Três mulheres muito diferentes, suas histórias e os homens que elas atraem.
Ontem, Hoje e Amanhã (1963) – O encanto cômico e social
de três mulheres, um homem e uma Itália em transformação
Ieri, oggi, domani é um dos filmes mais
famosos da parceria entre Vittorio De Sica e o casal artístico Sophia
Loren e Marcello Mastroianni. Dividido em três episódios
independentes — “Adelina”, “Anna” e “Mara” — o longa constrói um retrato
multifacetado da Itália do pós-guerra, pontuado por humor, crítica social e uma
sensualidade elegante, nunca vulgar.
Apesar do tom leve, a obra dialoga profundamente com as
mudanças econômicas, morais e culturais que atravessavam o país nos anos 60.
Cada episódio funciona como um pequeno estudo de personagem, de classe e de
desejo.
1. Adelina – A força popular da sobrevivência
Ambientado em Nápoles, este é o segmento mais social do
filme.
Adelina, interpretada por Sophia Loren, é uma vendedora de rua que
acumula dívidas e precisa lidar com uma ameaça constante de prisão. Para
escapar do cárcere, aproveita uma brecha legal insólita: grávidas não podem ser
presas. O resultado é uma maratona de maternidades que exaurem tanto o corpo de
Adelina quanto o de seu marido Carmine (Mastroianni).
Temas centrais:
- Pobreza
e informalidade: O episódio retrata de maneira cômica, mas realista, a
precariedade das classes populares italianas.
- A
mulher como sustentação doméstica e emocional: Adelina é uma figura
gigantesca — decidida, resiliente e capaz de manipular o sistema para
proteger a família.
- Crítica
ao Estado e à burocracia: A lei é absurda, e o filme tira humor
justamente da distância entre o aparato legal e as necessidades humanas.
Significado:
Adelina representa a mulher popular italiana, cuja força de trabalho e
vitalidade sustentam um país ainda frágil. A comicidade nasce do exagero, mas
fundamenta-se em tensões reais.
2. Anna – A burguesia enclausurada
Em contraste total com o calor e o caos de Nápoles, o
segundo episódio é milanês, frio e moderno.
Anna é uma mulher rica que circula pela cidade em um carro de luxo,
acompanhada do amante (Mastroianni). Mas sua frivolidade revela uma burguesia
vazia, que atribui mais valor a objetos que a pessoas.
Temas centrais:
- O
consumismo como vício moral: Anna ama mais o carro — símbolo máximo do
status — do que qualquer relação.
- Alienação
da classe alta: O episódio expõe um mundo onde emoções são
superficiais e decisões são tomadas por capricho.
- O
contraste norte–sul: De Sica cria um choque cultural proposital — da
exuberância napolitana para a frieza industrial de Milão.
Significado:
Anna encarna a mulher burguesa moderna, emancipada no papel, mas
limitada pela lógica do consumo e da aparência. É o episódio mais ácido, quase
satírico.
3. Mara – A sensualidade como teatro
Em Roma, encontramos Mara, uma prostituta de luxo
cujo apartamento se torna palco de encontros com um cliente apaixonado
(Mastroianni) e de situações cômicas com um jovem seminarista que se encanta
por ela.
Temas centrais:
- A
teatralidade da sedução: Mara domina seu espaço como uma atriz
controla o palco — cada gesto é calculado.
- O
desejo masculino como fragilidade: Mastroianni aparece aqui quase
sempre dominado, parodiando padrões de virilidade.
- O
erotismo como forma de poder feminino: Loren, no célebre strip-tease
final, mostra uma sexualidade que é mais comando do que submissão.
Significado:
Mara simboliza a mulher autônoma, consciente de seus meios e de sua
posição. O episódio é o mais leve e bem-humorado, mas também o mais refinado em
termos de mise-en-scène e de ritmo cômico.
O que une os três episódios?
Apesar das diferenças, De Sica tece uma unidade temática
clara:
1. O retrato da Itália plural
O filme percorre Nápoles, Milão e Roma, compondo um
mosaico de geografias sociais — popular, burguesa e boêmia.
2. A mulher como centro narrativo
Sophia Loren interpreta não apenas três personagens, mas
três arquétipos femininos italianos: a mãe popular, a burguesa moderna e
a cortesã sofisticada.
3. A comédia como crítica
A leveza do tom esconde reflexões sobre:
- controles
sociais do corpo feminino
- desigualdade
econômica
- consumismo
- moralidade
e desejo
- papéis
de gênero em transformação
4. A química Loren–Mastroianni
A dupla atinge aqui um dos ápices de sua parceria,
combinando humor físico, charme e timing impecável.
Conclusão
Ontem, Hoje e Amanhã permanece não só como um
clássico do cinema italiano, mas também como um documento cultural sobre três
Itálias coexistindo. A mistura de comédia, crítica social e sensualidade
sofisticada faz do filme uma obra leve na superfície e profunda no subtexto —
uma celebração das contradições humanas, das diferenças de classe e do
magnetismo de Sophia Loren em seu auge absoluto.