cenas, não explica o que o espectador pode inferir e confia que a tensão que instala nos primeiros trinta minutos vai sustentar o que vem depois. A fotografia de Horacio Maira usa paleta de azuis e cinzas que dá ao filme uma frieza visual que combina com o território moral que está habitando, e a trilha de Emilio Kauderer tem a qualidade hitchcockiana que o suspense do roteiro exige. O espectador que chegar conhecendo o contexto da ditadura argentina vai encontrar camadas adicionais em cada cena. O espectador que chegar sem esse contexto vai encontrar um thriller rigoroso que entrega o suficiente por conta própria.


Por que ficou fora do radar

Tempo de Revanche ficou fora do radar brasileiro por razões que têm menos a ver com qualidade do que com a invisibilidade histórica do cinema argentino dos anos 1980 no circuito de arte internacional. O filme foi lançado num momento em que a Argentina estava fechada sobre si mesma pela ditadura, ganhou prêmios importantes em Montreal e Havana mas não encontrou distribuição significativa além do mundo hispânico, e quando a ditadura terminou e o cinema argentino voltou a circular internacionalmente, os filmes que chegaram primeiro foram os da geração seguinte.

O que o radar perdeu é o filme que marcou o início da transição democrática no cinema argentino, que demonstrou que era possível fazer cinema político rigoroso dentro de um sistema de censura sem abrir mão nem do rigor político nem da qualidade cinematográfica, e que produziu uma das performances mais memoráveis de Federico Luppi numa carreira cheia de performances memoráveis. Quarenta anos depois, com ditaduras e autoritarismos voltando a ocupar espaço no debate político mundial, Tempo de Revanche chegou antes do momento em que seria mais necessário e permanece completamente atual no diagnóstico que fez.

sábado, 9 de maio de 2026

Medianeras: Buenos Aires da Era do Amor Virtual (2011) Medianeras - 1 h 35 min

Mostra:

O AMOR NO TEMPO DO QUASE: Vínculos Frágeis num Mundo Acelerado

Mariana (Pilar López de Ayala), Martin (Javier Drolas) e a cidade. Os dois vivem na mesma quadra, em apartamentos um de frente para o outro, mas nunca conseguem se encontrar. Eles se cruzam sem saber da existência do outro. Ela sobe as escadas, ele desce as escadas; ela entra no ônibus, ele sai do ônibus. Eles frequentam a mesma videolocadora, sempre com um stand de filmes os separando. Eles sentam na mesma fileira em um cinema, mas a sala é escura. A cidade que os coloca juntos é a mesma que os separa.



Comédia, Drama


MP4 / HD / LEG: Português

IMDB: 7,5   METASCORE: 6,0
Letterboxd: 8,2   Flick Metrix: 75
73%Tomatometer11 Reviews   83%Popcornmeter

Martín e Mariana moram em apartamentos vizinhos em Buenos Aires e nunca se encontraram. O filme sabe que isso vai mudar. O que não sabe é se vai importar.

Taretto e o filme que Buenos Aires merecia

Gustavo Taretto estreou na direção com Medianeras depois de um curta-metragem homônimo que havia circulado por festivais e conquistado uma audiência cult. O longa expande o argumento do curta com a mesma linguagem: narração em voz over, câmera que observa a cidade como personagem, dois solitários urbanos cujas histórias correm em paralelo até o inevitável. O que Taretto fez que o cinema argentino raramente havia feito com essa precisão foi usar Buenos Aires como argumento: a cidade que cresceu verticalmente, que dividiu as pessoas em células individuais empilhadas, que criou a proximidade física e a distância afetiva simultaneamente, é o tema do filme tanto quanto os dois personagens que o habitam.



Buenos Aires como organismo e como diagnóstico

Taretto filma Buenos Aires com o olhar de alguém que a ama e que a entende como problema. As medianeras do título são as paredes cegas dos edifícios, aquelas superfícies laterais sem janelas que dividem os prédios e que Taretto usa como metáfora para o estado dos personagens: presença total e visibilidade zero. Martín e Mariana vivem separados por uma parede, respiram o mesmo ar, ouvem os mesmos sons da cidade, e nunca se cruzaram porque a cidade foi construída para que as pessoas coexistam sem se encontrar. A crítica à arquitetura urbana portenha é também uma crítica ao modelo de vida que essa arquitetura produz.


Martín e Mariana como espelhos

Javier Drolas interpreta Martín como um web designer agorafóbico que passou meses sem sair de casa e que se relaciona com o mundo através da tela. Pilar López de Ayala interpreta Mariana como uma decoradora que acabou de sair de um relacionamento e que também encontrou na internet um substituto confortável para a intimidade real. Taretto usa o paralelismo entre os dois com uma consciência de que está trabalhando com um dispositivo narrativo convencional, e a narração em voz over de cada personagem comenta essa consciência com um humor que é parte do charme do filme. Os dois são a mesma pessoa em corpos diferentes, o que é simultaneamente o argumento mais forte do filme e sua limitação mais clara.



A internet como substituto e como prisão

Medianeras chegou em 2011, quando o Facebook havia se tornado o principal espaço de socialização de uma geração inteira, e Taretto usou esse contexto com uma intuição que o tempo confirmou. Martín e Mariana são pessoas que encontraram na conexão virtual um conforto que a conexão física não oferece com a mesma facilidade: sem o risco do julgamento imediato, sem a vulnerabilidade do corpo presente, sem a possibilidade de decepção em tempo real. O filme observa com a precisão de quem entende que a internet não criou a solidão urbana mas a tornou mais confortável e portanto mais difícil de abandonar.


O humor como instrumento de distância e de proximidade

Taretto usa o humor com uma inteligência que é a marca registrada do filme: as observações de Martín e Mariana sobre a cidade, sobre os vizinhos, sobre os próprios hábitos têm uma qualidade cômica que não diminui o peso do que estão sentindo mas torna o espectador cúmplice de uma forma que o drama puro não alcançaria. É o humor de quem se observa de fora com clareza suficiente para ver o absurdo da própria situação mas sem distância suficiente para mudar alguma coisa. Esse registro específico, entre a consciência e a impotência, é onde Medianeras encontra sua melhor forma.




Onde assistir

Medianeras está disponível no Reserva Imovision Amazon Channel e na Filmoteca Seu Manolo. O filme tem um ritmo que usa a narração em voz over para criar uma intimidade com os personagens que a câmera reforça. É um filme que funciona especialmente bem para espectadores que conhecem Buenos Aires, mas que não exige esse conhecimento para ser completamente apreciado. A fotografia de Leandro Martínez usa a cidade com uma atenção que transforma cada fachada e cada medianera numa informação sobre os personagens que a habitam.


A conexão permanente e a intimidade rarefeita

Medianeras é o filme desta mostra que mais diretamente mapeia o paradoxo central dos relacionamentos na era digital: a conexão permanente que não produz intimidade real. Martín e Mariana estão conectados ao mundo inteiro através das telas e completamente desconectados do vizinho que respira do outro lado da parede. Taretto filmou esse paradoxo com uma afetividade que é a maior qualidade do filme: há uma compreensão gentil de que o mundo que construímos para facilitar as conexões às vezes as torna mais difíceis do que nunca. Buenos Aires é o cenário. A solidão digital é o tema. E a parede entre Martín e Mariana é a imagem mais honesta disponível sobre o que separa as pessoas num mundo que prometeu aproximá-las.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Blondi (2023) - 1 h 27 min

Blondi e Mirko moram juntos, ouvem as mesmas músicas, assistem aos mesmos filmes, gostam de fumar maconha e têm os mesmos amigos. Mas, apesar de parecerem da mesma idade, Blondi é mãe de Mirko.


Blondi (2023) - IMDb
Dir: Dolores Fonzi
Comédia, Drama


MP4 / HD / LEG: Português

IMDB: 6,7
83%Tomatometer12 Reviews   80%Popcornmeter






sábado, 31 de janeiro de 2026

Relatos Selvagens (2014) Relatos salvajes - 2 h 2 min

Filmes Live Action do IMDB Top 250 - BLOCO 5 (#201 a #250)

NINGUÉM TE EXPLICOU AS REGRAS DESTE NOVO MUNDO: 7 Filmes que Tentaram.

Seis historias curtas que exploram o comportamento humano de pessoas desesperadas.


Relatos Selvagens (2014) - IMDb
Dir: Damián Szifron
Comédia de Humor Negro, Drama Psicológico, Sátira, Suspense Psicológico


MP4 / HD- / LEG: Português

IMDB: 8,1   METASCORE: 7,7
94%Tomatometer156 Reviews   92%Popcornmeter


Seis Histórias, Um Mesmo Estopim

Relatos Selvagens organiza-se como mosaico de explosões morais. Cada episódio começa em aparente normalidade cotidiana, mas carrega tensão subterrânea prestes a romper. O filme sugere que a civilização é camada fina. Basta um arranhão para revelar a fúria abaixo.


O Acaso Que Une Desconhecidos

No primeiro conto, coincidências se acumulam até se tornarem destino cruel. Szifron transforma o acaso em ironia cósmica, mostrando como pequenas conexões invisíveis podem conduzir a desfechos violentos e absurdos.


Trabalho, Orgulho e Humilhação

Muitos personagens são atravessados por frustrações acumuladas: dívidas, desprezo social, abuso de poder. A raiva não nasce de grandes tragédias, mas de microviolências diárias. O filme expõe o desgaste silencioso que precede cada explosão.


A Vingança Como Fantasia Democrática

Em vários episódios, a revanche surge como prazer imediato. O espectador ri, às vezes torce, reconhecendo o impulso primitivo de “fazer justiça com as próprias mãos”. Szifron brinca perigosamente com essa cumplicidade, revelando o quanto a violência pode parecer sedutora.


Burocracia Como Forma de Violência

O Estado e suas instituições aparecem como máquinas indiferentes. Multas absurdas, repartições kafkianas e autoridades arrogantes transformam cidadãos em reféns do sistema. A agressão é administrativa.


Humor Que Nasce do Desespero

O riso em Relatos Selvagens é nervoso, quase culposo. A comédia acentua a brutalidade. Gargalhar diante do caos torna-se mecanismo de defesa diante de um mundo que parece estruturalmente injusto.


A Estrada Como Ringue


No famoso duelo automobilístico, o conflito cresce de insulto banal a guerra primitiva. A estrada, espaço de deslocamento moderno, regrede à barbárie. Szifron mostra como o verniz civilizatório desaparece quando o ego é ferido.


Casamento Como Campo de Batalha


No episódio final, a festa nupcial se transforma em tribunal emocional. Amor, traição e orgulho colidem em público. O ritual social que celebra a união torna-se espetáculo de humilhação coletiva, misturando dor e grotesco.


A Selvageria Que Mora no Cotidiano

Ao encerrar, Relatos Selvagens não aponta monstros externos. A violência está em todos, pronta para emergir quando limites se rompem. O filme afirma, com humor ácido, que a barbárie é possibilidade constante da condição humana.








quarta-feira, 19 de novembro de 2025

A História Oficial (1985) La historia oficial - 1 h 52 min

OSCAR INTERNACIONAL - Winner

O MUNDO EM DISPUTA: Cinema Sociopolítico

Buenos Aires, década de 1980. Alicia é uma conservadora professora de história casada com Roberto e mãe adotiva da pequena Gaby. Completamente alheia à realidade argentina, Alicia começa a se dar conta dos acontecimentos recentes quando reencontra Ana, uma velha amiga que acaba de voltar do exílio. Sedenta por respostas, ela decide buscar pistas sobre a misteriosa origem de sua filha.


A História Oficial (1985) - IMDb
Dir: Luis Puenzo
Drama, História


MP4 / HD / LEG: Português

IMDB: 7,7
FLICK METRIX: 80   Average Percentile: 64.87%
100%Tomatometer13 Reviews   89%Popcornmeter


“A História Oficial” é um dos filmes mais emblemáticos da redemocratização argentina. Lançado em 1985 — apenas dois anos após o fim da ditadura militar — o filme ocupa um lugar histórico fundamental: foi uma das primeiras obras de ficção a confrontar de forma direta a violência do regime, especialmente o sequestro de bebês de presos políticos, prática que depois seria amplamente investigada pelas Abuelas de Plaza de Mayo.

Enredo e estrutura emocional

A narrativa acompanha Alicia Marnet de Ibáñez, uma professora de História, de classe média alta, que leva uma vida organizada e aparentemente estável ao lado do marido, Roberto, um empresário bem-sucedido. Eles criam juntos Gaby, uma menina adotada ainda bebê.

No entanto, quando uma amiga de Alicia retorna do exílio e relata os horrores que sofreu — inclusive a tortura — algo se rompe. O filme acompanha o despertar doloroso de Alicia para uma realidade que ela nunca havia questionado: a possibilidade de que sua filha adotiva seja, na verdade, filha de uma presa política “desaparecida”.

Esse processo não é uma mera investigação externa; ele se torna um quebra-cabeça moral, obrigando Alicia a revisitar suas crenças, seu trabalho como educadora e, principalmente, seu casamento.

Culpa, negação e despertar

Puenzo constrói Alicia como um retrato poderoso da classe média que acreditou na “versão oficial” da ditadura: a professora que repete nos livros o que o Estado legitima, que sempre confiou na estabilidade e no conforto como certezas. Sua jornada é, antes de tudo, uma história de desilusão.

O filme explora profundamente:

  • A culpa individual e coletiva
    Alicia entende que sua ignorância não é inocente; ela foi, por anos, cúmplice da opressão por não querer ver o que estava ao seu redor.
  • A negação como mecanismo de sobrevivência
    Muitos personagens — colegas, alunos, vizinhos — preferem não “mexer nas feridas”, evidenciando a tensão entre memória e esquecimento no pós-ditadura.
  • O confronto íntimo dentro da família
    Roberto, interpretado com frieza calculada, simboliza a elite que prosperou durante o regime. Sua resistência ao questionamento de Alicia mostra como a violência estatal se infiltrou no ambiente doméstico.

A maternidade ferida

Um dos aspectos mais emocionantes do filme é a forma como a maternidade é tratada. Alicia ama Gaby profundamente, mas também precisa enfrentar a possibilidade de que:

  1. A criança tenha sido roubada.
  2. Sua maternidade esteja construída sobre um crime.
  3. A verdade possa destruí-la afetivamente.

O filme nunca oferece respostas fáceis — e essa é sua força. Ele confronta o espectador com um dilema ético central: a verdade deve sempre prevalecer, mesmo quando ameaça destruir tudo o que se ama?

Estética e política

Embora politicamente contundente, a obra evita o panfletarismo. Puenzo cria cenas íntimas, silenciosas, carregadas de tensão emocional, especialmente nos encontros de Alicia com as Abuelas.

Essas mulheres — figuras reais que inspiraram o filme — trazem ao longa um peso histórico que transcende a ficção. A busca por Gaby se torna um símbolo de todas as crianças sequestradas, e o filme opera como uma denúncia, mas também como memorial.

O final aberto (sem spoilers diretos)

O desfecho é abrupto, doloroso e profundamente humano. Ele não encerra, mas abre uma ferida — exatamente como o país se encontrava em 1985. A ausência de respostas definitivas reforça a ideia de que a justiça e a verdade estavam apenas começando a ser perseguidas.


Importância histórica

“A História Oficial” não apenas venceu o Oscar; tornou-se um marco cultural argentino e latino-americano. Foi um dos primeiros filmes a romper o silêncio imposto por anos e a expor para o mundo as atrocidades da ditadura.

Até hoje, o filme continua sendo:

  • um documento sensível sobre a violência de Estado,
  • um drama psicológico potente sobre culpa e consciência,
  • e uma obra essencial para entender a luta pela memória na Argentina.

 




ATENÇÃO: SPOILER

O final de “A História Oficial” (1985) é um dos momentos mais fortes e dolorosos do cinema latino-americano — e também um dos mais abertos, justamente porque reflete a ferida histórica que o filme denuncia.

A seguir, descrevo o final sem suavizar a dimensão simbólica, mas sem spoilers excessivamente detalhados sobre ações específicas, apenas o suficiente para explicar o sentido.


O QUE ACONTECE NO FINAL

À medida que Alicia se aproxima da verdade sobre a origem de Gaby, o clima na casa se torna insuportável. A busca por documentos, testemunhos e pistas faz com que ela ultrapasse a linha de silêncio que sustentava o casamento.

No último ato, há um confronto devastador entre Alicia e Roberto. A violência psicológica que vinha subterrânea finalmente explode em violência física. O lar — antes o espaço da estabilidade — se torna um campo de batalha simbólico entre:

  • o passado repressivo (Roberto),
  • e a busca pela verdade (Alicia).

Depois do confronto, Alicia sai de casa, ferida, fragmentada e sem sua filha.

E então o filme acaba. Abruptamente. Sem soluções.


POR QUE O FINAL É ABERTO?

Porque nenhuma das questões centrais é respondida:

1. Alicia vai recuperar Gaby?

O filme não mostra se Alicia tentará levar a criança com ela, se terá direito legal, se conseguirá sobreviver fora daquela casa.
Sua maternidade permanece suspensa.

2. Os verdadeiros avós de Gaby a encontrarão?

Também não sabemos se as Abuelas de Plaza de Mayo conseguirão confirmar oficialmente a origem da menina.
A história pessoal de Gaby permanece um vazio — como tantas histórias reais da ditadura.

3. Alicia conseguirá reconstruir sua vida?

Não há imagem de redenção, de recomeço, de segurança.
Alicia sai para um mundo tão indefinido quanto o país pós-ditadura.

4. O que acontecerá com Roberto?

Nenhuma punição é mostrada. Nenhuma confissão.
Ele encarna a impunidade que marcou os primeiros anos após o regime militar.


O SIGNIFICADO MAIOR DO FINAL

O final aberto de “A História Oficial” não é meramente narrativo — é político.

Em 1985, quando o filme estreou, a Argentina estava apenas começando a enfrentar os crimes da ditadura. Nada estava resolvido:

  • milhares de crianças ainda estavam desaparecidas,
  • muitos culpados não haviam sido julgados,
  • a sociedade tentava entender sua própria cumplicidade.

O final é aberto porque a história real também estava aberta.

A saída de Alicia — machucada, sem respostas, sem a filha — simboliza:

  • a dor das famílias que buscavam os desaparecidos,
  • a ruptura com uma ordem construída sobre o silêncio,
  • a incerteza de um país tentando reaprender a olhar para o passado.


A última imagem: o que ela representa?

O plano final, com Gaby cantando inocentemente enquanto Alicia está destruída emocionalmente, cria um contraste brutal entre:

  • a criança que vive numa mentira,
  • e a mulher que finalmente enxerga a verdade,
  • e não pode mais voltar atrás.

É uma imagem de perda, mas também de conscientização.
Alicia está — pela primeira vez — fora da “história oficial”.
Agora ela terá de construir a sua própria.

 


sexta-feira, 14 de novembro de 2025

Belén (2025) - 1 h 45 min

O filme se baseia em um caso real: Belén (nome fictício para preservar a identidade) é uma jovem que vai a um hospital pública na província de Tucumán sentindo fortes dores abdominais, sem saber que estava grávida. Depois, um feto é encontrado em um banheiro do hospital, e ela é acusada de ter provocado um aborto ilegal. A advogada Soledad Deza (interpretada por Fonzi) assume o caso, enfrentando um sistema legal marcado por preconceitos de classe e gênero, e lutando por justiça para Belén.  A narrativa também cobre a mobilização social em torno deste caso, mostrando os efeitos na vida pessoal das personagens e na sociedade.


Belén (2025) - IMDb
Dir: Dolores Fonzi
Crime, Drama


MP4 / HD / LEG: Português

IMDB: 7,0   METASCORE: 7,0
Flick Metrix: 75   Criticker Average Percentile: 50%
95%Tomatometer25 Reviews



  1. Reconhecimento / Prêmios
    • Foi escolhida para representar a Argentina na categoria Melhor Filme Internacional (antes “Melhor Filme Estrangeiro”) nos Oscars de 2026.
    • Também é a candidata argentina aos Premios Goya (Espanha) como Melhor Filme Ibero-americano.
    • No Festival de San Sebastián, Camila Plaate (que faz Belén) ganhou o Prêmio Silver Shell de melhor performance coadjuvante.
  2. Temas e Relevância
    • Justiça social e direitos das mulheres: a trama aborda a desigualdade de gênero e classe, mostrando como o sistema judicial pode ser cruel com mulheres pobres e vulneráveis.
    • Aborto e criminalização: o filme levanta a discussão do aborto ilegal, e como a falta de acesso seguro ao aborto pode levar a injustiças graves.
    • Ativismo: retrata a mobilização feminista (no “movimento verde” argentino) e o impacto coletivo de casos individuais para gerar mudança social.
    • Memória histórica: ao usar material real na conclusão, o filme conecta o passado (“caso Belén”) com conquistas mais recentes (legalização do aborto), reforçando a ideia de que a luta valeu a pena.
  3. Impacto Cultural
    • É um filme importante para o cinema argentino contemporâneo porque trata de um tema muito presente no debate público e político do país.
    • Ao ser selecionada para Oscar e Goya, demonstra que essa história tem ressonância internacional.
    • Ajuda a dar visibilidade para casos de mulheres criminalizadas por abortos espontâneos ou por não ter recursos para se defender bem.

Análise Crítica (Breve)

  • Pontos positivos:
    • A escolha de Dolores Fonzi para dirigir e atuar dá uma autenticidade emocional ao filme.
    • O roteiro, baseado em um caso real, traz peso moral e social: é cinema que dialoga com ativismo.
    • A cinematografia, edição e trilha sonora contribuem para tornar o drama potente sem cair no melodrama barato.
    • A narrativa legal (“procedural jurídico”) funciona bem para mostrar os bastidores de um julgamento e a complexidade da Justiça, especialmente num sistema desigual.
  • Desafios / Limitações possíveis:
    • Focar tanto na advogada pode enfraquecer a construção da personagem Belén como indivíduo — ainda que ela seja o centro moral da história, pode haver risco de ela ser mais símbolo do que pessoa (dependendo de como o filme foi montado).
    • A dramatização de casos reais pode levantar críticas sobre fidelidade ou romantização de certos eventos.
    • Como filme “político”, pode polarizar audiências: para alguns é um grito de justiça; para outros, pode parecer propaganda ativista (mas isso depende da recepção).

quarta-feira, 29 de outubro de 2025

Bolivia (1999) - 1 h 15 min

Um imigrante boliviano que trabalha ilegalmente como cozinheiro em um pequeno restaurante em Buenos Aires é abusado e discriminado por seus clientes.


Dir: Israel Adrián Caetano
Drama

MP4 / HD- / LEG: Inglês e português traduzido

IMDB: 7,2   METASCORE: 6,6
100%Tomatometer12 Reviews   83%Popcornmeter






Background

Produção

As filmagens foram uma produção stop-and-go e exigiram três anos de filmagem descontínua. Foi filmado em dias e horários diferentes. Segundo o diretor Caetano, ele nunca conseguiu filmar por mais de três dias seguidos. [3]

Base do filme

Caetano acredita que "o tema principal do filme é a colisão entre pessoas de uma mesma classe social, são trabalhadores prestes a serem deixados de fora de qualquer classe e, portanto, são intolerantes uns com os outros. Basicamente, eles estão presos em uma situação da qual não podem escapar." [4]

Elenco

Caetano, à moda neo-realista, usou atores profissionais e não profissionais. [4] Freddy Flores, o personagem principal, por exemplo, é um ator não profissional. [5]

Distribuição

O filme foi apresentado pela primeira vez no Festival de Cannes em maio de 2001, onde ganhou o prêmio de Melhor Longa-Metragem da Crítica Jovem. Nos Estados Unidos, o filme estreou em Nova York em 26 de fevereiro de 2003.

Recepção crítica

O crítico de cinema Elvis Mitchell, escrevendo para o The New York Times, gostou da direção do filme e escreveu: "O trabalho do Sr. Caetano é muito revelador e emocionante ... [e] tem uma integridade emocional concisa e direta." [6]

Os críticos de cinema Frederic e Mary Ann Brussat, do site Spirituality and Practice, ficaram emocionados com a história que viram e escreveram: "A Bolívia é um drama fascinante da vida ... [que] atinge o alvo com sua representação angustiante da pobreza urbana e o impacto divisivo e explosivo do ódio aos estrangeiros". [7]

Manohla Dargis, crítica de cinema do Los Angeles Times, argumenta que o filme sub silento informa sobre o que está acontecendo na Argentina (em 2001) tanto econômica quanto culturalmente. Ela escreveu: "A vida na Bolívia, uma parábola sobre a Argentina contemporânea, é ainda mais corajosa do que a cinematografia em preto e branco do filme ... [e o filme] oferece personagens em um estado de crise contínua. Mal pagos e sobrecarregados, financeiramente desancorados e espiritualmente à deriva, esses são homens e mulheres para quem a economia em declínio é, finalmente, apenas a manifestação mais óbvia de um mal-estar mais profundo. [8]