Mostra Viagem no Tempo no Cinema
Na Inglaterra do século XIV, um grupo de aldeões, guiados pelas visões de um menino, tentam salvar seu vilarejo da Peste Negra e cavam um túnel que os leva para a Nova Zelândia do século XX.
Navigator: Uma Odisséia No Tempo (1988) - IMDbDir: Vincent Ward
Viagem no Tempo, Ação Aventura, Fantasia, Ficção Científica, Drama, Mistério, Suspense
MP4 / HD- / LEG: Português
IMDB: 6,6
The Navigator: A Medieval Odyssey, dirigido por
Vincent Ward, é uma das obras mais singulares já realizadas sobre viagem no
tempo. Distante do espetáculo tecnológico e da lógica científica, o filme
propõe uma abordagem mítica, espiritual e sensorial, na qual o
deslocamento temporal nasce da fé, do medo coletivo e da imaginação medieval.
Inserido no Núcleo 1 — O Tempo como Maravilhamento, Navigator
ocupa um lugar especial: ele transforma a viagem no tempo em rito, não
em invenção.
O tempo como crença
A narrativa acompanha uma pequena comunidade camponesa na
Europa medieval assolada pelo medo da Peste Negra. Após visões proféticas, um
jovem garoto é convencido de que a única forma de salvar o vilarejo é viajar
até “o fim do mundo” para realizar um ritual capaz de afastar a morte.
O que eles não sabem — e o espectador logo descobre — é que
esse “fim do mundo” é, na verdade, a Nova Zelândia contemporânea.
A viagem no tempo ocorre sem explicação científica, máquinas
ou paradoxos. Ela acontece porque os personagens acreditam. Em Navigator,
o tempo se dobra à fé.
Duas eras, duas percepções do mundo
Um dos aspectos mais impressionantes do filme é sua
construção visual. O mundo medieval é filmado em
preto e branco, com
textura áspera, quase arcaica. Já o mundo moderno surge em
cores intensas,
artificiais, luminosas.
Essa escolha não indica progresso ou superioridade. Pelo
contrário:
- o
mundo medieval parece coeso, simbólico, orientado por sentido;
- o
mundo moderno surge fragmentado, hostil, incompreensível.
O choque temporal não é tecnológico — é existencial.
O maravilhamento invertido
Diferente da maioria dos filmes de viagem no tempo, aqui não
somos convidados a nos maravilhar com o futuro. O olhar é invertido: vemos o
presente
através de olhos medievais.
Arranha-céus tornam-se catedrais profanas.
Elevadores parecem milagres mecânicos.
Linhas elétricas assumem valor ritualístico.
O filme nos lembra que o maravilhamento não está no objeto,
mas no olhar.
Viagem no tempo como peregrinação
O deslocamento temporal em
The Navigator funciona
como uma
peregrinação sagrada. Cada passo é carregado de risco, silêncio
e reverência. Não há humor, ironia ou distanciamento.
A jornada é física, espiritual e simbólica. O tempo não é
vencido — é atravessado com humildade.
Essa dimensão aproxima o filme mais de um conto
mitológico do que da ficção científica tradicional.
Lugar no subgênero da viagem no tempo
Dentro da mostra,
Navigator dialoga diretamente com:
- Le
Voyage dans la Lune — pelo espírito de descoberta do impossível
- Time
Bandits — pela travessia lúdica e simbólica da História
Mas se diferencia por sua austeridade poética. Não há
sátira nem espetáculo: há contemplação.
O filme representa um ramo raro do subgênero — aquele em que
a viagem no tempo é experiência sensorial e metafísica, não narrativa de
engenho.
Conclusão: atravessar o tempo com espanto
Navigator: Uma Odisséia no Tempo é um filme sobre o
encontro entre mundos que não se compreendem, mas que se refletem. Ele sugere
que o verdadeiro abismo entre épocas não é tecnológico, mas
simbólico.
Em Navigator, viajar no tempo não é dominar o futuro,
mas confrontar a estranheza do presente —
e reconhecer que todo tempo é, para alguém, um território desconhecido.
Dentro do Núcleo 1, o filme encerra o percurso do
maravilhamento ao mostrar que o espanto não pertence apenas à infância do
cinema, mas também à capacidade humana de atribuir sentido ao mundo.