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terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

O Processo (1962) Le procès - 1 h 59 min

Mostra Orson Welles: Um Homem, Muitos Palcos

O MUNDO EM DISPUTA: Cinema Sociopolítico

Um modesto trabalhador de escritório é preso e julgado, mas nunca é informado de suas acusações.


O Processo (1962) - IMDb
Dir: Orson Welles
Drama Jurídico, Suspense Jurídico, Suspense Psicológico, Mistério


MP4 / HD / LEG: Português

IMDB: 7,6
FLICK METRIX: 78   Average Percentile: 70.32%
84%Tomatometer45 Reviews   87%Popcornmeter


Uma adaptação kafkiana filmada como pesadelo administrativo, onde a culpa existe antes do crime e o poder nunca se mostra por inteiro.


O Mundo como Acusação Permanente

O Processo lança o espectador em um universo onde a lógica cotidiana foi substituída por um sistema opaco e inescapável. Desde a primeira cena, a narrativa afirma que não há ponto de partida claro: a acusação já está em curso, e a vida passa a ser vivida sob suspeita constante. O mundo não explica — ele acusa.


Arquiteturas da Opressão

O filme constrói seu terror menos por ações violentas do que pelo espaço. Corredores intermináveis, escritórios superlotados, escadarias sem fim e salões vazios compõem uma geografia labiríntica que esmaga o indivíduo. A arquitetura torna-se instrumento de poder: desorienta, diminui e dissolve qualquer senso de autonomia.


A Culpa sem Origem

Aqui, a culpa não decorre de um ato, mas de uma condição. O protagonista não é julgado pelo que fez, mas pelo simples fato de existir dentro do sistema. O filme radicaliza a visão kafkiana ao sugerir que buscar explicações apenas aprofunda a condenação. Questionar é participar do mecanismo que oprime.


O Poder sem Rosto


Na encenação conduzida por Orson Welles, o poder nunca se concentra em uma figura única. Juízes, funcionários e autoridades surgem como extensões anônimas de uma engrenagem maior. Mesmo quando Welles aparece em cena, sua presença não personaliza o sistema — ela o torna ainda mais insondável.


A Morte como Procedimento

O desfecho não oferece choque nem catarse. A execução ocorre como formalidade, um ato burocrático realizado sem ódio e sem paixão. A violência máxima é tratada como rotina administrativa, confirmando que o verdadeiro horror do filme não é a punição, mas a naturalização absoluta da injustiça.


Recepção e Legado

Na época de seu lançamento, O Processo dividiu a crítica: alguns o consideraram excessivamente estilizado, outros reconheceram nele uma das mais ousadas traduções cinematográficas de Kafka. Com o tempo, o filme foi amplamente reavaliado e hoje ocupa posição central na obra de Orson Welles, sendo visto como síntese de suas obsessões com poder abstrato, culpa e labirintos morais. Sua influência atravessa o cinema moderno, antecipando representações visuais da burocracia opressiva e consolidando-se como uma das adaptações literárias mais radicais e perturbadoras já realizadas.

 


quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Que é que Há, Gatinha? (1965) What's New Pussycat - 1 h 48 min

Mostra Retrospectiva Woody Allen - Risos, Neurose e Nova York

Um playboy que se recusa a desistir de seu estilo de vida hedonista para se estabilizar e se casar com seu amor verdadeiro procura a ajuda de um psicanalista maluco que está tendo seus próprios problemas românticos.


Que é que Há, Gatinha? (1965) - IMDb
Dir: Clive Donner
Farsa, Pastelão, Comédia


MP4 / HD- / LEG: Português

IMDB: 6,0
28%Tomatometer18 Reviews   55%Popcornmeter


Que é que Há, Gatinha? ocupa um lugar fundador, embora conflituoso, na trajetória de Woody Allen. Escrito por Allen (seu primeiro roteiro para o cinema) e dirigido por Clive Donner, o filme é uma comédia sexual farsesca típica dos anos 1960, marcada por exagero, ritmo frenético e humor físico — e também por tensões autorais que ajudariam a moldar o futuro cineasta.

É um filme menos “alleniano” na forma, mas decisivo na formação de sua visão crítica sobre controle artístico.


A comédia sexual dos anos 1960

Ambientado entre Paris e Roma, o filme acompanha um homem incapaz de resistir a qualquer mulher que cruza seu caminho, enquanto tenta, paradoxalmente, manter um relacionamento estável. O enredo funciona como sucessão de equívocos, perseguições e encontros caóticos, explorando o sexo como impulso incontrolável e motor da confusão social.

O desejo aqui não é introspectivo — é externo, barulhento e performático.


Farsa, excesso e descontrole

O tom do filme é deliberadamente exagerado. Personagens entram e saem em ritmo de vaudeville, situações se acumulam sem consequência emocional duradoura, e o humor aposta na repetição e no excesso.

Esse estilo reflete uma tradição europeia de comédia popular, mas também revela o que Allen viria a rejeitar: a substituição da observação psicológica pelo ruído cômico contínuo.


Woody Allen como corpo estranho

Allen aparece em cena como um personagem neurótico, deslocado e autoconsciente — já reconhecível, mas ainda engolido pelo caos geral. Seu humor verbal contrasta com a encenação mais física e expansiva dos demais personagens.

Esse contraste é revelador: Allen surge como comentador interno da farsa, não como seu organizador. Ele observa o absurdo, mas ainda não controla o filme.


O conflito autoral


O próprio Allen posteriormente se mostraria insatisfeito com o resultado final, sentindo que seu roteiro foi diluído por intervenções externas e pelo estrelismo excessivo. Essa frustração explica muito de sua carreira posterior: a decisão de escrever, dirigir e frequentemente atuar em seus próprios filmes para manter coerência tonal.

Que é que Há, Gatinha? é, assim, um filme que ensina Allen o que ele não quer fazer.


Masculinidade como piada coletiva

O filme antecipa um tema que Allen exploraria com mais rigor depois: a masculinidade como fonte de desordem, movida por desejo compulsivo, vaidade e medo do compromisso. Aqui, porém, essa crítica é difusa, dissolvida em piadas de situação.

O homem não sofre por desejar demais — ele apenas gera confusão cômica.


Sexo sem introspecção

Diferente de Annie Hall ou Manhattan, o sexo não é analisado psicologicamente nem tratado como problema existencial. Ele é impulso, gag, motor narrativo. A ausência de reflexão é coerente com o gênero, mas marca a distância em relação ao cinema maduro que Allen desenvolveria depois.


Um retrato fiel de seu tempo

O filme é profundamente datado: reflete a liberação sexual pré-1968, o charme europeu visto pelos olhos americanos e a crença de que o desejo masculino era algo essencialmente inofensivo — desde que tratado com humor.

Hoje, esse olhar soa ingênuo ou excessivo, mas é historicamente revelador.


Um ponto de partida necessário

Apesar de suas limitações, Que é que Há, Gatinha? é essencial para compreender a trajetória de Woody Allen. Ele mostra o ponto zero:

  • o humor ainda sem forma própria,
  • a ausência de controle autoral,
  • o conflito entre farsa e introspecção.

Tudo o que Allen viria a fazer depois nasce, em parte, da insatisfação com este filme.


Síntese final

Que é que Há, Gatinha? é uma comédia caótica sobre desejo, confusão e excesso — e um marco inaugural na carreira de Woody Allen. Não é ainda o cinema que o tornaria um dos autores centrais do século XX, mas é o filme que o levou a compreender algo decisivo:

para que a comédia pudesse pensar, ele precisaria assumir o comando total da forma.

Assim, este filme permanece menos como obra-prima e mais como lição fundadora — o ponto de partida de uma filmografia que transformaria a farsa sexual em reflexão sobre