Mostra:
O AMOR NO TEMPO DO QUASE: Vínculos Frágeis num Mundo Acelerado
O palco que virou tela
Closer nasceu como peça teatral de Patrick Marber e chegou ao cinema pelas mãos de Mike Nichols sem perder a densidade do palco, o que é simultaneamente seu maior trunfo e sua marca mais visível. Os diálogos têm a precisão cirúrgica de texto escrito para ser ouvido numa sala pequena, onde cada palavra carrega peso e cada pausa é calculada. Nichols não tenta disfarçar essa origem: filma Closer como se o espaço entre os personagens fosse um palco onde a batalha de linguagem acontece, e usa Londres como cenário de uma forma que a torna presente sem nunca torná-la turística.A estrutura do filme recusa a continuidade convencional. Cenas se sucedem com elipses de meses ou anos sem aviso, e o espectador chega a cada novo encontro precisando reconstruir o que aconteceu no intervalo a partir do que os personagens dizem e do que deliberadamente não dizem. Essa estrutura fragmentada é o argumento formal do filme sobre como os relacionamentos existem em momentos de intensidade separados por períodos que a narrativa não precisa mostrar porque o que importa é o que resta depois deles.
Nichols e a crueldade como método
Mike Nichols passou a carreira filmando a violência que existe dentro das relações humanas mais íntimas, de Quem Tem Medo de Virginia Woolf até Closer, e chegou a este filme com uma maestria do território que é visível em cada escolha de câmera e de ritmo. Nichols entendeu que a crueldade entre pessoas que se amam precisa apenas de duas pessoas num quarto com tempo suficiente e histórico suficiente para que as palavras encontrem os lugares certos para doer.Stephen Goldblatt fotografa Closer com uma paleta que usa a luz de Londres de forma que favorece a ambiguidade: não há vilões iluminados de um jeito e vítimas iluminados de outro. Os quatro personagens existem na mesma luz porque o filme entende que todos os quatro estão fazendo o mesmo tipo de dano, em momentos diferentes, com instrumentos diferentes, e que a distinção entre quem machuca e quem é machucado é sempre temporária nesse universo.
Quatro personagens, nenhum inocente
Closer opera com quatro personagens que formam dois casais que se cruzam e se reconfiguram ao longo do filme: Dan, escritor medíocre com ambições de profundidade; Alice, jovem com uma história que o filme guarda até o fim; Anna, fotógrafa com mais autoconhecimento do que coragem para agir a partir dele; e Larry, dermatologista com uma brutalidade emocional que é pelo menos honesta sobre o que é.Jude Law constrói Dan como alguém que usa a sensibilidade artística para justificar comportamentos que a sensibilidade artística não justifica. Natalie Portman faz Alice com uma vulnerabilidade estratégica que o filme vai revelando ser mais construída do que parece. Julia Roberts interpreta Anna com uma contenção que é ela mesma uma forma de violência: a pessoa que sente tudo e revela pouco, que usa o autocontrole como proteção e como arma. Clive Owen entrega Larry com uma carnalidade e uma raiva que são as mais honestas do quarteto, porque o que ele quer e o que está disposto a fazer para conseguir estão sempre visíveis, sem o verniz que os outros usam.
A cena do aquário e a cena do strip club
Closer tem duas cenas que concentram o que o filme está fazendo de forma que o resto do filme explica e essas duas cenas demonstram. A primeira é a conversa entre Dan e Larry num aquário público, onde Larry descobre a traição de Anna e exige detalhes que Dan fornece com uma crueldade que se disfarça de honestidade. Os dois homens estão se machucando através das mulheres que compartilharam, usando informação como instrumento de dominância, e Nichols filma essa troca com uma frieza que recusa qualquer julgamento fácil sobre quem está sendo mais cruel.A segunda é a cena entre Larry e Alice num strip club, onde Larry tenta comprar de Alice o que ela não está vendendo e Alice usa as regras do ambiente para manter o controle de uma situação que foi projetada para retirá-lo dela. Portman e Owen jogam essa cena como um duelo de linguagem em que cada um tenta usar as palavras para chegar a um lugar que o outro não quer ceder, e o resultado é simultaneamente a cena mais erótica e a mais fria do filme, porque o desejo e o poder estão completamente entrelaçados e nenhum dos dois pode existir sem o outro naquele espaço.
A verdade como arma
O que Closer examina com mais precisão é o uso da verdade como instrumento de dano. Os personagens não mentem apenas para se proteger: dizem a verdade de formas calibradas para machucar, revelam o que revelam no momento em que a revelação vai causar mais estrago, usam a honestidade como cobertura para impulsos que a honestidade não explica. Dan quer que Anna saiba dos detalhes de sua noite com Alice porque sabe que os detalhes vão doer de uma forma específica.Marber e Nichols entendem que nos relacionamentos íntimos a verdade raramente é um valor neutro. É sempre dita por alguém com alguma intenção, no momento escolhido por alguma razão, com a dosagem determinada pelo efeito desejado. Closer é o filme mais honesto disponível sobre essa desonestidade específica, a que se esconde dentro da verdade e usa a verdade como disfarce.
Onde assistir e o que esperar
Closer está disponível em plataformas de streaming e na Filmoteca Seu Manolo. O filme tem 104 minutos que são densos de forma incomum para a duração: não há cena de respiro, não há momento em que a tensão entre os personagens baixa completamente. A trilha usa Damien Rice de forma que se tornou referência involuntária para o tipo de melancolia que o filme habita, e The Blower's Daughter sobre os créditos iniciais estabelece o tom antes que o primeiro diálogo comece. Espectadores que chegam esperando romance vão precisar de ajuste: Closer usa a gramática do romance para fazer outra coisa completamente.
O idioma da crueldade
Closer é o estudo mais preciso disponível no cinema sobre como a linguagem, mesmo quando tecnicamente funciona, pode ser usada de formas que tornam a comunicação real impossível. Dan, Alice, Anna e Larry falam bem, articulam com clareza, têm vocabulário emocional sofisticado, e usam tudo isso para se ferir com uma eficiência que o silêncio nunca alcançaria.Nichols filma personagens que dizem demais, que revelam com precisão cirúrgica o que vai causar mais dano, que usam a honestidade como cobertura para impulsos que não têm nada de honesto. A comunicação nos relacionamentos pode falhar pelo excesso que machuca ou pelo déficit que sufoca, e o resultado, em ambos os casos, é a mesma solidão de duas pessoas que existem no mesmo espaço sem conseguir se alcançar.

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