Filme incluso na mostra da Filmoteca Seu Manolo:
Trevor Reznik não dorme há um ano. O corpo dele perdeu trinta quilos. A culpa que ele não consegue lembrar pesa exatamente isso.
O corpo como confissão
Christian Bale perdeu cerca de vinte e oito quilos para interpretar Trevor Reznik, e essa transformação física é o argumento central do filme. Trevor trabalha numa fábrica de usinagem, mora num apartamento quase vazio, e não dorme há mais de um ano. O corpo dele é o registro visível de algo que a mente se recusa a processar e Brad Anderson filma esse corpo com uma frieza clínica que recusa tanto o fascínio mórbido quanto a explicação fácil.O filme pertence à tradição do thriller psicológico que usa a deterioração física como sintoma de culpa reprimida, mas O Operário evita o caminho mais óbvio dessa tradição. Não há revelação tardia que explique tudo de uma vez. O que há é um acúmulo de pistas que o próprio Trevor ignora, porque ignorá-las é a única forma que ele encontrou de continuar funcionando.
Uma fábrica sem nome, uma vida sem cor
A direção de fotografia de Xavi Giménez constrói o mundo de Trevor numa paleta quase monocromática, azulada e exausta, que comunica o estado mental do personagem sem precisar de diálogo. A fábrica onde trabalha é um espaço de repetição e perigo constante, e o acidente que abre a engrenagem da trama, quando Trevor distrai um colega numa máquina e causa a perda do braço dele, é filmado com uma banalidade que o torna mais perturbador. Não há música dramática, não há close emocional. Há apenas o som da máquina e a consequência irreversível.Esse acidente é o ponto a partir do qual a realidade de Trevor começa a se desfazer de forma visível para o espectador, embora já estivesse se desfazendo antes. Ivan, o colega misterioso que Trevor encontra repetidamente e que ninguém mais parece ver, é a figura que melhor representa essa fronteira cada vez mais porosa entre o que está acontecendo e o que Trevor está construindo para não encarar o que aconteceu.
Jennifer Jason Leigh e o único afeto possível
Stevie, a prostituta interpretada por Jennifer Jason Leigh, é a única pessoa que trata Trevor com algo parecido com cuidado genuíno, e mesmo essa relação é filmada com uma distância que impede qualquer conforto fácil. Trevor não consegue receber esse cuidado porque receber exigiria estar presente, e Trevor não está presente em lugar nenhum, nem na própria vida.A garçonete Marie, interpretada por Aitana Sánchez-Gijón, é o outro ponto de contato humano de Trevor, e a relação entre os dois carrega uma ternura que o filme usa de forma precisa: é o que Trevor poderia ter, se conseguisse se permitir lembrar o que fez para não merecer ter nada.
O que o filme revela e quando revela
A estrutura de O Operário depende de uma revelação que reorganiza tudo o que veio antes, e a eficácia dessa estrutura está em como Anderson distribui as pistas. Cada elemento estranho, o bilhete preso na geladeira, o jogo da forca que Trevor não consegue resolver, Ivan que aparece e desaparece, tem uma explicação que o filme esconde porque Trevor genuinamente não consegue acessá-la.Quando a revelação chega, o filme não a trata como reviravolta espetacular. Trata como algo que já estava ali, visível, e que o espectador também preferiu não ver completamente até que não houvesse outra opção. É um tipo de manipulação narrativa que respeita o espectador, porque não depende de informação escondida de forma desonesta, depende de informação que o espectador, como Trevor, escolheu não processar.
Bale antes de Batman
O Operário foi filmado pouco antes de Christian Bale assumir o papel de Bruce Wayne em Batman Begins, e a transformação física entre os dois projetos, da magreza extrema de Trevor para o físico construído para o Batman, tornou-se parte da mitologia sobre a dedicação do ator. Mas reduzir o filme a essa curiosidade é perder o que a performance realmente faz: Bale constrói Trevor com uma quietude que nunca pede compaixão, e a culpa que o personagem carrega é tratada com uma seriedade que nenhum truque físico, por mais impressionante que seja, conseguiria sustentar por si só.Por que o filme fica
O Operário não teve grande presença nas salas de cinema, mas se tornou um dos thrillers psicológicos mais respeitados dos anos 2000 justamente pela forma como trata a culpa: não como reviravolta, mas como um peso físico, visível, que o corpo carrega quando a mente se recusa a admitir o que aconteceu. É um filme sobre o que significa punir-se sem saber por quê, e sobre o alívio terrível de finalmente saber.