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segunda-feira, 13 de abril de 2026

Reino Animal (2010) Animal Kingdom - 1 h 53 min

O LEGADO DE SUNDANCE: O Tempo como Consagração

Um garoto de dezessete anos navega por sua sobrevivência entre uma família criminosa explosiva e o detetive que acredita que pode salvá-lo.


Reino Animal (2010) - IMDb
Dir: David Michôd
Crime Verdadeiro, Suspense Psicológico, Tragédia, Drama


MP4 / HD / LEG: Português

IMDB: 7,2   METASCORE: 8,3
Flick Metrix: 78   Criticker Average Percentile: 60%
94%Tomatometer160 Reviews   83%Popcornmeter

No coração da família, o perigo não vem de fora.


Um lar que devora


Animal Kingdom
(2010), dirigido por David Michôd, mergulha em um universo onde a ideia de família se mistura com crime, lealdade e sobrevivência. A narrativa acompanha um jovem que, após uma perda, passa a viver com parentes envolvidos em atividades criminosas. O que deveria ser abrigo se revela um território instável e ameaçador.


A banalidade da violência

O filme constrói sua tensão sem recorrer ao excesso. A violência surge de forma seca, muitas vezes inesperada, como parte natural daquele cotidiano. Essa abordagem reforça uma sensação inquietante. Não há glamour, apenas a constatação de que o perigo está incorporado à rotina.


Poder silencioso


A figura central dessa dinâmica familiar é interpretada por Jacki Weaver, cuja atuação transforma a aparente fragilidade em controle absoluto. Sua personagem exerce domínio através de gestos sutis, revelando como o poder pode se manifestar de maneira silenciosa e ainda assim devastadora.


Aprender a sobreviver


O protagonista não é moldado por grandes decisões, mas por pequenas concessões sucessivas. O filme mostra como a adaptação a um ambiente hostil acontece gradualmente. Sobreviver, nesse contexto, significa absorver regras não ditas e aceitar limites que se impõem sem negociação.


Leitura Crítica

Animal Kingdom se destaca por recusar a espetacularização do crime e por tratar a família como uma estrutura ambígua. Ao invés de proteção, ela oferece pertencimento condicionado. O filme revela que os laços mais próximos podem ser também os mais perigosos. Sua força está na forma como transforma o íntimo em ameaça e mostra que, em certos contextos, crescer significa aprender a conviver com aquilo que pode destruir.

 





sexta-feira, 10 de outubro de 2025

Los Angeles: Cidade Proibida (1997) L.A. Confidential - 2 h 18 min

MOSTRA FILMES NEO-NOIR

Mostra Filmes Live Action do IMDB Top 250 - BLOCO 3 (#101 a #150)

A corrupção cresce em Los Angeles nos anos 50. Três policiais estão investigando uma série de assassinatos com sua própria marca de justiça.


Dir: Curtis Hanson
Detetive Obstinado, Drama Policial, Investigação Policial, Thriller de Conspiração, Mistério


MP4 / HD / LEG: Português

IMDB: 8,2   METASCORE: 9,1
99%Tomatometer165 Reviews   94%Popcornmeter


L.A. Confidential (1997): O Noir do Cinismo Dourado e da Corrupção que Sustenta uma Cidade

Dirigido por Curtis Hanson, L.A. Confidential é um dos mais brilhantes neo-noirs do cinema moderno. Baseado no romance polifônico e labiríntico de James Ellroy, o filme reconstrói a Los Angeles dos anos 1950 não como sonho hollywoodiano, mas como máquina de relações públicas, onde polícia, imprensa sensacionalista, prostituição de luxo e política se entrelaçam de forma indissociável.

É um noir que homenageia o passado — Bogart, Chandler, os anos dourados — ao mesmo tempo em que o desmonta, expondo o lado podre do glamour.

A narrativa acompanha três policiais muito diferentes:

  • Ed Exley (Guy Pearce), o idealista rígido, ambicioso e moralista;
  • Bud White (Russell Crowe), o brutamontes de coração ferido que odeia abusadores;
  • Jack Vincennes (Kevin Spacey), o policial celebridade, peça-chave no conluio entre polícia e mídia tabloide.

Quando um massacre em uma lanchonete revela uma teia de corrupção e violência, os caminhos desses homens se entrelaçam em uma investigação que vai demolir suas convicções, reputações e identidades.


Um neo-noir que resgata — e transcende — o noir clássico

L.A. Confidential devolve ao noir:

  • os ternos elegantes,
  • a cidade iluminada por néon,
  • os bares esfumaçados,
  • a femme fatale carismática,
  • o detetive moralmente dividido.

Mas, ao contrário do noir dos anos 40, aqui a corrupção não está apenas nos becos escuros — está:

  • nos gabinetes,
  • na imprensa,
  • nos estúdios,
  • na polícia que fabrica heróis,
  • na cidade que vende sonhos enquanto destrói vidas.

É o noir como crítica estrutural da mitologia americana.


Os três detetives: espelhos quebrados do ideal de justiça

Ed Exley

Ambicioso, rígido, educado, calculista.
Quer ser herói pelos “métodos corretos”.
Mas descobre que a lei, em Los Angeles, é uma engrenagem suja — e que sua ascensão depende de compromissos éticos sombrios.
Sua jornada é a mais política.


Bud White

Violento, intuitivo, marcado por traumas.
Ataca abusadores porque ele próprio carrega feridas profundas.
Quando se apaixona por Lynn, descobre uma humanidade que nunca teve permissão para sentir.
Sua jornada é a mais emocional.




Jack Vincennes

Carismático, irônico, vaidoso.

Vende prisões encenadas para tabloides.
Representa o policial que trocou integridade por fama.
Sua busca por redenção — tardia e fatal — é a mais trágica.



Esses três homens representam três faces do noir:
a ambição, a brutalidade, a vaidade — todas falhas, todas humanas.


Lynn Bracken: a femme fatale que não é fatal

Interpretada com beleza melancólica por Kim Basinger, Lynn é uma prostituta de luxo moldada para parecer Veronica Lake.
Mas ela não é manipuladora: é sensível, digna e lúcida.
É a mulher que, no final das contas, protege os detetives de seus piores impulsos — e que expõe a verdadeira natureza da exploração de Hollywood.

O noir clássico castigava suas mulheres fatais.
Este noir lhes devolve humanidade.


O sistema como vilão: polícia, imprensa, capital e ego

O antagonista do filme não é um criminoso isolado — é a instituição:

  • a polícia que fabrica bodes expiatórios,
  • a imprensa sensacionalista que destrói reputações,
  • a elite que usa violência como ferramenta de controle,
  • o racismo estrutural,
  • os esquemas de drogas e prostituição vinculados ao poder.

L.A. Confidential revela que a cidade só funciona porque é corrupta.
E seus heróis só sobrevivem porque aprendem a navegar essa lama — perdendo inevitavelmente partes de si.


A violência: limpa, seca, moralmente carregada

As explosões de violência no filme são rápidas e decisivas:

  • interrogatórios brutais,
  • execuções frias,
  • tiroteios “cirúrgicos” em cenários claustrofóbicos,
  • traições que surgem nos momentos mais inesperados.

A sequência na casa abandonada — o clímax — é um dos confrontos mais elegantes e tensos do neo-noir.


O final: justiça imperfeita para um mundo imperfeito

O filme conclui com uma espécie de “justiça” possível — imperfeita, política, negociada.
Não há triunfo moral; há apenas rearranjo da corrupção.

Ed sobe na carreira.
Bud foge para um recomeço.
Lynn encontra dignidade.
A cidade continua.

É o noir moderno em sua forma mais pura:
não existe final limpo quando o sistema é sujo.


Conclusão

L.A. Confidential é uma obra-prima do neo-noir, um filme que combina investigação complexa, personagens profundos e crítica mordaz à mitologia de Hollywood.
É simultaneamente homenagem e desconstrução — elegante e brutal, romântico e cínico, clássico e absolutamente moderno.

Um dos melhores filmes dos anos 1990 e um dos pilares do noir contemporâneo.



quinta-feira, 25 de setembro de 2025

O Brutalista (2024) The Brutalist - 3 h 36 min

Mostra:

VALE O PLAY: Prime Video - Edição 1

Quando o visionário arquiteto László Toth e sua esposa Erzsébet fogem da Europa do pós-guerra em 1947 para reconstruir seu legado e testemunhar o nascimento da América moderna, suas vidas são mudadas por um misterioso e rico cliente.


Dir: Brady Corbet
Drama Psicológico


MP4 / HD / LEG: Português

IMDB: 7,3   METASCORE: 9,0
Letterboxd: 7,8   Letterboxd: 84
93%Tomatometer333 Reviews

A América não destruiu László Tóth. Apenas terminou o trabalho que a Europa havia começado.

A chegada como argumento

The Brutalist começa com László Tóth saindo do navio em Nova York, a câmera de baixo para cima, a Estátua da Liberdade aparecendo invertida no enquadramento antes de se corrigir. Brady Corbet instala em segundos o argumento que o filme vai sustentar por três horas e trinta minutos: a promessa americana não é o que parece, e quem chega com a câmera errada, com a perspectiva errada, com a história errada, vai precisar de muito mais do que talento para que a correção aconteça, se é que acontece.

László é arquiteto húngaro judeu, sobrevivente do Holocausto, que chega aos Estados Unidos em 1947 sem dinheiro, sem inglês fluente e com uma visão arquitetônica que o mundo ainda não sabe que precisa. O filme percorre décadas de sua vida na América, da imigração à encomenda de sua vida, e usa essa trajetória para examinar o que o sonho americano faz com as pessoas que acredita estar salvando.


Corbet e a ambição como método

Brady Corbet tem 36 anos e fez o filme mais ambicioso do cinema americano da década. The Brutalist foi filmado em VistaVision, formato de película de alta resolução usado em Hollywood nos anos 1950 e ressuscitado aqui como argumento formal: o filme que examina a América do pós-guerra usa a linguagem visual da América do pós-guerra, e essa consciência histórica da forma é argumento sobre como o cinema constrói o passado.

A duração de três horas e meia, com intervalo, é a decisão de dar ao material o espaço que o material exige. The Brutalist é um filme sobre uma vida inteira, sobre décadas de trabalho e fracasso e compromisso e traição, e comprimir isso numa duração convencional seria produzir um resumo em vez de uma experiência. Corbet e a coroteirista Mona Fastvold construíram uma estrutura em duas partes que tem a qualidade de um romance do século XIX transposto para o cinema do século XXI, com a densidade e a paciência que esse tipo de narrativa exige.


Adrien Brody e o corpo como arquivo

Adrien Brody ganhou o Oscar de melhor ator pela performance e a distinção é a mais justa da temporada por razões que vão além do reconhecimento de um trabalho difícil. László Tóth é além de um personagem: é uma acumulação de décadas, de traumas sobrepostos, de uma integridade artística que vai sendo testada por cada compromisso que a sobrevivência exige e que resiste de formas que o próprio László não consegue sempre controlar.

Brody constrói o personagem a partir do corpo: a postura que carrega o peso da Europa, os gestos de um homem que aprendeu a ocupar menos espaço do que tem direito, a forma como a voz muda quando László está dentro de seu trabalho em vez de dentro das negociações que o trabalho exige. Há cenas em que Brody comunica décadas de erosão apenas na forma como László segura um copo ou atravessa um cômodo, e essa fisicalidade acumulada é o que torna a performance insubstituível: não é possível fazer o que Brody faz com texto ou com inteligência técnica isolada. É preciso habitar o personagem de uma forma que o tempo dentro do personagem replique o tempo dentro do filme.


Harrison Lee Van Buren e o mecenas como predador

Guy Pearce interpreta Harrison Lee Van Buren, o homem rico da Pensilvânia que descobre László num trabalho menor e decide que quer um monumento, com uma precisão que recusa a caricatura do vilão capitalista. Harrison não é mau no sentido de consciente de sua malícia: é alguém que foi formado por um sistema que lhe deu poder suficiente para nunca ter precisado examinar o que faz com esse poder, e que genuinamente acredita que o que está oferecendo a László é generosidade.

A relação entre os dois é o motor do filme e seu território mais rico. Harrison precisa de László para construir algo que dure além de si mesmo, algo que transforme o dinheiro em legado. László precisa de Harrison para realizar a única coisa que sobrou como razão de existir depois de tudo que perdeu. Os dois se usam com uma consciência que o filme não iguala moralmente: o poder que Harrison tem sobre László não é o mesmo poder que László tem sobre Harrison, e Corbet filma essa assimetria com um rigor que não deixa o espectador esquecer o desequilíbrio mesmo nas cenas em que a relação parece funcionar.


Erzsébet e o custo do talento alheio

Felicity Jones interpreta Erzsébet, a esposa de László que chega à América depois de anos separada dele pela guerra e pela burocracia, com uma presença que o filme reserva estrategicamente. Erzsébet aparece tarde e sua chegada muda o equilíbrio de tudo que havia sido estabelecido, porque ela é lúcida de uma forma que László, dentro de seu trabalho e de seus vícios, não consegue mais ser.

Jones constrói Erzsébet como alguém que sobreviveu ao suficiente para não ter mais paciência com as ilusões que os homens ao redor precisam manter, e essa lucidez é usada pelo filme como instrumento de julgamento que é apenas honesto sobre o custo que o talento de um homem costuma cobrar das mulheres que vivem ao lado dele. A cena em que Erzsébet confronta Harrison é o momento em que The Brutalist mostra mais claramente o que estava construindo por horas: que a América que diz oferecer espaço para o talento cobra esse espaço de forma que os talentosos raramente contabilizam completamente.


A arquitetura como autobiografia

O Instituto que László projeta para Harrison, o monumento que é a encomenda central do filme, é o exterior de uma vida interior, a forma que László encontrou para transformar sobrevivência em sentido. Corbet usa a arquitetura brutalista, com sua massa de concreto, sua recusa de ornamento, sua insistência em mostrar a estrutura sem disfarce, como espelho da estética moral do personagem: László faz o que faz porque não sabe fazer de outro jeito, porque a beleza que ele persegue é a beleza da honestidade material, e essa honestidade em arte coexiste com uma capacidade de se iludir na vida que o filme examina sem absolver.

A sequência em que o Instituto começa a tomar forma é uma das mais belas do filme precisamente porque Corbet filma a arquitetura com a mesma atenção com que filmou os rostos: como superfície que revela o que está por baixo, como argumento sobre quem a fez e por quê e a que custo.


Onde assistir e o que esperar

The Brutalist está disponível no Prime Video e na Filmoteca Seu Manolo. O filme deve ser assistido na maior tela disponível: o VistaVision foi escolhido para produzir imagens com uma qualidade que telas pequenas não preservam completamente, e a escala visual é parte do argumento sobre monumentalidade e ambição que o filme está fazendo. O intervalo que divide as duas partes não é apenas logístico: é dramático, uma pausa entre dois momentos de uma vida que têm tonalidades diferentes, e respeitá-lo na versão doméstica, fazendo uma pausa real em vez de continuar imediatamente, muda a experiência da segunda parte. A trilha de Daniel Blumberg usa dissonância e silêncio com uma precisão que combina com a arquitetura brutalista que o filme está examinando. Luca Guadagnino estava em negociações para dirigir antes de Corbet assumir o projeto, e imaginar o que seria diferente é um exercício útil para entender o que Corbet escolheu ser.


A América que consome o que salva

The Brutalist é o filme mais importante do cinema americano de 2024 não porque é o maior ou o mais ambicioso, embora seja as duas coisas, mas porque faz uma pergunta que o cinema americano raramente tem coragem de fazer sobre si mesmo: o que a América faz com os talentos que importa, com as vidas que diz estar salvando, com os monumentos que encomenda de pessoas que não teriam chegado até ali sem a destruição que a América às vezes ajudou a produzir?

László Tóth é judeu húngaro sobrevivente do Holocausto que constrói um monumento para um homem rico americano que o trata com generosidade real e violência real ao mesmo tempo, e Corbet filma essa equação sem resolver, sem absolver, sem condenar de forma que libere o espectador do desconforto. The Brutalist termina num lugar que é ao mesmo tempo derrota e permanência: o Instituto existe, László existe de forma que o filme revelou terem custado mais do que qualquer encomenda poderia pagar, e a América segue igual, oferecendo espaço para o talento com uma mão e cobrando o preço com a outra, sem nunca anunciar a taxa de câmbio.

quarta-feira, 3 de setembro de 2025

Priscilla, a Rainha do Deserto (1994) The Adventures of Priscilla, Queen of the Desert - 1 h 44 min

Filme incluso na mostra da Filmoteca Seu Manolo:

VALE O PLAY: Prime Video - Edição 2


Dir: Stephan Elliott
Comédia de Humor Negro, Road Movie, Música

MP4 / HD / LEG: Português

AVALIAÇÕES:
IMDB: 7,5   METASCORE: 7,0
Letterboxd: 8,0   Flick Metrix: 75
94%Tomatometer51 Reviews

Dois drag queens e uma mulher trans atravessam o deserto australiano num ônibus. O que encontram não é o que esperavam.

Stephan Elliott e o projeto

Priscilla foi produzido com orçamento de 1,8 milhão de dólares australianos, equivalente a 1,3 milhão de dólares americanos, e arrecadou 29,7 milhões de dólares mundialmente. O filme foi baseado nas vidas de três drag queens reais, Cindy Pastel, Strykermeyer e Lady Bump, que seriam originalmente escaladas para interpretar versões de si mesmas. A decisão foi revertida quando o projeto atraiu financiamento maior e os produtores decidiram que precisavam de atores com maior apelo comercial. Isso levou à escalação de três homens heterossexuais sem experiência em drag, e as pessoas cujas vidas inspiraram o filme foram deixadas de lado.

É uma ironia que o filme não ignora completamente: Priscilla é ao mesmo tempo um retrato generoso de uma cultura específica e um produto da indústria que historicamente excluiu essa cultura das próprias histórias. Stephan Elliott navegou essa tensão com uma liberdade que o sistema de estúdios americano não teria permitido, e o resultado é um dos filmes mais singulares do cinema de língua inglesa dos anos 1990.

Os três personagens e o que cada um carrega

Hugo Weaving interpreta Tick, também conhecido como Mitzi Del Bra, um drag performer de Sydney que recebe um convite para se apresentar num resort em Alice Springs e convence dois amigos a fazer a viagem de ônibus através do deserto australiano. Tick carrega um segredo que o filme revela gradualmente: tem um filho que não conhece bem e uma ex-esposa que administra o resort de destino. A jornada é ao mesmo tempo uma fuga e um caminho de volta para algo que deixou para trás.

Guy Pearce interpreta Adam, também conhecido como Felicia Jollygoodfellow, o mais jovem e mais extrovertido dos três. Adam é o personagem que o filme usa para explorar o espectro do que a flamboyance pode ser: performance, identidade, estética e argumento sobre o direito de ocupar espaço de qualquer forma que a pessoa escolher. Pearce construiu Adam com uma energia que poderia facilmente virar caricatura e que o filme calibra constantemente para permanecer no território da personagem específica em vez do tipo genérico.

Terence Stamp interpreta Bernadette, uma mulher trans de meia-idade que acaba de perder o companheiro. Stamp tinha 56 anos quando filmou Priscilla e foi a escolha mais arriscada do elenco: um ator inglês de cinema clássico interpretando uma mulher trans australiana num road movie de baixo orçamento. O que Stamp entrega é a performance mais contida e mais emocionalmente precisa do filme: Bernadette é o personagem com mais passado e mais peso, e Stamp constrói esse peso com uma dignidade que recusa a vitimização sem negar a vulnerabilidade.

O deserto e o que ele representa

O outback australiano não é um cenário neutro. É o espaço mais inóspito e mais vasto do país, habitado majoritariamente por populações aborígenes e por comunidades rurais que têm relações complexas com qualquer coisa que pareça diferente do que conhecem. Elliott escolheu esse espaço deliberadamente: a jornada de Tick, Adam e Bernadette pelo deserto é uma jornada pelo coração do que a Austrália é, não pela versão cosmopolita e tolerante de Sydney.

O que o filme encontra no deserto não é o que a premissa sugere. Encontra hostilidade em alguns lugares, indiferença em outros, e em lugares inesperados uma generosidade que o trio não esperava. A cena com o minerador e sua esposa filipina, que ensina a Bernadette uma dança de performance num bar no meio do nada, é o momento mais emocionalmente rico do filme: duas mulheres de mundos completamente diferentes encontrando um território comum que o filme não havia previsto e que a câmera de Elliott registra com uma ternura que não é sentimentalismo.

O Oscar de Melhor Figurino e o que ele diz

Priscilla venceu o Oscar de Melhor Figurino de 1995, reconhecendo o trabalho de Lizzy Gardiner e Tim Chappel. Os figurinos do filme são personagens em si mesmos: os vestidos enormes, as perucas elaboradas, os figurinos de performance que os três usam nos números musicais são expressões físicas de quem cada personagem é quando está sendo completamente ele mesmo ou ela mesma.

A cena mais icônica do filme, em que Adam atravessa o deserto no topo do ônibus com um vestido de escamas prateadas se desdobrando ao vento, é o argumento visual central de Priscilla: beleza e absurdo no mesmo quadro, num espaço que deveria ser hostil a ambos, produzindo algo que o espectador não consegue classificar mas que reconhece como extraordinário.


O legado e a sequência em desenvolvimento

Priscilla tornou-se um dos filmes cult mais duráveis dos anos 1990 e um marco da representação queer no cinema mainstream. Uma sequência está em desenvolvimento com Stephan Elliott voltando a dirigir e escrever, e o elenco original de Hugo Weaving, Guy Pearce e Terence Stamp confirmado para retornar. Terence Stamp pré-filmou suas cenas antes de morrer, e o filme será seu último papel.

O fato de que os três atores voltaram ao projeto trinta anos depois diz algo sobre o que Priscilla representou nas carreiras deles: um dos poucos momentos em que o cinema australiano produziu algo que foi simultaneamente local e universal, específico e reconhecível para qualquer espectador do mundo.


Clique aqui para saber onde assistir. Um filme para assistir quando você precisa ser lembrado de que beleza e absurdo podem ocupar o mesmo espaço.

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