Mostra Retrospectiva Woody Allen - Risos, Neurose e Nova York
Um playboy que se recusa a desistir de seu estilo de vida hedonista para se estabilizar e se casar com seu amor verdadeiro procura a ajuda de um psicanalista maluco que está tendo seus próprios problemas românticos.
Que é que Há, Gatinha? (1965) - IMDbDir: Clive Donner
Farsa, Pastelão, Comédia
MP4 / HD- / LEG: Português
IMDB: 6,0
Que é que Há, Gatinha? ocupa um lugar fundador,
embora conflituoso, na trajetória de Woody Allen. Escrito por Allen
(seu primeiro roteiro para o cinema) e dirigido por Clive Donner,
o filme é uma comédia sexual farsesca típica dos anos 1960, marcada por
exagero, ritmo frenético e humor físico — e também por tensões autorais que
ajudariam a moldar o futuro cineasta.
É um filme menos “alleniano” na forma, mas decisivo na formação
de sua visão crítica sobre controle artístico.
A comédia sexual dos anos 1960
Ambientado entre Paris e Roma, o filme acompanha um homem
incapaz de resistir a qualquer mulher que cruza seu caminho, enquanto tenta,
paradoxalmente, manter um relacionamento estável. O enredo funciona como
sucessão de equívocos, perseguições e encontros caóticos, explorando o sexo
como
impulso incontrolável e motor da confusão social.
O desejo aqui não é introspectivo — é externo, barulhento
e performático.
Farsa, excesso e descontrole
O tom do filme é deliberadamente exagerado. Personagens
entram e saem em ritmo de vaudeville, situações se acumulam sem consequência
emocional duradoura, e o humor aposta na repetição e no excesso.
Esse estilo reflete uma tradição europeia de comédia
popular, mas também revela o que Allen viria a rejeitar: a substituição
da observação psicológica pelo ruído cômico contínuo.
Woody Allen como corpo estranho
Allen aparece em cena como um personagem neurótico,
deslocado e autoconsciente — já reconhecível, mas ainda
engolido pelo caos
geral. Seu humor verbal contrasta com a encenação mais física e expansiva
dos demais personagens.
Esse contraste é revelador: Allen surge como comentador
interno da farsa, não como seu organizador. Ele observa o absurdo, mas
ainda não controla o filme.
O conflito autoral
O próprio Allen posteriormente se mostraria insatisfeito com
o resultado final, sentindo que seu roteiro foi diluído por intervenções
externas e pelo estrelismo excessivo. Essa frustração explica muito de sua
carreira posterior: a decisão de
escrever, dirigir e frequentemente atuar
em seus próprios filmes para manter coerência tonal.
Que é que Há, Gatinha? é, assim, um filme que ensina
Allen o que ele não quer fazer.
Masculinidade como piada coletiva
O filme antecipa um tema que Allen exploraria com mais rigor
depois: a
masculinidade como fonte de desordem, movida por desejo
compulsivo, vaidade e medo do compromisso. Aqui, porém, essa crítica é difusa,
dissolvida em piadas de situação.
O homem não sofre por desejar demais — ele apenas gera
confusão cômica.
Sexo sem introspecção
Diferente de
Annie Hall ou
Manhattan, o sexo
não é analisado psicologicamente nem tratado como problema existencial. Ele é
impulso, gag, motor narrativo. A ausência de reflexão é coerente com o gênero,
mas marca a distância em relação ao cinema maduro que Allen desenvolveria
depois.
Um retrato fiel de seu tempo
O filme é profundamente datado: reflete a liberação sexual
pré-1968, o charme europeu visto pelos olhos americanos e a crença de que o
desejo masculino era algo essencialmente inofensivo — desde que tratado com
humor.
Hoje, esse olhar soa ingênuo ou excessivo, mas é
historicamente revelador.
Um ponto de partida necessário
Apesar de suas limitações,
Que é que Há, Gatinha? é
essencial para compreender a trajetória de Woody Allen. Ele mostra o ponto
zero:
- o
humor ainda sem forma própria,
- a
ausência de controle autoral,
- o
conflito entre farsa e introspecção.
Tudo o que Allen viria a fazer depois nasce, em parte, da
insatisfação com este filme.
Síntese final
Que é que Há, Gatinha? é uma comédia caótica sobre
desejo, confusão e excesso — e um marco inaugural na carreira de Woody Allen.
Não é ainda o cinema que o tornaria um dos autores centrais do século XX, mas é
o filme que o levou a compreender algo decisivo:
para que a comédia pudesse pensar, ele precisaria assumir
o comando total da forma.
Assim, este filme permanece menos como
obra-prima e mais como lição fundadora — o ponto de partida de uma
filmografia que transformaria a farsa sexual em reflexão sobre