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terça-feira, 17 de março de 2026

Rocketman: A Ascensão Meteórica de Uma Estrela (2019) - 2 h 1 min

MOSTRA ENTRE ACORDES E ABISMOS - O cinema diante do mito do artista musical

Um musical épico de fantasia sobre a incrível história de Elton John ao longo dos anos. O filme acompanha a transformação fantástica do tímido prodígio do piano, Reginald Dwight, em superestrela internacional, Elton John. Esta história inspiradora – da qual fazem parte algumas das músicas mais adoradas de Elton John – conta a história universal de como um rapaz de uma pequena cidade se tornou numa das figuras mais icónicas da cultura pop.


Docudrama, Drama do Mundo do Espetáculo, Biografia, Música, Músical Pop


MP4 / HD / LEG: Português

IMDB: 7,3   METASCORE: 6,9
FLICK METRIX: 75   Criticker: Average Percentile: 50.45%
89%Tomatometer401 Reviews   88%Popcornmeter

Um espetáculo onde fantasia e realidade se encontram na construção de uma identidade.


A ascensão de um artista singular

O filme acompanha a trajetória de Elton John, desde sua infância como prodígio do piano até se tornar uma das maiores estrelas da música pop mundial. Ao longo desse percurso, o jovem Reginald Dwight transforma-se em Elton John, criando uma persona artística marcada pelo brilho e pela originalidade.


Entre o palco e a intimidade

Dirigido por Dexter Fletcher, o filme estrutura-se como um relato retrospectivo, no qual o artista revisita sua própria história. Questões como identidade, solidão, relações afetivas e dependência química são exploradas como parte de um processo de autoconhecimento.


A música como fantasia emocional

Diferente da biografia convencional, Rocketman adota uma linguagem musical e imaginativa, na qual as canções surgem como extensões dos estados emocionais do protagonista. A narrativa mistura realidade e fantasia, transformando a vida do artista em um espetáculo sensorial.


Recepção e Legado

A atuação de Taron Egerton foi amplamente elogiada, rendendo-lhe o Globo de Ouro de Melhor Ator em Comédia ou Musical. O filme também venceu o Oscar de Melhor Canção Original com (I'm Gonna) Love Me Again. Rocketman foi reconhecido por sua abordagem ousada e por renovar o formato das cinebiografias musicais.


Leitura Crítica

Rocketman rompe com a linearidade tradicional das biografias ao transformar a memória em espetáculo. Ao fundir fantasia e realidade, o filme sugere que a identidade artística de Elton John não pode ser separada de sua imaginação — revelando um artista cuja verdade se expressa tanto na música quanto na forma como escolhe narrar sua própria vida.

 



terça-feira, 2 de dezembro de 2025

O Irlandês (2019) The Irishman - 3 h 29 min

 Um assassino lembra que talvez esteve envolvido na morte de Jimmy Hoffa.


O Irlandês (2019) - IMDb
Dir: Martin Scorsese
Crime Verdadeiro, Docudrama, Drama de Época, Gângster, Biografia, História, Suspense


MP4 / HD- / LEG: Português

IMDB: 7,8   METASCORE: 9,4
95%Tomatometer468 Reviews   86%Popcornmeter


O Irlandês (2019)

Um épico crepuscular sobre lealdade, arrependimento e o preço espiritual de uma vida dedicada ao crime.


1. Contexto Histórico e Produção


Baseado no livro I Heard You Paint Houses, de Charles Brandt, o filme narra a suposta vida criminal de Frank Sheeran, um veterano de guerra que se tornou matador da máfia e motorista do líder sindical Jimmy Hoffa.

Depois de décadas criando mitologias em torno da máfia (Caminhos Perigosos, Os Bons Companheiros, Cassino), Scorsese retorna ao tema para descontruir tudo:
não há glamour, apenas desgaste, culpa e a passagem impiedosa do tempo.

É também um filme marcante por:

  • reunir De Niro, Pacino e Pesci sob sua direção;
  • utilizar tecnologia de rejuvenescimento digital;
  • ser uma produção ambiciosa financiada pela Netflix;
  • simbolizar a maturidade emocional de Scorsese frente ao crime organizado.

2. Enredo

Frank Sheeran (Robert De Niro)

Um caminhoneiro irlandês que, por acaso e conveniência moral, entra no mundo do crime.
O título do filme (“pintar casas”) é um eufemismo para matar pessoas — o “sangue na parede”.



Frank é um homem:

  • obediente,
  • pragmático,
  • emocionalmente opaco,
  • inteiramente moldado pela violência.

Russell Bufalino (Joe Pesci)

Chefão da máfia que toma Frank como protegido.
Pesci entrega uma atuação contida e arrepiante — poder calmo, silêncio fatal.





Jimmy Hoffa (Al Pacino)

Carismático, impulsivo, orgulhoso.
Um dos homens mais poderosos da América, cuja queda se torna o eixo moral do filme.




A relação triangular entre Frank, Bufalino e Hoffa é:

  • paternal,
  • política,
  • psicológica,
  • e fatal.

A narrativa acompanha décadas de amizade, lealdade e traições dentro da criminalidade sindical.


3. Temas Centrais

3.1 O fim da mitologia da máfia

Este não é um filme sobre glamour, ascensão, ou charme criminoso.

É um filme sobre:

  • corpos que se deterioram,
  • amizades que apodrecem,
  • homens que envelhecem sozinhos,
  • pecados que não trazem recompensa.

Scorsese revisita o universo mafioso para encerrar seu ciclo.
Não há brilho — apenas a poeira do tempo.




3.2 O custo moral da obediência

Frank é o homem que “apenas segue ordens”.
Mas a vida inteira dele é construída sobre essas ordens — e destruída da mesma forma.

Incapaz de questionar, ele:

  • mata amigos,
  • abandona a família,
  • destrói sua própria humanidade.

3.3 A solidão como punição final

Em vez de morte violenta, Frank recebe a pior punição possível:

viver muito tempo para ver tudo desmoronar.

Ele termina:

  • velho,
  • esquecido,
  • incapaz de confessar plenamente,
  • incapaz de se redimir,
  • e sem ninguém na vida.

A filha Peggy, que representa consciência moral, simplesmente o abandona.


3.4 Tempo, memória e arrependimento

O filme é estruturado como um grande flashback de um homem tentando lembrar — mas sem saber como lidar com o que lembra.

Scorsese filma os assassinatos de forma fria, rápida, sem peso —
e deixa todo o peso para o afeto, não para o sangue.

3.5 Política, crime e a América do pós-guerra

O Irlandês conclui que:

  • máfia
  • sindicatos
  • política
  • polícia
  • e governo

estão entrelaçados numa teia cinzenta de poder e violência, onde ninguém é inocente.


4. Estética, Linguagem e Tom

4.1 Minimalismo Ético

Diferente do ritmo frenético de Os Bons Companheiros, aqui tudo é lento, pesado, arrastado como lembranças de um velho.

4.2 Fotografia Crepuscular (Rodrigo Prieto)

Cores dessaturadas, verdes mortos, marrons e cinzas.
É um filme que parece já envelhecido.





4.3 De-aging como ferramenta narrativa

Não é tecnologia para impressionar — é para mostrar que o passado não é confiável, que a memória é uma superfície borrada.

4.4 Narrativa fragmentada

O tempo se dobra:

  • a viagem para o casamento,
  • os flashbacks,
  • a narração,
  • o asilo,
  • o caso Hoffa.

Tudo cria um mosaico de memórias trincadas.

4.5 Violência objetiva

Assassinatos filmados com frieza total: um tiro, um corpo, e pronto.
Sem glamour, sem espetáculo.

Scorsese mostra que, quando a violência é real, ela é rápida e banal, não cinematográfica.


5. Atuação dos Três Titãs

Robert De Niro — Frank Sheeran

Uma das atuações mais silenciosas e autocontidas de sua carreira.

Al Pacino — Jimmy Hoffa

Explosivo, carismático, tragicômico — mas profundamente humano.

Joe Pesci — Russell Bufalino

Sua melhor atuação desde Cassino.
A suavidade assassina de Pesci é devastadora.


6. O Final — um dos mais devastadores da carreira de Scorsese

Frank termina:

  • abandonado,
  • falando sozinho,
  • tentando rezar sem saber rezar,
  • incapaz de se arrepender plenamente,
  • e pedindo ao padre para deixar a porta do quarto entreaberta.

Esse detalhe — a porta — é simbólico:

Ele ainda espera que alguém entre.
Mas ninguém virá.

É o oposto do final de Os Bons Companheiros,
onde Henry Hill vive mas se sente entediado.

Aqui, Frank vive — mas está espiritualmente morto.


7. Importância na Carreira de Scorsese

  • encerra sua tetralogia da máfia (Caminhos Perigosos → Bons Companheiros → Cassino → O Irlandês)
  • marca sua obra mais madura e espiritual sobre o crime
  • questiona o próprio cinema de gangster que o consagrou
  • sintetiza seu domínio absoluto da linguagem cinematográfica

É o filme de um diretor olhando para trás — não para celebrar, mas para fazer balanço.


Conclusão

O Irlandês é um épico íntimo.
Um filme sobre tempo, velhice, culpa e o preço de viver sem confrontar a própria consciência.

Scorsese desmonta a fantasia do gangster e revela o que sobra quando a lealdade vira prisão e a violência vira rotina:

um homem sozinho, olhando para uma porta entreaberta, esperando por algo que nunca virá.

É um dos filmes mais profundos, sombrios e humanos de sua carreira — um testamento artístico.

 



CURIOSIDADES RELEVANTES SOBRE O IRLANDÊS (2019) — THE IRISHMAN


1. Um sonho de 12 anos para se tornar realidade

Scorsese e De Niro queriam adaptar o livro I Heard You Paint Houses desde 2007.
O maior obstáculo era:

  • orçamento altíssimo,
  • tecnologia insuficiente para o rejuvenescimento,
  • Hollywood receosa com um épico de 3h30.

A produção só aconteceu quando a Netflix aceitou financiar o projeto.


2. A volta triunfal de Pesci — após aposentadoria

Joe Pesci estava aposentado há quase 20 anos.
Ele recusou o filme entre 40 e 50 vezes até aceitar.

Scorsese contou que Pesci dizia:

“Marty, eu não sou mais esse cara.”

Quando finalmente topou, entregou uma das atuações mais contidas e devastadoras da carreira.


3. Pacino nunca havia trabalhado com Scorsese

Embora ambos fossem lendas do cinema desde os anos 70,
Pacino e Scorsese nunca haviam colaborado antes de O Irlandês.

O filme marca:

  • o primeiro trabalho juntos,
  • e o retorno de Pacino a um papel grandioso após anos de ausência no cinema de prestígio.

4. O rejuvenescimento digital custou uma fortuna

O filme utilizou a tecnologia de "de-aging" mais sofisticada já aplicada em um longa.

Curiosidades técnicas:

  • não foram usados pontos no rosto dos atores
  • foram usadas três câmeras simultâneas para cada tomada (incluindo infravermelha)
  • o software foi criado especialmente para o filme
  • aproximadamente 200 artistas de efeitos visuais trabalharam por anos

O tratamento digital consumiu boa parte dos US$ 160 milhões do orçamento.


5. Não há NENHUMA trilha musical original

Ao contrário de muitos filmes de Scorsese, O Irlandês:

  • não tem trilha original composta,
  • usa apenas músicas pré-existentes,
  • todas selecionadas para evocar épocas específicas.

A ausência de música original reforça o tom documental e melancólico.


6. O filme desconstrói a própria mitologia criada por Scorsese

O Irlandês é “o anti–Bons Companheiros”:

  • sem glamour,
  • sem ritmo frenético,
  • sem humor explosivo,
  • sem ascensão sedutora.

É Scorsese revisitando seu próprio legado para desmontar os mitos que ajudou a criar.


7. O tempo é o verdadeiro vilão

A estrutura do filme foi pensada como:

  • um rio de tempo,
  • fluindo e apagando memórias.

Todos os saltos temporais são intencionais:
mostram que a violência não leva à glória, mas ao esquecimento.


8. A viagem para o casamento é o “esqueleto” narrativo

Scorsese usa a viagem de carro rumo ao casamento (evento histórico real) como:

  • estrutura principal,
  • ponto de retorno da narrativa,
  • símbolo da inevitabilidade do destino.

É uma estrada sem saída — como a própria vida de Frank.


9. A verdadeira Peggy Sheeran está viva — e discordou do filme

A filha real de Frank Sheeran, Peggy, disse publicamente que:

  • não acredita que o pai tenha matado Hoffa,
  • considerou a narrativa de Brandt duvidosa,
  • não colaborou com o filme.

Scorsese manteve a versão do livro por seu valor dramático, não histórico.


10. A cena final da porta entreaberta tem origem pessoal

A porta deixada entreaberta por Frank foi ideia de Scorsese inspirada em:

  • memórias de infância,
  • portas entreabertas em casas de parentes idosos,
  • a sensação de abandono espiritual.

É símbolo de:

  • esperança,
  • culpa,
  • medo,
  • e da morte se aproximando.

11. O único filme de Scorsese com duração acima de 3h30

É o filme mais longo de toda a carreira dele.

Scorsese brincou que:

“É o tempo das memórias.
Não dava para cortar.”


12. O filme foi pensado como testamento — e Scorsese reconhece isso

Ele afirmou em entrevistas:

  • “é um filme sobre o fim”,
  • “sobre olhar para trás com dor”,
  • “sobre aceitar que nada do que fizemos nos salva”.

É sua obra mais madura, mais triste e mais espiritual desde Silêncio.


13. A câmera nunca romantiza a violência

Cada assassinato é:

  • rápido,
  • seco,
  • inestético,
  • sem trilha sonora,
  • quase documental.

Scorsese disse que queria mostrar:

“a violência como fato, não como espetáculo.”


14. O elenco todo foi escolhido por memória afetiva

Scorsese queria revisitar:

  • De Niro,
  • Pesci,
  • Keitel,

— como uma espécie de reencontro final de sua família cinematográfica.

É a última grande reunião da linhagem histórica do “cinema de gângster”.


15. A frase “Eu ouvi dizer que você pinta casas” é literal

Na gíria da máfia, significa:

  • "você mata pessoas",
  • "pinta a parede com sangue".

O título do filme, portanto, é um eufemismo brutal.


Conclusão — Por que essas curiosidades importam?

Porque O Irlandês não é apenas um filme:

  • é um testamento artístico,
  • um ato de encerramento,
  • uma meditação sobre culpa e tempo,
  • e uma reunião final de gigantes.

Cada curiosidade revela camadas adicionais de significado que reforçam o que o filme realmente é:

um crepúsculo — o último grande olhar para o passado do crime e do próprio cinema de Scorsese.

 


segunda-feira, 27 de outubro de 2025

Snatch: Porcos e Diamantes (2000) Snatch - 1 h 44 min

Mostra Filmes Live Action do IMDB Top 250 - BLOCO 3 (#101 a #150)

DO OUTRO LADO DA LEI: filmes que fazem você torcer pelo ladrão

"Snatch" é um filme que entrelaça várias histórias em um cenário criminal de Londres. A trama gira em torno de um diamante roubado e um torneio de boxe, onde diversos personagens, como gângsteres, boxeadores e ladrões, se cruzam em uma série de eventos caóticos e engraçados.


Dir: Guy Ritchie
Comédia de Humor Negro, Filme de Assalto, Gângster


MP4 / HD / LEG: Português

IMDB: 8,2   METASCORE: 5,5
Letterboxd: 8,0   Flick Metrix: 73
74%Tomatometer141 Reviews   93%Popcornmeter

Um diamante, doze personagens, zero planos que funcionam. Guy Ritchie e o caos como método.


Ritchie e a gramática do caos controlado

Snatch chegou em 2000, três anos depois de Lock, Stock and Two Smoking Barrels, e Ritchie aperfeiçoou em seu segundo longa a linguagem que havia desenvolvido no primeiro: cortes rápidos, câmera lenta estratégica, narração que introduz personagens com humor antes de jogá-los na situação que vai destruí-los. O que distingue Snatch de Lock, Stock é a escala: mais personagens, mais linhas narrativas, mais oportunidades para o caos se multiplicar antes de convergir. Ritchie gerencia essa multiplicidade com uma precisão que só parece improvisada porque o estilo imita a sensação de improviso.



Brad Pitt e o personagem que não deveria funcionar

Mickey O'Neil, o lutador cigano interpretado por Brad Pitt num sotaque que nenhum espectador anglófono consegue entender completamente, deveria ser um problema de roteiro. Pitt transforma o personagem no coração do filme. Mickey funciona porque é literalmente imprevisível: num filme onde todos os outros personagens têm planos que falham de formas calculáveis, Mickey falha de formas que ninguém poderia antecipar. Pitt encontrou no personagem uma liberdade física que raramente usa, e o resultado é uma performance que começa como comédia e termina como algo próximo do mítico.

A estrutura de relógio

Snatch é um mecanismo de relógio disfarçado de caos. Ritchie e o roteiro estabelecem no primeiro ato todos os elementos que vão colidir no terceiro, e o prazer do filme vem de acompanhar essas colisões com a consciência de que eram inevitáveis desde o início. O diamante não é apenas MacGuffin: é o elemento gravitacional que atrai todos os personagens para o mesmo ponto sem que nenhum deles perceba que estão sendo atraídos. Quando tudo converge, a resolução parece ao mesmo tempo surpreendente e completamente lógica, que é exatamente o que o melhor cinema de assalto produz.

Londres como universo fechado

Ritchie filma uma Londres criminal que existe em paralelo à cidade real, com seus próprios códigos, hierarquias e geografias. Essa Londres é uma construção cinematográfica com a mesma artificialidade deliberada que The Sting usava para reconstituir Chicago nos anos 30. A diferença é que Ritchie usa a artificialidade para produzir energia em vez de elegância, e essa escolha de registro é coerente com o tipo de história que está contando.

Onde assistir e o que esperar

Disponível em plataformas de streaming e na Filmoteca Seu Manolo. O filme tem 102 minutos e um ritmo que não concede pausas: a primeira revisita revela a estrutura por baixo do caos aparente, e o prazer de ver as peças se encaixando antecipadamente é tão rico quanto a surpresa original. O sotaque de Pitt é parte da experiência e não precisa de legendas separadas: não entender completamente o que Mickey diz é exatamente o que o filme quer.

O caos como argumento

Snatch demonstra que o heist não precisa de um plano funcionando para ser satisfatório: pode funcionar como comédia de erros onde a resolução emerge do caos em vez de apesar dele. Num ciclo de filmes que inclui a precisão ritual de Le Cercle Rouge e a engenharia de Rififi, Ritchie oferece a versão anárquica do mesmo prazer: acompanhar pessoas tentando controlar algo que não pode ser controlado e descobrindo que o resultado é o mesmo de qualquer jeito.





terça-feira, 7 de outubro de 2025

O Chef (2021) Boiling Point - 1 h 32 min

Mostra da Filmoteca Seu Manolo:

ATÉ ONDE VOCÊ VAI? O Trabalho como Território de Poder, Ambição e Conflito


Dir: Philip Barantini
Drama no Trabalho, Suspense

MP4 / SD+ / LEG: Português

IMDB: 7,5   METASCORE: 7,3
Letterboxd: 8,0   Flick Metrix: 78
99%Tomatometer80 Reviews


Um serviço de jantar. Uma noite. Um chef que vai perdendo o controle em tempo real. A câmera não corta.

O plano sequência como argumento

Boiling Point foi filmado em plano sequência único de 92 minutos, o que significa que Philip Barantini e sua equipe ensaiaram durante semanas, montaram a produção num restaurante real em Dalston, Londres, e filmaram do começo ao fim sem um único corte. A informação técnica é impressionante mas o que importa é o que ela produz: a experiência de assistir ao filme é a experiência de estar dentro de uma cozinha de restaurante numa noite caótica sem possibilidade de saída, sem pausa, sem o alívio que o corte cinematográfico normalmente oferece ao permitir que o espectador respire entre uma cena e a próxima.

Barantini escolheu o plano sequência porque entendeu que o que estava filmando, a ansiedade de desempenho num ambiente profissional de alta pressão, não podia ser adequadamente representado por uma linguagem que oferece ao espectador mais controle do que o personagem tem. Andy Jones não tem cortes. Não há pausa entre um problema e o próximo. A câmera que não corta é a câmera que diz a verdade sobre como é estar dentro desse sistema.

Andy Jones e o colapso gerenciado

Stephen Graham como Andy Jones é uma das performances mais fisicamente exigentes do cinema britânico recente e uma das mais precisas sobre o que a ansiedade de desempenho faz com um corpo em tempo real. Andy não está bem desde antes da câmera começar: há uma tensão no corpo, uma dilatação nos olhos, uma qualidade de controle que está custando mais energia do que deveria custar, que o espectador reconhece antes que qualquer diálogo explique o que está acontecendo.

O que o filme revela gradualmente é que Andy está carregando simultaneamente as pressões financeiras do restaurante, a volta de um sócio que havia saído, as demandas de uma crítica gastronômica que apareceu sem aviso, as dinâmicas de uma equipe em que pelo menos dois membros estão em crise pessoal, e um histórico de dependência química que a noite vai progressivamente reativando. Nenhuma dessas pressões sozinha seria insustentável. A combinação de todas elas numa única noite sem pausa é o que o filme examina: o ponto em que o sistema de contenção que um profissional constrói ao longo de anos de prática simplesmente não consegue mais segurar tudo que está sendo depositado nele.

A cozinha como microcosmo

O restaurante de Boiling Point é um microcosmo da hierarquia profissional em estado de pressão máxima: há um chef executivo que define o tom, um sous chef que carrega o que o chef executivo não consegue mais carregar, cozinheiros de linha que executam sem questionar porque questionar custa tempo que não existe, garçons que navegam entre as exigências da cozinha e as exigências da sala, e a sala toda com suas próprias dinâmicas de poder entre clientes que esperam, clientes que reclamam e clientes que chegam sem reserva e acham que a posição social resolve o que a falta de reserva criou.

Barantini filma esse sistema com a câmera de Matthew Lewis que se move pela cozinha e pela sala com a fluidez de um insider que conhece cada esquina e a urgência de alguém que sabe que o tempo está acabando. A câmera nunca é decorativa: sempre está onde a tensão está, sempre chega ao rosto certo no momento em que o rosto revela o que o personagem está tentando não revelar.

Vinette Robinson e o que a câmera encontra

Carly, a sous chef interpretada por Vinette Robinson, é o personagem que o filme usa para examinar o que acontece quando o sistema de contenção de uma pessoa funciona tão bem que as outras pessoas ao redor deixam de perceber que é contenção. Carly está segurando a cozinha enquanto Andy vai cedendo, está tomando decisões que Andy deveria tomar, está protegendo a equipe de uma informação sobre Andy que ela sabe e que mudaria o funcionamento de tudo se fosse revelada.

A cena em que Andy finalmente tem o momento de ruptura que estava evitando durante o filme inteiro é a mais emocionalmente precisa de Boiling Point porque Robinson a filma sem exagero: não é uma explosão mas um colapso de contenção, o momento em que o sistema que uma pessoa construiu para funcionar dentro de um ambiente de alta pressão simplesmente atinge o limite e para. Graham e Robinson juntos constroem a relação de dois profissionais que se respeitam profundamente e que estão ambos carregando mais do que deveriam precisar carregar.

O ponto de ebulição

O final de Boiling Point não é o final que o thriller convencional produziria porque Barantini não está interessado no espetáculo do colapso mas no que o colapso revela sobre o sistema que o produziu. O que acontece com Andy na última cena do filme é o resultado lógico de uma noite que foi o resultado lógico de semanas que foram o resultado lógico de um ambiente profissional que exige de quem está no topo uma capacidade de absorção de pressão que nenhum ser humano tem indefinidamente.

O sistema do restaurante vai continuar na noite seguinte. Carly vai provavelmente assumir. A crítica gastronômica vai ou não vai publicar o que estava planejando publicar. A vida do restaurante vai continuar porque os sistemas continuam mesmo quando as pessoas que os sustentavam não conseguem mais. Essa é a observação mais honesta de Boiling Point sobre o ambiente profissional de alta pressão: é um sistema que encontra uma forma de continuar independentemente do custo humano que produz.

Onde assistir: Boiling Point está disponível na Filmoteca Seu Manolo e no streaming brasileiro: O Chef  - Veja onde assistir online. O filme tem 92 minutos filmados em plano sequência único. Espectadores com sensibilidade a ambientes claustrofóbicos e situações de pressão intensa devem saber que a experiência replica fisicamente, na medida em que o cinema pode replicar, o que está sendo filmado.


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