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quinta-feira, 20 de novembro de 2025

Ontem, Hoje e Amanhã (1963) Ieri, oggi, domani - 1 h 58 min

 Três mulheres muito diferentes, suas histórias e os homens que elas atraem.


Ontem, Hoje e Amanhã (1963) - IMDb
Dir: Vittorio De Sica
Comédia, Romance


MP4 / SD+ / LEG: Português

IMDB: 7,2
78%Tomatometer9 Reviews   81%Popcornmeter


Ontem, Hoje e Amanhã (1963) – O encanto cômico e social de três mulheres, um homem e uma Itália em transformação

Ieri, oggi, domani é um dos filmes mais famosos da parceria entre Vittorio De Sica e o casal artístico Sophia Loren e Marcello Mastroianni. Dividido em três episódios independentes — “Adelina”, “Anna” e “Mara” — o longa constrói um retrato multifacetado da Itália do pós-guerra, pontuado por humor, crítica social e uma sensualidade elegante, nunca vulgar.

Apesar do tom leve, a obra dialoga profundamente com as mudanças econômicas, morais e culturais que atravessavam o país nos anos 60. Cada episódio funciona como um pequeno estudo de personagem, de classe e de desejo.


1. Adelina – A força popular da sobrevivência

Ambientado em Nápoles, este é o segmento mais social do filme.
Adelina, interpretada por Sophia Loren, é uma vendedora de rua que acumula dívidas e precisa lidar com uma ameaça constante de prisão. Para escapar do cárcere, aproveita uma brecha legal insólita: grávidas não podem ser presas. O resultado é uma maratona de maternidades que exaurem tanto o corpo de Adelina quanto o de seu marido Carmine (Mastroianni).

Temas centrais:

  • Pobreza e informalidade: O episódio retrata de maneira cômica, mas realista, a precariedade das classes populares italianas.
  • A mulher como sustentação doméstica e emocional: Adelina é uma figura gigantesca — decidida, resiliente e capaz de manipular o sistema para proteger a família.
  • Crítica ao Estado e à burocracia: A lei é absurda, e o filme tira humor justamente da distância entre o aparato legal e as necessidades humanas.

Significado:
Adelina representa a mulher popular italiana, cuja força de trabalho e vitalidade sustentam um país ainda frágil. A comicidade nasce do exagero, mas fundamenta-se em tensões reais.


2. Anna – A burguesia enclausurada

Em contraste total com o calor e o caos de Nápoles, o segundo episódio é milanês, frio e moderno.
Anna é uma mulher rica que circula pela cidade em um carro de luxo, acompanhada do amante (Mastroianni). Mas sua frivolidade revela uma burguesia vazia, que atribui mais valor a objetos que a pessoas.

Temas centrais:

  • O consumismo como vício moral: Anna ama mais o carro — símbolo máximo do status — do que qualquer relação.
  • Alienação da classe alta: O episódio expõe um mundo onde emoções são superficiais e decisões são tomadas por capricho.
  • O contraste norte–sul: De Sica cria um choque cultural proposital — da exuberância napolitana para a frieza industrial de Milão.

Significado:
Anna encarna a mulher burguesa moderna, emancipada no papel, mas limitada pela lógica do consumo e da aparência. É o episódio mais ácido, quase satírico.


3. Mara – A sensualidade como teatro

Em Roma, encontramos Mara, uma prostituta de luxo cujo apartamento se torna palco de encontros com um cliente apaixonado (Mastroianni) e de situações cômicas com um jovem seminarista que se encanta por ela.

Temas centrais:

  • A teatralidade da sedução: Mara domina seu espaço como uma atriz controla o palco — cada gesto é calculado.
  • O desejo masculino como fragilidade: Mastroianni aparece aqui quase sempre dominado, parodiando padrões de virilidade.
  • O erotismo como forma de poder feminino: Loren, no célebre strip-tease final, mostra uma sexualidade que é mais comando do que submissão.

Significado:
Mara simboliza a mulher autônoma, consciente de seus meios e de sua posição. O episódio é o mais leve e bem-humorado, mas também o mais refinado em termos de mise-en-scène e de ritmo cômico.



O que une os três episódios?

Apesar das diferenças, De Sica tece uma unidade temática clara:

1. O retrato da Itália plural

O filme percorre Nápoles, Milão e Roma, compondo um mosaico de geografias sociais — popular, burguesa e boêmia.

2. A mulher como centro narrativo

Sophia Loren interpreta não apenas três personagens, mas três arquétipos femininos italianos: a mãe popular, a burguesa moderna e a cortesã sofisticada.

3. A comédia como crítica

A leveza do tom esconde reflexões sobre:

  • controles sociais do corpo feminino
  • desigualdade econômica
  • consumismo
  • moralidade e desejo
  • papéis de gênero em transformação

4. A química Loren–Mastroianni

A dupla atinge aqui um dos ápices de sua parceria, combinando humor físico, charme e timing impecável.



Conclusão

Ontem, Hoje e Amanhã permanece não só como um clássico do cinema italiano, mas também como um documento cultural sobre três Itálias coexistindo. A mistura de comédia, crítica social e sensualidade sofisticada faz do filme uma obra leve na superfície e profunda no subtexto — uma celebração das contradições humanas, das diferenças de classe e do magnetismo de Sophia Loren em seu auge absoluto.

 





segunda-feira, 27 de outubro de 2025

A Condessa de Hong Kong (1967) A Countess from Hong Kong - 2 h

CHARLES CHAPLIN — O Riso que Pensa, o Cinema que Sente

O filme segue a história de um rico empresário americano, o Sr. O'Brien, que encontra uma bela condessa, a condessa Tania, em um navio de cruzeiro. Depois de uma série de desventuras cômicas e românticas, o Sr. O'Brien se vê enredado na vida de Tania, levando a situações engraçadas enquanto eles navegam por suas diferenças de status social e expectativas.


Dir: Charles Chaplin
Comédia, Romance


MP4 / HD / LEG: Português

IMDB: 6,1
Flick Metrix: 57   Average Percentile: 36.3%

O adeus melancólico de um clássico fora do tempo


Um Encontro em Suspensão

Em A Countess from Hong Kong, Charles Chaplin realiza seu último longa-metragem, um filme que parece deslocado no tempo — como se pertencesse a uma era que já havia desaparecido. Ambientada quase inteiramente a bordo de um navio, a história acompanha o encontro entre uma condessa russa exilada, vivida por Sophia Loren, e um diplomata americano, interpretado por Marlon Brando.

O que se desenha é menos um romance convencional e mais um jogo de aproximações e recusas, onde o espaço confinado intensifica tanto o desejo quanto o constrangimento.


Comédia de Gestos, Mundo em Transformação

Chaplin retorna aqui à comédia de situação e ao humor físico que marcaram sua carreira, mas o faz em um contexto profundamente alterado. Nos anos 1960, o cinema já operava sob outras lógicas — mais diretas, mais modernas — e A Condessa de Hong Kong surge como um gesto de resistência estética.

Os equívocos, as portas que se abrem e fecham, os corpos que se escondem e se revelam: tudo remete à tradição da comédia clássica. No entanto, há uma fricção constante entre essa forma e o tempo histórico em que o filme foi realizado, gerando uma sensação de desajuste que é, ao mesmo tempo, sua fragilidade e sua singularidade.


Entre o Charme e a Rigidez

A presença de Sophia Loren traz vitalidade e magnetismo à personagem, equilibrando leveza e vulnerabilidade. Já Marlon Brando, com uma atuação contida e por vezes rígida, cria um contraste curioso — como se estivesse deslocado dentro da própria lógica do filme.

Essa tensão entre os dois protagonistas espelha a própria estrutura da obra: de um lado, a fluidez do gesto chapliniano; de outro, a dificuldade de encaixá-lo em um novo contexto cinematográfico.


O Espaço como Palco

O navio funciona como um palco fechado, quase teatral, onde cada gesto ganha maior visibilidade. Chaplin organiza o espaço com precisão, explorando corredores, cabines e salões como áreas de encenação.

Essa escolha reforça o caráter clássico do filme, aproximando-o de uma comédia de costumes. Ao mesmo tempo, limita sua expansão visual, tornando-o mais contido — uma obra que olha para dentro, mais do que para o mundo.


Recepção e Legado

Na época de seu lançamento, A Countess from Hong Kong foi recebido com frieza pela crítica e pelo público. Muitos o viram como um trabalho anacrônico, incapaz de dialogar com o cinema de sua época.

Com o passar do tempo, no entanto, o filme passou a ser reavaliado como um objeto singular: não um fracasso simples, mas o registro de um artista que permaneceu fiel à sua linguagem até o fim. É também lembrado por marcar o encerramento da carreira de Chaplin como diretor — um adeus discreto, distante do impacto monumental de suas obras anteriores.


Leitura Crítica

A Condessa de Hong Kong pode ser vista como um filme sobre deslocamento — geográfico, emocional e histórico. Seus personagens estão fora de lugar, assim como o próprio Chaplin dentro do cinema dos anos 1960.

Há, em sua leveza, uma melancolia silenciosa: a sensação de que certas formas de olhar e representar o mundo já não encontram o mesmo espaço. Ainda assim, Chaplin insiste — e é nessa insistência que o filme encontra sua verdade.


Para quem é (e para quem não é)

O filme interessa especialmente a quem deseja compreender a fase final de Chaplin e observar como um grande autor lida com um contexto em transformação. Também pode encantar espectadores sensíveis à comédia clássica e ao charme de seus protagonistas.

Por outro lado, pode frustrar quem espera o vigor inventivo de obras como Tempos Modernos ou Luzes da Cidade: aqui, o brilho é mais discreto, e o tempo parece correr em outra velocidade.