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FORA DO RADAR: filmes que ficaram menores do que são
Aristarain filmou a ditadura argentina sem mostrar um único militar. Federico Luppi fez o resto com o silêncio.
O thriller como linguagem de resistência
Tempo de Revanche começa com Pedro Bengoa chegando a uma mineradora no interior da Argentina para trabalhar como dinamiteiro. Saiu de Buenos Aires porque seu passado sindical o tornava persona non grata na capital, e aceitou o trabalho porque precisava de dinheiro e porque a empresa não sabia ou não se importava com quem ele havia sido. Adolfo Aristarain estabelece esse ponto de partida com a economia de um cineasta que aprendeu com o thriller clássico americano que a melhor forma de instalar tensão é instalar contexto sem que o espectador perceba que está recebendo contexto.O que Aristarain faz com esse contexto é o que torna Tempo de Revanche um dos filmes mais corajosos do cinema latino-americano: constrói um thriller de gênero rigoroso, com estrutura de suspense, protagonista moralmente complexo e reviravolta final de impacto, e dentro dessa estrutura embute uma alegoria sobre a ditadura argentina tão precisa que a censura militar não conseguiu identificá-la a tempo de proibir o filme. Lançado em julho de 1981, no auge da ditadura de Videla, Tempo de Revanche foi visto por milhões de argentinos que entenderam exatamente o que estavam vendo enquanto os censores viam apenas um thriller trabalhista.
Aristarain e o cinema político sem panfleto
Adolfo Aristarain tinha quarenta anos quando fez Tempo de Revanche e chegou ao filme com uma clareza sobre o que queria dizer e sobre como não queria dizer. O cinema político panfletário, que verbaliza sua mensagem em diálogos e situações didáticas, era facilmente identificável pela censura e igualmente facilmente rejeitado pelo público que já sabia o que ia ouvir antes de sentar na poltrona. Aristarain escolheu outro caminho: a mensagem política entra pelo gênero, pelo que as situações implicam sem verbalizar, pelo comportamento de personagens que nunca dizem ditadura mas que vivem dentro de uma sociedade onde o poder é exercido com violência arbitrária e impunidade sistemática.A empresa de mineração que Bengoa enfrenta opera com a lógica da ditadura: compra testemunhos, ameaça quem resiste, usa instrumentos legais para fins ilegítimos e conta com a cumplicidade de um sistema que foi projetado para protegê-la. Aristarain nunca precisa mostrar um militar ou mencionar o regime para que o espectador argentino de 1981 reconheça o ambiente. Está nos gestos, nos silêncios, na forma como as pessoas ao redor de Bengoa desviam o olhar quando o assunto fica perigoso.
Federico Luppi e o silêncio como instrumento
Federico Luppi interpreta Pedro Bengoa com uma fisicalidade contida que o filme usa de forma progressivamente mais precisa à medida que a história avança. No início do filme, Bengoa fala. Tem opiniões, tem humor seco, tem a presença de um homem que já enfrentou sistemas antes e aprendeu a medir o que diz e para quem. Quando o plano que ele e o companheiro Bruno traçaram para extorquir a empresa vai de frente com a tragédia, e Bengoa decide fingir que ficou mudo no acidente para pressionar a empresa a pagar a indenização, o filme muda de natureza.A partir do momento em que Bengoa para de falar, Luppi precisa fazer com expressão facial, postura e movimento o que a maioria dos atores faz com texto, e o que entrega é uma das performances mais precisas do cinema argentino de qualquer época. O silêncio de Bengoa começa como estratégia e vai se tornando outra coisa: a externalização de uma recusa, a forma que o trabalhador explorado encontrou de dizer não com o único instrumento que o sistema não consegue confiscar completamente. Aristarain entendeu que numa ditadura onde as pessoas desaparecem por falar, o silêncio voluntário é um ato político.
O plano e o que ele revela
O dispositivo central do filme, dois trabalhadores que simulam um acidente para extorquir uma empresa que os explora sistematicamente, poderia ter sido tratado como comédia negra ou como thriller de rapina. Aristarain trata como tragédia com estrutura de thriller, e essa escolha revela o argumento moral do filme: o plano de Bengoa e Bruno é eticamente questionável, mas o sistema contra o qual eles se voltam é eticamente indefensável, e Aristarain se recusa a resolver essa tensão de forma fácil.
Bruno morre no acidente simulado de forma que não estava no plano, e essa morte transforma o que havia começado como extorsão em algo mais complicado: Bengoa continua não por ganância mas por uma mistura de lealdade ao companheiro morto, raiva acumulada por anos de exploração e a descoberta de que o silêncio que adotou como estratégia lhe deu um tipo de poder que nunca havia tido enquanto falava. A empresa que achava que podia esmagar Bengoa descobriu que um homem que decidiu não abrir a boca por nenhum motivo é mais difícil de derrubar do que qualquer sindicalista que ainda acredita que as palavras vão mudar alguma coisa.
A alegoria e o que a censura não viu
Tempo de Revanche é uma alegoria sobre os desaparecidos da ditadura argentina construída de forma que a censura militar não conseguiu identificá-la. Bengoa finge ser mudo: é uma pessoa que existe mas que o sistema não consegue fazer falar, que resiste à pressão institucional com o silêncio como única arma disponível. A empresa usa contra ele os mesmos instrumentos que a ditadura usava contra os opositores: vigilância, intimidação, corrupção do sistema judicial, violência implícita e explícita.
O final do filme, que Aristarain filma com uma contenção que amplifica o impacto em vez de diminuí-lo, é o momento em que a alegoria se fecha de forma que qualquer argentino de 1981 entendia completamente e que a censura havia perdido a oportunidade de proibir. Bengoa ganha de uma forma que custa tudo que tinha, e essa vitória impossível é a resposta do filme à ditadura: a resistência tem um preço real, mas a rendição tem um preço maior.
Onde assistir e o que esperar
Tempo de Revanche está disponível em plataformas de streaming com disponibilidade variável no Brasil, e vale buscar com o título original Tiempo de revancha em plataformas de cinema latino-americano. O filme tem 112 minutos em espanhol argentino legendado que se movem com o ritmo do thriller clássico: Aristarain não desperdiça cenas, não explica o que o espectador pode inferir e confia que a tensão que instala nos primeiros trinta minutos vai sustentar o que vem depois. A fotografia de Horacio Maira usa paleta de azuis e cinzas que dá ao filme uma frieza visual que combina com o território moral que está habitando, e a trilha de Emilio Kauderer tem a qualidade hitchcockiana que o suspense do roteiro exige. O espectador que chegar conhecendo o contexto da ditadura argentina vai encontrar camadas adicionais em cada cena. O espectador que chegar sem esse contexto vai encontrar um thriller rigoroso que entrega o suficiente por conta própria.
Por que ficou fora do radar
Tempo de Revanche ficou fora do radar brasileiro por razões que têm menos a ver com qualidade do que com a invisibilidade histórica do cinema argentino dos anos 1980 no circuito de arte internacional. O filme foi lançado num momento em que a Argentina estava fechada sobre si mesma pela ditadura, ganhou prêmios importantes em Montreal e Havana mas não encontrou distribuição significativa além do mundo hispânico, e quando a ditadura terminou e o cinema argentino voltou a circular internacionalmente, os filmes que chegaram primeiro foram os da geração seguinte.
O que o radar perdeu é o filme que marcou o início da transição democrática no cinema argentino, que demonstrou que era possível fazer cinema político rigoroso dentro de um sistema de censura sem abrir mão nem do rigor político nem da qualidade cinematográfica, e que produziu uma das performances mais memoráveis de Federico Luppi numa carreira cheia de performances memoráveis. Quarenta anos depois, com ditaduras e autoritarismos voltando a ocupar espaço no debate político mundial, Tempo de Revanche chegou antes do momento em que seria mais necessário e permanece completamente atual no diagnóstico que fez.