Um assassino começa a colapsar psicologicamente enquanto começa a desenvolver uma consciência, mesmo enquanto seus clientes continuam a solicitar seus serviços.
O Assassino (2023) – The Killer
Roteiro: Andrew Kevin Walker, baseado na graphic
novel de Alexis Nolent (Matz) e Luc Jacamon
Elenco: Michael Fassbender, Tilda Swinton, Arliss Howard, Charles
Parnell, Sophie Charlotte
1. Introdução — O Filme Mais Minimalista e Pessoal de
Fincher
O Assassino é a síntese extrema do método de David
Fincher.
Depois de obras grandiosas como Zodiac e The Social Network, ele
retorna a um thriller frio, clínico, silencioso e profundamente psicológico,
criando um estudo de personagem sobre um homem cuja vida é organizada por uma
disciplina obsessiva — disciplina que se desfaz diante do caos inevitável.
O longa funciona como:
- uma
sátira sombria do profissionalismo moderno,
- uma
desconstrução do arquétipo do assassino perfeito,
- um
manifesto sobre controle, rotina e fracasso,
- e
uma reflexão amarga sobre a ilusão de neutralidade no mundo contemporâneo.
Trata-se de um Fincher destilado: precisão, ironia,
repetição, paranoia e perfeccionismo visual.
2. Enredo — O Homem Controlado Pelo Controle
O protagonista (Michael Fassbender), conhecido apenas como O Assassino, é um profissional meticuloso.
Sua vida é regida por mantras repetitivos:
- “Deixe
a empatia de lado.”
- “Antecipe,
não improvise.”
- “Confie
no plano.”
- “Não
se distraia.”
Mas sua rotina perfeita desmorona quando ele falha em
um trabalho — um erro mínimo, mas fatal.
A partir daí, inicia uma jornada de vingança contra:
- os
intermediários,
- os
mandantes,
- os
executores,
- e
qualquer engrenagem que o colocara em risco.
A narrativa se divide em capítulos, cada um focado em uma
fase da caçada — Paris, República Dominicana, Nova Orleans, Chicago, Nova York
— em um movimento que combina repetição e variação, como uma partitura musical.
3. Temas Principais
3.1. A Ilusão do Controle
O assassino acredita no controle absoluto, mas o mundo não
funciona como um relógio.
Sua falha inicial prova que nenhum método é à prova do caos.
Fincher coloca o espectador dentro de sua mente obsessiva
para revelar o absurdo dessa pretensão.
3.2. A Rotina Como Escudo Existencial
A repetição de mantras e gestos funciona como:
- autocondicionamento,
- anestesia
emocional,
- mecanismo
de sobrevivência.
O personagem cria uma versão automatizada de si mesmo para
evitar questionamentos morais.
Quando a rotina é quebrada, ele se torna vulnerável.
3.3. A Desumanização Profissional
O assassino é o funcionário perfeito da economia global:
- invisível,
- eficiente,
- sem
vínculos,
- sem
ética,
- sem
identidade.
Fincher constrói um paralelo entre o "assassino
profissional" e o trabalhador contemporâneo precarizado, regido por
métricas e algoritmos.
3.4. Capitalismo e Violência Estrutural
Os alvos da vingança não são apenas indivíduos — são figuras
dentro de sistemas corporativos.
O filme implica que:
A violência é apenas mais um serviço.
O assassino é um trabalhador terceirizado do capital.
3.5. Ironia e Autocontradição
O protagonista repete regras que ele mesmo quebra
constantemente.
A narração funciona como crítica irônica à própria racionalidade distorcida
dele.
4. Estética — Fincher, Cronenweth e o Minimalismo Letal
4.1. Fotografia Precisíssima
Jeff Cronenweth cria um ambiente de:
- paleta
fria,
- sombras
controladas,
- luz
urbana noturna,
- opacidade
melancólica.
É Fincher na sua forma mais elegante e despojada.
4.2. Som e Narração Interna
A voz interna do assassino guia o filme, mas sempre
contradiz sua prática.
O design de som é essencial para o ritmo:
- silêncio
cirúrgico,
- ruídos
mínimos,
- ambientes
urbanos como trilha,
- batidas
contidas.
4.3. Trilha de Trent Reznor e Atticus Ross
Minimalista, melancólica, eletrônica — mais cerebral e
atmosférica, menos explosiva que em Girl with the Dragon Tattoo.
4.4. Coreografias de violência secas e anti-espetaculares
A brutal luta na casa do “Bruto” é um dos momentos mais crus
e intensos da carreira de Fincher.
Nada estilizado — só impacto e exaustão.
5. Estrutura Narrativa — O Anti-Thriller
O filme subverte o thriller tradicional:
- não
há vilão final glamuroso,
- não
há reviravoltas mirabolantes,
- não
há redenção,
- não
há catarse.
Fincher prefere mostrar a repetição, o pragmatismo e a
frieza como motores narrativos.
É quase um estudo documental do cotidiano de um assassino.
6. O Final — A Ressignificação do Método
O último alvo é , o “mandante corporativo”.
Mas o homem:
- está
apavorado,
- é
frágil,
- não
oferece resistência,
- mostra-se
apenas uma parte substituível do mecanismo.
O assassino percebe a verdade:
- não
existe “justiça”,
- só
existe manutenção da própria sobrevivência,
- e
tentar controlar tudo é inútil.
Ele poupa Claybourne — não por piedade, mas por cálculo.
Depois retorna à vida “normal”, abraçando a dissonância entre quem é e quem
finge ser.
O final não oferece júbilo nem derrota — apenas um homem
convivendo com o absurdo da existência.
7. Curiosidades
- Fincher filmou em vários países com equipes mínimas para manter o naturalismo.
- Michael Fassbender realizou grande parte das cenas sem dublê.
- A estrutura em capítulos espelha a graphic novel original.
- A
banda preferida do assassino, The Smiths, é usada como ironia
constante — música triste, vida vazia.
8. Importância na Filmografia de Fincher
The Killer é o Fincher mais concentrado possível:
- precisão
absoluta,
- ironia
amarga,
- narrativa
cirúrgica,
- controle
formal,
- psicologia
sombria,
- crítica
ao mundo corporativo,
- fascínio
pela obsessão.
É, de certo modo, seu filme mais filosófico e mais autorreflexivo
— quase um espelho de seu próprio perfeccionismo.
Conclusão — Um Thriller Sobre a Falha da Perfeição
O Assassino não é um filme sobre um matador perfeito, mas sobre um homem tentando compensar com método aquilo que a vida insiste em desorganizar.
É Fincher contemplativo, irônico, minimalista — e mais
afiado do que nunca.
