Mostrando postagens com marcador Luis Buñuel. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Luis Buñuel. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Esse Obscuro Objeto do Desejo (1977) Cet obscur objet du désir - 1 h 43 min

Mostra O Discreto Escândalo da Realidade — O Cinema de Luis Buñuel

Após entrar em um trem, homem joga um balde d'água em uma bela moça que estava parada na plataforma. Surpresos, os outros passageiros desejam saber o que o levou a agir de tal maneira. É quando ele, Mathieu, começa a relatar a todos, desde o início, sua obsessão por Conchita (personagem interpretada por duas mulheres diferentes), uma virgem de 18 anos que começara a manipular seu desejo carnal em um verdadeiro jogo de gato e rato.


Esse Obscuro Objeto do Desejo (1977) - IMDb
Direção e Roteiro: Luis Buñuel
Sátira, Comédia, Drama, Romance


MP4 / SD / LEG: Português

IMDB: 7,8   METASCORE: 8,4
97%Tomatometer34 Reviews   90%Popcornmeter


O Desejo como Movimento Incompleto

Em Esse Obscuro Objeto do Desejo, Buñuel retorna ao tema que atravessa toda a sua obra: o desejo como força incessante e irrealizável por natureza. O filme acompanha a obsessão de um homem maduro por uma jovem mulher que se aproxima e se afasta continuamente. Não se trata de conquistar ou perder — trata-se de perseguir aquilo que nunca se oferece por inteiro.


Duas Mulheres, Um Único Objeto

A decisão radical de representar a mesma personagem feminina com duas atrizes diferentes não é truque formal, mas tese central. O objeto do desejo nunca é estável, nunca é o mesmo. Buñuel materializa a ideia de que o desejo masculino não deseja uma pessoa concreta, mas uma projeção mutável, que se recompõe a cada frustração.


O Masculino Ridicularizado

O protagonista encarna o sujeito moderno que se crê racional, experiente e autocontrolado, mas que se revela infantil diante do desejo. Sua narrativa tenta organizar os fatos, justificar sua obsessão, impor sentido ao caos emocional. Buñuel filma esse esforço como patético: quanto mais ele explica, menos compreende.


Erotismo como Negociação de Poder

A relação entre os dois personagens não se baseia em entrega, mas em controle recíproco. Aproximação e recusa tornam-se instrumentos de dominação. Buñuel desmonta a ideia do erotismo como comunhão e o apresenta como campo de forças, onde o prazer depende da manutenção da distância.


Violência Política como Ruído Contínuo

Explosões, atentados e ameaças terroristas atravessam o filme como pano de fundo quase banal. Buñuel aproxima o desejo privado da violência pública, sugerindo que ambos compartilham a mesma lógica: impulsos irracionais organizados por discursos que tentam normalizá-los.


O Amor como Impossibilidade Estrutural


Não há redenção romântica nem aprendizado moral. Cada tentativa de aproximação termina em repetição. Buñuel sugere que o amor, quando reduzido à posse, está condenado à frustração eterna. O obscuro objeto do desejo não é a mulher — é o próprio desejo.


Último Filme, Última Tese

Como obra final de Luis Buñuel, o filme funciona como síntese amarga e lúcida. O surrealismo aqui é seco, quase invisível, incorporado à lógica do cotidiano. Não há escândalo explícito — há exaustão.


Síntese

Esse Obscuro Objeto do Desejo encerra a filmografia de Buñuel com precisão implacável. Ao fragmentar o objeto amado e expor o ridículo da obsessão masculina, Buñuel afirma que o desejo não quer se satisfazer — quer continuar desejando. Aqui, o escândalo não é o erotismo, mas a constatação final de que o amor, enquanto promessa de completude, é uma ficção persistente.



O Fantasma da Liberdade (1974) Le fantôme de la liberté - 1 h 44 min

Mostra O Discreto Escândalo da Realidade — O Cinema de Luis Buñuel

Uma série de sequências surreais que criticam a moralidade e a sociedade em um estilo de consciência.


O Fantasma da Liberdade (1974) - IMDb
Direção e Roteiro: Luis Buñuel
Comédia de Humor Negro, Sátira


MP4 / SD+ / LEG: Português

IMDB: 7,7
85%Tomatometer26 Reviews   91%Popcornmeter


A Liberdade como Assombração

Em O Fantasma da Liberdade, Buñuel radicaliza sua crítica ao apresentar a liberdade não como conquista concreta, mas como presença espectral: algo constantemente invocado e imediatamente negado. O filme não busca uma tese única; prefere a dispersão, sugerindo que a liberdade existe apenas enquanto ideia — quando se tenta praticá-la, ela se desfaz.


Inversões que Desnudam a Norma


A estrutura do filme se organiza por inversões lógicas: o que é íntimo torna-se público, o que deveria escandalizar é normalizado, o que é socialmente aceito passa a soar absurdo. Buñuel não cria um mundo “ao contrário” por brincadeira; ele revela que as normas são convenções arbitrárias, sustentadas pela repetição.


Episódios sem Centro

Não há protagonista nem progressão narrativa tradicional. Personagens entram e saem sem aviso, histórias começam e se interrompem. Essa fragmentação não é capricho formal: é método. Buñuel afirma que a realidade social também é descontínua, feita de regras que não se comunicam entre si.


Autoridade Ridicularizada

Polícia, exército, família e justiça aparecem como instituições presas a protocolos vazios. A autoridade não oprime apenas pela força, mas pelo automatismo. Buñuel sugere que o poder mais eficaz é o que não precisa se explicar, apenas repetir seus gestos.


Desejo sem Linguagem

O erotismo atravessa o filme de forma deslocada, nunca celebratória. O desejo não encontra vocabulário legítimo e surge como mal-entendido, punição ou silêncio. Buñuel expõe a hipocrisia de uma sociedade que regula o corpo enquanto finge ignorá-lo.


Humor como Estratégia de Desorientação

O riso provocado pelo filme não conduz ao alívio, mas à perplexidade. Buñuel utiliza o humor para retirar o chão do espectador, impedindo qualquer acomodação moral. Rimos e, em seguida, percebemos que não sabemos exatamente do quê.


Liberdade Sem Saída

Ao contrário de filmes que buscam libertação simbólica, O Fantasma da Liberdade insiste na ausência de solução. Cada tentativa de ruptura é absorvida por outra convenção igualmente arbitrária. A liberdade não é reprimida — é administrada.


O Cinema como Último Espaço de Desordem

Buñuel transforma o próprio cinema em território de insubordinação. Ao negar coerência narrativa e conforto interpretativo, ele faz do filme um gesto político em si. A forma não ilustra a crítica — é a crítica.


Síntese

O Fantasma da Liberdade é um dos filmes mais livres e implacáveis de Luis Buñuel. Ao mostrar uma sociedade que aceita qualquer absurdo desde que ritualizado, Buñuel afirma que o verdadeiro fantasma não é a repressão explícita, mas a normalidade que se passa por liberdade. Aqui, o escândalo não choca — circula.



Tristana, Uma Paixão Mórbida (1970) Tristana - 1 h 39 min

Mostra O Discreto Escândalo da Realidade — O Cinema de Luis Buñuel

Pouco depois da morte de sua mãe, uma jovem inocente encontra refúgio na casa de seu aristocrático tutor de meia-idade, que a submete a seus avanços sexuais.


Tristana, Uma Paixão Mórbida (1970) - IMDb
Direção e Roteiro: Luis Buñuel
Drama


MP4 / HD / LEG: Português

IMDB: 7,4   METASCORE: 9,3
97%Tomatometer33 Reviews   83%Popcornmeter


A Tutela como Forma de Violência

Em Tristana, Buñuel parte de uma relação aparentemente protetora para revelar uma estrutura profunda de dominação. A jovem órfã é acolhida por um homem mais velho que se apresenta como tutor ilustrado e progressista, mas cuja generosidade esconde apropriação moral e sexual. A tutela não protege — substitui a liberdade por dependência.


Educação, Cultura e Poder

O discurso liberal do tutor — anticlerical, racionalista, moderno — funciona como máscara ideológica. Buñuel expõe como a cultura pode ser usada para legitimar o controle, transformando a opressão em gesto civilizado. A razão, aqui, não liberta: organiza o abuso.


Desejo Ferido e Corpo como Campo de Batalha

A doença e a mutilação de Tristana transformam o corpo em território político. O desejo não desaparece; reorganiza-se em ressentimento, frieza e cálculo. Buñuel filma a perda física não como punição divina, mas como acontecimento brutal que redefine as relações de poder.


O Retorno do Oprimido

Com o tempo, a posição de força se inverte. A dependência muda de lado, e o antigo tutor se torna prisioneiro de quem tentou dominar. Buñuel constrói essa inversão sem celebração: a vingança não é libertação, mas continuidade da violência por outros meios.


Sonho, Fantasia e Crueldade

As sequências oníricas — especialmente as imagens recorrentes da cabeça decepada do tutor — revelam o inconsciente como espaço onde o desejo encontra forma simbólica. O sonho não suaviza o trauma; o torna visível, condensando ódio, erotismo e morte.


Amor sem Redenção


O casamento que encerra a trajetória não é reconciliação, mas prisão reorganizada. Buñuel desmonta o ideal romântico ao mostrar que a união formal pode apenas estabilizar o ressentimento, não resolvê-lo. O afeto cede lugar à administração da crueldade cotidiana.


Moralidade Invertida

O filme desloca continuamente o eixo do julgamento. Não há personagem plenamente inocente, nem punição exemplar que restaure equilíbrio. Buñuel recusa a moral confortável e expõe um mundo onde a justiça não corrige — apenas redistribui o sofrimento.


Síntese

Tristana é um dos filmes mais cruéis e precisos de Luis Buñuel. Ao filmar a emancipação como processo contaminado pela violência original, Buñuel afirma que escapar da opressão não garante liberdade — pode apenas mudar o lugar de quem exerce o poder. Aqui, a paixão não salva; adoece.


Via Láctea (1969) La voie lactée - 1 h 42 min

Mostra O Discreto Escândalo da Realidade — O Cinema de Luis Buñuel

Pierre e Paul são dois peregrinos que estão a caminho de Santiago de Compostela. É uma viagem no espaço que se desdobra pelo tempo, e que lhes permite percorrer os grandes dogmas que pontuaram a história do catolicismo.


Via Láctea (1969) - IMDb
Direção e Roteiro: Luis Buñuel
Sátira, Comédia, Drama


MP4 / HD / LEG: Português

IMDB: 7,3



A Peregrinação como Dispositivo Filosófico

Em Via Láctea, Buñuel transforma uma peregrinação religiosa em experimento intelectual radical. Dois vagabundos caminham rumo a Santiago de Compostela, mas o percurso físico serve apenas como pretexto para uma travessia muito mais ampla: séculos de debates teológicos, heresias, dogmas e contradições do cristianismo. O caminho não conduz à fé — atravessa suas ruínas.


O Tempo como Matéria Fluida

O filme ignora qualquer linearidade histórica. Personagens do século XX cruzam com figuras medievais, inquisidores dialogam com hereges, papas coexistem com mendigos. Buñuel dissolve o tempo para afirmar que os conflitos religiosos não pertencem ao passado: eles se repetem, mudando apenas de linguagem e contexto.


Dogma como Absurdo Lógico

Cada episódio encena disputas doutrinárias com rigor quase didático — e justamente por isso grotesco. A precisão teológica revela o absurdo interno dos dogmas quando levados às últimas consequências. Buñuel não ridiculariza a fé por ignorância, mas por excesso de coerência: o problema não é a contradição, é a lógica aplicada ao infinito.


Heresia como Movimento do Pensamento


Os hereges do filme não são vilões, mas motores da narrativa. Questionar, duvidar, reinterpretar — tudo isso aparece como gesto vital, ainda que condenado historicamente. Buñuel sugere que o pensamento só avança por heresia, enquanto a ortodoxia trabalha para congelá-lo.


Violência Teológica

A fé, quando institucionalizada, surge associada à punição, ao controle e à morte. Torturas, execuções e perseguições não são exceções históricas, mas consequências previsíveis de sistemas que afirmam possuir a verdade absoluta. Buñuel revela que a violência religiosa não trai o dogma — o cumpre.


Cristo sem Redenção

A figura de Cristo aparece despojada de transcendência consoladora. Não há salvação garantida, apenas interpretações conflitantes de sua natureza e missão. O sagrado é fragmentado em discursos incompatíveis, e nenhum deles se impõe como definitivo. A fé perde o centro — restam versões.


Humor como Método Crítico

O tom do filme é deliberadamente leve, irônico, quase distraído. O humor não enfraquece a crítica; a torna mais cruel. Ao tratar disputas mortais como conversas casuais, Buñuel expõe o descompasso entre a gravidade histórica das crenças e a banalidade com que são sustentadas.


A Via que Não Conduz

O destino da peregrinação nunca assume importância real. Chegar ou não chegar a Santiago é irrelevante. O filme afirma que não há ponto de chegada possível quando o caminho é feito de verdades inconciliáveis. A Via Láctea do título não é rota espiritual, mas dispersão infinita.


Síntese

Via Láctea é um dos filmes mais intelectualmente radicais de Luis Buñuel. Ao transformar a história do cristianismo em comédia filosófica sem centro, Buñuel não ataca a fé individual — ataca a pretensão de verdade absoluta. Aqui, crer não conduz à unidade, mas a um universo fragmentado de discursos que jamais se reconciliam.


Simão do Deserto (1965) Simón del desierto - 45 min

Mostra O Discreto Escândalo da Realidade — O Cinema de Luis Buñuel

Simon, um homem profundamente religioso que vive no século IV, quer estar mais próximo de Deus, então sobe uma coluna. O Diabo quer que ele desça à Terra e está tentando seduzi-lo.


Simão do Deserto (1965) - IMDb
Direção e Roteiro: Luis Buñuel
Comédia de Humor Negro, Sátira, Drama, Fantasia


MP4 / HD- / LEG: Português

IMDB: 7,8
100%Tomatometer20 Reviews   91%Popcornmeter


A Santidade Levantada do Chão

Em Simão do Deserto, Buñuel leva ao limite sua investigação sobre a fé ao acompanhar um santo que escolhe a elevação literal — viver sobre uma coluna — como forma de pureza espiritual. Desde o início, a ascese radical não é celebrada, mas estranhada. A santidade extrema surge como gesto espetacular, já contaminado pela teatralidade e pela necessidade de reconhecimento.


O Deserto como Palco, Não como Refúgio

O espaço árido não purifica; expõe. O deserto funciona como cenário onde a fé se torna visível demais, observada por curiosos, fiéis e autoridades religiosas. Buñuel sugere que a santidade, quando isolada do mundo, paradoxalmente atrai o mundo, convertendo o retiro em espetáculo.


O Diabo como Interlocutor Racional

A figura do demônio aparece não como força grotesca, mas como presença irônica, sedutora e lógica. Suas tentações não são excessivas; são argumentativas. Buñuel constrói um embate em que o diabo não nega Deus — apenas questiona o sentido da performance ascética. A fé não é atacada frontalmente, mas desgastada pela razão.


Milagres que Não Convencem

Mesmo quando milagres ocorrem, eles não produzem transformação moral duradoura. A cura física não gera elevação espiritual; apenas curiosidade ou conveniência. Buñuel desmonta a ideia de que o extraordinário confirme o sagrado. Aqui, o milagre não resolve o problema da fé.


Autoridade Religiosa em Desconforto

A Igreja institucional observa Simão com cautela e ambiguidade. Sua santidade excessiva não é facilmente assimilável. Buñuel mostra que o sistema religioso tolera a devoção até o ponto em que ela não ameaça sua ordem interna. O santo literal torna-se inconveniente.


O Salto Anacrônico

No gesto final mais célebre do filme, Buñuel rompe com qualquer ilusão histórica ao transportar Simão para a modernidade urbana. O santo, deslocado no tempo, torna-se figura absurda, incapaz de comunicar sua fé. O anacronismo revela a tese central: a santidade absoluta não encontra lugar em nenhum tempo.


Ascese como Armadilha

O filme sugere que a busca pela pureza total pode se transformar em prisão. Isolar-se do mundo não elimina o desejo, o poder ou a vaidade — apenas os reorganiza. A fé radical corre o risco de se tornar autorreferente, fechada em si mesma.


Síntese

Simão do Deserto
é uma sátira seca e filosófica sobre a inviabilidade da santidade extrema. Ao acompanhar um homem que leva a fé até suas últimas consequências, Luis Buñuel afirma que a espiritualidade, quando desligada da vida concreta, não eleva o humano — o desloca até o absurdo. Aqui, o deserto não conduz a Deus, mas a uma pergunta sobre o sentido de crer.



O Diário de uma Camareira (1964) Le journal d'une femme de chambre - 1 h 34 min

Mostra O Discreto Escândalo da Realidade — O Cinema de Luis Buñuel

Uma mulher sofisticada e segura de si de Paris entra em uma propriedade rural de classe média como empregada doméstica e causa bastante alvoroço entre os habitantes, que são tão rígidos, perversos quanto violentos.


O Diário de uma Camareira (1964) - IMDb
Direção e Roteiro: Luis Buñuel
Crime, Drama


MP4 / HD / LEG: Inglês e português traduzido

IMDB: 7,4
88%Tomatometer24 Reviews   82%Popcornmeter


O Olhar de Quem Serve

Em O Diário de uma Camareira, Buñuel desloca o ponto de vista para baixo da hierarquia social. A protagonista observa, circula e registra, mas raramente interfere. Seu olhar não é moralizante nem inocente: é atento, irônico e estrategicamente silencioso. Servir, aqui, é posição privilegiada para ver o que a burguesia prefere esconder.


A Casa como Museu da Hipocrisia

O espaço doméstico é tratado como vitrine de obsessões, fetiches e neuroses. Cada cômodo abriga uma pequena patologia moral, revelando que a ordem burguesa se sustenta por rituais vazios e repressões mal disfarçadas. Buñuel transforma a casa em arquivo doentio da normalidade.


Desejo, Fetiche e Poder

O erotismo atravessa o filme não como libertação, mas como relação de domínio. Os desejos masculinos aparecem associados a controle, humilhação e fantasia, enquanto a protagonista aprende a navegar por eles com cálculo e distância. O corpo feminino é campo de disputa simbólica, nunca espaço neutro.


Classe, Violência e Fascismo

Sob a superfície do drama íntimo, o filme revela tensões políticas explícitas. O fascismo não surge como monstruosidade externa, mas como prolongamento lógico de ressentimentos sociais, misoginia e autoritarismo doméstico. Buñuel sugere que a violência política começa na vida privada.


A Camareira como Sobrevivente

Diferente de figuras trágicas ou redentoras, a protagonista não busca justiça nem vingança. Ela busca posição. Sua estratégia não é moral, mas adaptativa. Buñuel não a condena nem a exalta — mostra como a sobrevivência em sistemas opressivos exige inteligência prática, não pureza ética.


Realismo Cruel, Sem Catarse

O filme evita clímax moral. Crimes permanecem sem resolução satisfatória, culpas são deslocadas, e a ordem social segue intacta. Buñuel recusa a ilusão de que revelar a hipocrisia seja suficiente para transformá-la. Ver não é o mesmo que mudar.


Síntese


O Diário de uma Camareira
é um retrato implacável da intimidade burguesa como terreno fértil para o autoritarismo e o fetiche. Ao colocar a câmera ao lado de quem serve, Luis Buñuel afirma que o verdadeiro escândalo não está nos excessos individuais, mas na normalidade que os abriga. Aqui, a sujeira não está no chão — está na estrutura.

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

O Anjo Exterminador (1962) El ángel exterminador - 1 h 35 min

Mostra O Discreto Escândalo da Realidade — O Cinema de Luis Buñuel

Após uma extravagante e farta refeição, os convidados de uma festa de alta classe sentem-se estranhamente incapazes de deixar a sala de jantar e, nos dias que se seguem, pouco a pouco, caem as máscaras de civilização e virtude e o grupo passa a viver como animais.


O Anjo Exterminador (1962) - IMDb
Direção e Roteiro: Luis Buñuel
Comédia de Humor Negro, Drama, Fantasia


MP4 / HD / LEG: Português

IMDB: 8,0
94%Tomatometer35 Reviews   92%Popcornmeter


O Jantar que Nunca Termina

Em O Anjo Exterminador, Buñuel parte de uma situação banal — um elegante jantar da alta burguesia — para instaurar o pesadelo. Após a refeição, os convidados simplesmente não conseguem ir embora. Não há portas trancadas, força externa ou explicação racional. O bloqueio é invisível, e exatamente por isso devastador: a prisão nasce dentro da normalidade.


A Burguesia Sem Movimento

Os personagens pertencem à elite culta, educada e confortável. No entanto, diante da impossibilidade de sair, revelam-se incapazes de agir, decidir ou cooperar de modo eficaz. Buñuel desmonta o mito da classe dirigente como racional e competente: sem seus rituais sociais, a burguesia entra em colapso. O privilégio não prepara para a crise — anestesia.


Civilização em Processo de Decomposição

À medida que os dias passam, as máscaras caem. Regras de convivência, pudor e hierarquia se dissolvem rapidamente. O filme acompanha a regressão moral e psicológica do grupo, mostrando como a civilização é camada fina, facilmente rompida quando o conforto desaparece. A barbárie não invade — emerge.


Religião, Razão e Ritual Vazio

Tentativas de explicação religiosa ou racional surgem, mas falham. Orações não libertam, argumentos não convencem. O filme sugere que as estruturas simbólicas que sustentam a ordem social funcionam apenas enquanto não são testadas. Quando confrontadas com o absurdo, revelam-se rituais vazios.


Repetição como Prisão

A libertação só ocorre quando os personagens, quase por acaso, repetem exatamente os gestos iniciais do jantar. Buñuel indica que a prisão não estava no espaço físico, mas no automatismo social. A liberdade depende menos da vontade do que da capacidade de romper — ou repetir conscientemente — os próprios rituais.


A Armadilha Recomeça

Quando os personagens finalmente escapam e se reúnem em uma igreja, o fenômeno inexplicável se repete. Agora, não apenas a burguesia, mas a sociedade inteira parece condenada à mesma paralisia. Buñuel amplia o escopo: o problema não é de classe isolada — é civilizacional.


O Anjo que Não Aparece

O “anjo exterminador” nunca se manifesta fisicamente. Ele não mata diretamente; apenas impede o movimento. Buñuel sugere que o verdadeiro anjo é a inércia social, a incapacidade coletiva de agir fora dos próprios hábitos. A destruição vem não da violência ativa, mas da imobilidade.


Síntese

O Anjo Exterminador é uma das alegorias mais radicais do cinema moderno. Ao aprisionar personagens sem grades e puni-los sem causa visível, Luis Buñuel revela que a sociedade pode ruir não por ataques externos, mas pela incapacidade interna de mudar. Aqui, o apocalipse não explode — se instala.