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domingo, 14 de junho de 2026

Os 7 de Chicago (2020) The Trial of the Chicago 7

Filme incluso da mostra da Filmoteca Seu Manolo:



Docudrama, Drama Jurídico, Drama Político, História , Suspense

MP4 / HD / LEG: Português

AVALIAÇÕES:
IMDB: 7,7   METASCORE: 7,6
Letterboxd: 7,6   
89%Tomatometer

Sete homens foram julgados por conspiração depois dos protestos na Convenção Democrata de 1968. O julgamento virou tão circense quanto os próprios protestos.

1968 e o que estava em jogo

A Convenção Nacional Democrata de agosto de 1968, em Chicago, aconteceu num dos anos mais convulsionados da história americana recente: Martin Luther King e Robert Kennedy haviam sido assassinados meses antes, a Guerra do Vietnã consumia vidas e consenso público e milhares de manifestantes foram a Chicago para protestar contra a guerra durante a convenção que escolheria o candidato democrata à presidência. A polícia de Chicago, sob ordens do prefeito Richard Daley, respondeu com uma violência que comissões investigativas posteriores classificaram como desproporcional.

O governo federal, já sob a administração Nixon, decidiu processar oito líderes de grupos distintos por conspiração e incitação à desordem, unindo num só julgamento pessoas que mal se conheciam e que representavam visões de mundo incompatíveis entre si. Aaron Sorkin parte desse julgamento real para construir um filme sobre como o sistema de justiça pode ser instrumentalizado como ferramenta política e sobre como pessoas com objetivos diferentes precisam decidir se cooperam entre si mesmo discordando profundamente sobre estratégia.


Dois grupos, uma defesa

A tensão central do filme não é entre acusação e defesa, embora essa tensão exista e seja central também. É entre os próprios réus. Tom Hayden, interpretado por Eddie Redmayne, representa a ala da Students for a Democratic Society: organizado, estratégico, preocupado com a forma como o movimento é percebido pela opinião pública americana mainstream. Abbie Hoffman e Jerry Rubin, interpretados por Sacha Baron Cohen e Jeremy Strong, representam os Yippies: teatrais, irônicos, mais interessados em expor o absurdo do sistema através do espetáculo do que em vencer dentro das regras dele.

Sorkin constrói o atrito entre Hayden e Hoffman como o verdadeiro arco dramático do filme. Hayden vê em Hoffman um risco, alguém cujas piadas e provocações podem custar a credibilidade de toda a causa diante do júri e do público. Hoffman vê em Hayden alguém que ainda acredita que o sistema vai jogar limpo se você jogar certo, uma crença que o próprio julgamento está desmentindo em tempo real. Os dois estão certos sobre coisas diferentes e o filme não escolhe lado de forma definitiva até que os próprios eventos do julgamento forcem essa escolha.


Frank Langella e a parcialidade como personagem

O juiz Julius Hoffman, interpretado por Frank Langella, é um dos antagonistas mais diretos que Sorkin já escreveu e a base para essa caracterização vem de registros reais do julgamento. Langella constrói um juiz que confunde repetidamente os nomes dos réus, que profere comentários para a galeria, que toma decisões de forma claramente alinhada com a acusação e que trata qualquer desvio do protocolo como afronta pessoal.

A escolha de Sorkin de não suavizar essas características é o que dá ao filme sua acidez. Não há ambiguidade sobre se o julgamento foi justo. O filme mostra, com base em transcrições reais, que não foi e deixa que o absurdo da situação fale por si mesmo na maior parte do tempo.


Bobby Seale e o momento que o filme não inventa

Yahya Abdul-Mateen II interpreta Bobby Seale, cofundador do Partido dos Panteras Negras, que foi incluído no julgamento apesar de ter passado apenas algumas horas em Chicago durante os protestos e de não ter advogado de defesa presente, já que o advogado dele estava hospitalizado. Quando Seale insiste no direito constitucional de se representar ou de ter seu próprio advogado, o juiz Hoffman ordena que ele seja amarrado e amordaçado dentro da sala de audiências, na frente do júri.

Esse evento aconteceu de fato e é um dos momentos mais citados da história jurídica americana do século XX. Sorkin o filma sem dramatizar além do que os registros já documentam e a cena funciona como o ponto em que o filme deixa de ser sobre estratégia de defesa e se torna sobre o que o sistema é capaz de fazer quando decide que alguém não merece as proteções que esse mesmo sistema promete.


Mark Rylance e a defesa possível

Mark Rylance interpreta William Kunstler, o advogado de defesa que precisa representar simultaneamente clientes com visões de mundo incompatíveis diante de um juiz hostil. Rylance constrói Kunstler como um homem que entende perfeitamente as regras do tribunal e que, ao longo do filme, vai perdendo a paciência com a distância entre essas regras e a justiça que deveriam servir. É uma performance de contenção que vai se desgastando visivelmente e Rylance comunica esse desgaste sem nunca transformar Kunstler em herói inquestionável.


O final e a licença dramática

O desfecho do filme, em que Tom Hayden lê os nomes dos soldados americanos mortos no Vietnã durante a leitura da sentença, é uma invenção de Sorkin. O evento real não aconteceu exatamente assim. É o tipo de licença dramática que divide opiniões: para alguns, é o tipo de momento que Sorkin sempre busca, catártico, teatral, projetado para arrancar emoção. Para outros, é uma simplificação que oferece ao espectador um fechamento que a história real não ofereceu, já que as condenações foram posteriormente revertidas em apelação por motivos relacionados justamente à conduta do juiz Hoffman, não por um gesto de desafio no tribunal.

Vale conhecer esse contexto sem que isso diminua o impacto da cena dentro da lógica do filme. Sorkin está fazendo um argumento sobre o que aquele julgamento representou, e escolhe um símbolo que comunica esse argumento de forma direta, mesmo que não literal.


Por que o filme chegou quando chegou

Os 7 de Chicago foi lançado pela Netflix em 2020, ano marcado por protestos em massa nos Estados Unidos após a morte de George Floyd, e a ressonância entre os eventos de 1968 e os de 2020, policiamento de protestos, tensão entre estratégias de ativismo, uso do sistema judicial contra manifestantes, não passou despercebida. O filme recebeu seis indicações ao Oscar, incluindo Melhor Filme, e funciona tanto como reconstituição histórica quanto como espelho de um padrão que se repete sempre que o Estado decide que dissidência organizada é, em si, um crime.









quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

O Caso Richard Jewell (2019) Richard Jewell - 2 h 11 min

O segurança Richard Jewell salva milhares de vidas de uma explosão de bomba nos Jogos Olímpicos de 1996, mas é confundido por jornalistas que falsamente relatam que ele é um terrorista.


O Caso Richard Jewell (2019) - IMDb
Dir: Clint Eastwood
Crime Verdadeiro, Docudrama, Biografia


MP4 / HD- / LEG: Português

IMDB: 7,5   METASCORE: 6,8
77%Tomatometer300 Reviews   96%Popcornmeter


O Caso Richard Jewell é um dos filmes mais claros, diretos e moralmente indignados da fase final de Clint Eastwood. Retomando um tema recorrente de sua obra — o indivíduo esmagado por instituições que precisam preservar sua própria imagem — o filme constrói um drama sobre injustiça moderna, onde a verdade não é derrotada por maldade explícita, mas por conveniência sistêmica, vaidade institucional e narrativa midiática apressada.

É um filme sobre como a reputação pode ser destruída mais rápido do que qualquer investigação consegue corrigi-la.


Um herói inconveniente

Richard Jewell (Paul Walter Hauser) é um segurança meticuloso, orgulhoso de regras, protocolos e procedimentos. Ele acredita genuinamente na lei, na autoridade e no funcionamento correto das instituições. Quando identifica uma mochila suspeita durante os Jogos Olímpicos de Atlanta, em 1996, e ajuda a salvar vidas, Jewell age exatamente como foi treinado.

O problema é que ele não se parece com um herói.
É tímido, acima do peso, socialmente ingênuo, excessivamente obediente. Eastwood deixa claro: Jewell não ameaça o sistema por fazer algo errado, mas por não se encaixar na imagem confortável do herói.


Da medalha ao suspeito

O coração do filme está na virada brutal de percepção: o salvador se torna suspeito. Não por provas, mas por perfil psicológico, conjecturas e pressa institucional.

Eastwood expõe um mecanismo perverso:

  • primeiro constrói-se uma narrativa
  • depois buscam-se fatos que a sustentem

A investigação não parte da evidência, mas da necessidade de encontrar um culpado rapidamente — alguém substituível, frágil, isolado.


A mídia como tribunal


O filme é implacável com o papel da imprensa. Não como entidade maligna conspiratória, mas como máquina de aceleração. A exclusividade vale mais do que a cautela; a suspeita, mais do que a confirmação.

Uma vez publicado, o erro se torna irreversível. Eastwood mostra como a mídia não precisa mentir — basta antecipar conclusões.

A pergunta central passa a ser:

como se defende alguém quando a opinião pública já decidiu?


Paul Walter Hauser: dignidade sem caricatura

A atuação de Paul Walter Hauser é essencial para o impacto do filme. Ele constrói Richard Jewell com humanidade absoluta, evitando tanto o sentimentalismo quanto a ridicularização.

Jewell não é santo nem tolo. Ele é alguém que:

  • confia demais
  • fala demais
  • acredita demais

E justamente por isso se torna vulnerável. Eastwood filma sua humilhação pública com respeito silencioso, sem transformar o sofrimento em espetáculo.


Autoridade, vaidade e autoproteção


O FBI é retratado não como vilão unificado, mas como instituição sob pressão, preocupada com reputação, hierarquia e controle narrativo. A verdade torna-se secundária diante da necessidade de demonstrar eficiência.

Esse retrato dialoga diretamente com:

  • A Troca (instituições contra indivíduos)
  • Sully (o profissional sob suspeita)
  • Crime Verdadeiro (erro irreversível do sistema)

Eastwood sugere que o erro institucional mais comum não é a crueldade, mas a recusa em admitir falhas.


A mãe como último abrigo

A relação entre Richard e sua mãe, Bobi Jewell (Kathy Bates), é o núcleo emocional do filme. Ela representa a dignidade silenciosa, a resistência cotidiana e a confiança inabalável quando tudo desmorona.

Sua atuação evita o melodrama e reforça um ponto central do cinema de Eastwood: o heroísmo real quase nunca é público — ele acontece em silêncio, em espaços privados.


Um final sem triunfo espetacular


Sem recorrer a spoilers explícitos, o desfecho de O Caso Richard Jewell reafirma a ética eastwoodiana: a correção do erro não apaga o dano. A verdade pode emergir, mas a reputação nunca retorna intacta.

O sistema segue funcionando.
A mídia segue adiante.
O indivíduo fica com as marcas.



Lugar na obra de Clint Eastwood

O Caso Richard Jewell é um dos filmes mais coerentes com o cinema tardio de Eastwood:

  • sintetiza sua crítica às instituições
  • reafirma a desconfiança diante de narrativas oficiais
  • reforça sua empatia pelos homens comuns

É um filme menos ambíguo do que Mystic River ou J. Edgar, mas não menos rigoroso.


Conclusão

O Caso Richard Jewell é um filme sobre o perigo de confundir eficiência com verdade. Clint Eastwood realiza aqui um cinema de denúncia serena, mostrando que o maior risco para a justiça não é o criminoso desconhecido, mas a pressa em encerrar uma história.

É um cinema que lembra, com desconforto necessário, que em sociedades midiatizadas:
a verdade não precisa ser derrotada — basta ser ultrapassada pela próxima manchete.

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sábado, 13 de setembro de 2025

Os Suspeitos (2013) Prisoners - 2 h 33 min

Mostra Filmes Live Action do IMDB Top 250 - BLOCO 3 (#101 a #150)

Quando a filha de Keller Dover e sua amiguinha desaparecem, ele decide investigar o caso por sua conta enquanto a polícia segue múltiplas pistas e a pressão para resolver o caso aumenta.


Os Suspeitos (2013) - IMDb
Dir: Denis Villeneuve
Drama Psicológico, Suspense Psicológico, Crime, Mistério


MP4 / HD / LEG: Português

IMDB: 8,2   METASCORE: 7,0
81%Tomatometer248 Reviews   87%Popcornmeter


A Justiça Quando a Moral Entra em Colapso

Os Suspeitos (Prisoners, 2013), dirigido por Denis Villeneuve, é um thriller moral sombrio que investiga até onde alguém pode ir quando o medo substitui a lei — e quando a certeza desaparece por completo.


Um Crime que Desorganiza o Mundo


O desaparecimento de duas crianças em uma pequena cidade transforma o cotidiano em terreno de pânico e suspeita. Villeneuve não trata o crime como quebra-cabeça elegante, mas como força corrosiva: a violência inicial se espalha, contaminando decisões, relações e convicções éticas.


Dois Caminhos para a Verdade

A narrativa se estrutura a partir de dois personagens opostos:

  • um pai desesperado, que acredita que agir é mais importante do que esperar;
  • um detetive metódico, que confia na investigação e nos limites institucionais.

O filme não apresenta essa oposição como simples. Ambos erram, ambos acertam parcialmente, e nenhum sai ileso. A pergunta central não é “quem fez?”, mas o que a busca pela verdade faz com quem a conduz.


Violência, Fé e Justificativa Moral

Os Suspeitos confronta diretamente a ideia de que fins nobres justificam meios extremos. A fé religiosa do pai não surge como conforto, mas como campo de conflito interno: ela sustenta sua resistência, mas também oferece racionalização para a violência. O filme não absolve nem demoniza — expõe.


Espaço, Clima e Asfixia


A fotografia de Roger Deakins transforma chuva, lama e escuridão em estado psicológico. Os ambientes são fechados, úmidos, opressivos. O mundo parece permanentemente pesado, como se a culpa estivesse suspensa no ar.


Crianças, Culpa e Transmissão do Mal

Um dos aspectos mais perturbadores do filme é a forma como o trauma se perpetua. A violência não termina no crime inicial; ela se replica nos adultos, criando novos prisioneiros — emocionais, morais e físicos. O título se expande: todos estão presos a algo.


Um Final Sem Conforto


O desfecho recusa a clareza absoluta. A justiça formal se aproxima, mas não resolve tudo. Resta uma ambiguidade inquietante: o reconhecimento de que certas escolhas, mesmo motivadas pelo amor, não podem ser desfeitas.


O Filme na Obra de Villeneuve

Prisoners antecipa temas centrais do cinema de Villeneuve: ambiguidade moral, obsessão, sistemas que falham e personagens consumidos pela busca de sentido. É um filme que exige posicionamento do espectador — e não oferece respostas fáceis.


Em síntese

Os Suspeitos afirma que a linha entre justiça e barbárie não é fixa — ela se move conforme o medo cresce. Ao final, o maior horror não é o crime cometido, mas a possibilidade de que, diante do desespero, possamos reconhecer a violência como necessária.

 


sexta-feira, 12 de setembro de 2025

E Aí, Meu Irmão, Cadê Você? (2000) O Brother, Where Art Thou? - 1 h 47 min

MOSTRA RETROSPECTIVA IRMÃOS COEN — HISTÓRIAS DE UM MUNDO TORTO

O filme é uma adaptação livre da Odisséia de Homero, ambientada no sul dos Estados Unidos durante a Grande Depressão. A história segue três prisioneiros que escapam e embarcam em uma jornada épica em busca de um tesouro escondido, enquanto são perseguidos por um caçador de recompensas.


E Aí, Meu Irmão, Cadê Você? (2000) - IMDb
Dir: Joel Coen, Ethan Coen
Comédia de Humor Negro, Filme de Assalto, Drama de Época, Missão, Sátira, Roadmovie, Aventura


MP4 / HD / LEG: Português

IMDB: 7,7   METASCORE: 6,9
78%Tomatometer155 Reviews   89%Popcornmeter


Temas e Estilo

  • Música: O filme é conhecido por sua trilha sonora repleta de música folk e bluegrass, que se tornou muito popular.
  • Humor: O humor é característico dos irmãos Coen, com diálogos rápidos e situações absurdas.
  • Referências Culturais: O filme faz várias referências à cultura do sul dos EUA e à literatura clássica.

Recepção

  • Crítica: O filme foi bem recebido pela crítica, elogiado por sua originalidade e performances.
  • Prêmios: Ganhou o Oscar de Melhor Trilha Sonora e recebeu várias indicações em outras categorias.

Curiosidades

  • A trilha sonora do filme foi um grande sucesso, ajudando a reviver o interesse pela música folk americana.
  • Os irmãos Coen foram inspirados pela Odisséia de Homero, mas tomaram muitas liberdades criativas.

Conclusão

"E Aí, Meu Irmão, Cadê Você?" é uma obra que combina aventura, comédia e música, oferecendo uma visão única da luta e resiliência durante um período difícil da história americana. Para quem gosta de histórias com um toque de humor e reflexão, este filme é uma ótima escolha!