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segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Simplesmente Alice (1990) Alice - 1 h 46 min

Mostra Retrospectiva Woody Allen - Risos, Neurose e Nova York

Uma dona de casa mimada de Manhattan reavalia sua vida depois de visitar um curandeiro de Chinatown.


Simplesmente Alice (1990) - IMDb
Dir: Woody Allen
Comédia, Romance


MP4 / HD / LEG: Português

IMDB: 6,6   METASCORE: 6,7
71%Tomatometer28 Reviews   56%Popcornmeter


Simplesmente Alice é um dos filmes mais delicados, femininos e formalmente encantados de Woody Allen. Misturando comédia romântica, realismo mágico e fábula moral, o longa propõe uma reflexão suave — mas incisiva — sobre identidade, desejo, culpa e autonomia feminina, temas raramente tratados com tamanha ternura na obra do diretor.

Uma heroína em estado de adormecimento

Alice Tate vive cercada por conforto, luxo e convenções sociais. Casada com um homem rico, habitando um mundo elegante e protegido, ela parece ter tudo — exceto consciência de si. Sua vida é organizada para funcionar, não para ser sentida.

Allen constrói Alice como personagem em estado de sonambulismo existencial: ela cumpre papéis, repete gestos, aceita regras, mas não escolhe.



Magia como ferramenta de autoconhecimento


A virada do filme ocorre quando Alice passa a consultar um curandeiro oriental, que lhe oferece ervas mágicas capazes de produzir efeitos sobrenaturais: invisibilidade, revelação do passado, leitura do desejo alheio.

Esses elementos mágicos não servem como fantasia escapista, mas como atalhos simbólicos. A magia revela aquilo que a vida social oculta: hipocrisia, repressão, infidelidade, medo e desejo.

Diferente do tom sombrio de Crimes e Pecados ou Match Point, aqui o fantástico funciona como instrumento de libertação, não de punição.

Invisibilidade feminina — literal e simbólica

Uma das imagens mais potentes do filme é a invisibilidade de Alice. Invisível, ela observa o mundo como realmente é — e percebe o quanto sempre foi socialmente invisível, apesar de estar no centro de tudo.

Allen articula aqui uma crítica sutil ao papel da mulher na elite urbana: presente como ornamento, ausente como sujeito.




Amor, tentação e escolha


Alice se vê dividida entre a segurança conjugal e a possibilidade de um amor mais verdadeiro. Mas o filme evita tratar essa escolha como simples dilema romântico. A questão central não é com quem ficar, mas quem se tornar.

Amar, em Simplesmente Alice, implica risco moral e perda de conforto. Permanecer exige anestesia emocional. A decisão final não é heroica nem trágica — é ética e silenciosa.

Nova York como conto moral


A cidade aparece menos neurótica do que em outros filmes de Allen. Aqui, Nova York é espaço de passagem, de encontros e de revelações discretas. O brilho urbano contrasta com a introspecção da protagonista, reforçando o caráter de fábula contemporânea.

Um Woody Allen incomumente gentil


O tom do filme é notavelmente compassivo. Allen abandona o sarcasmo corrosivo e o pessimismo moral para adotar uma postura afetuosa e esperançosa, ainda que sem ingenuidade. A transformação de Alice não é espetacular — é gradual, íntima, imperfeita.

Esse gesto torna o filme singular dentro de sua filmografia.

Um final de escolha consciente


O desfecho recusa tanto a punição quanto a fantasia romântica plena. Alice escolhe abrir mão de privilégios para recuperar algo mais frágil e mais valioso: autonomia moral. Não há garantia de felicidade — apenas a possibilidade de viver sem autoengano.

Síntese final

Simplesmente Alice é uma fábula moderna sobre despertar e escolha. Um filme que utiliza o fantástico para falar de opressões cotidianas e que trata a emancipação feminina com delicadeza rara.

Na obra de Woody Allen, ocupa um lugar especial:
um momento em que o cinema abandona a neurose masculina para escutar, com atenção e respeito, a jornada interior de uma mulher aprendendo a existir por conta própria. 

sábado, 29 de novembro de 2025

A Última Sessão de Cinema (1971) The Last Picture Show - 1 h 58 min

Em 1951, um grupo de estudantes do ensino médio chegou à idade adulta em uma cidade desolada, isolada e atrofiada no norte do Texas que está morrendo lentamente, tanto cultural como economicamente.


A Última Sessão de Cinema (1971) - IMDb
Dir: Peter Bogdanovich
Amadurecimento, Drama Psicológico, Romance


MP4 / HD / LEG: Português

IMDB: 8,0   METASCORE: 9,3
98%Tomatometer115 Reviews   89%Popcornmeter


A Última Sessão de Cinema (1971) – The Last Picture Show

Roteiro: Larry McMurtry & Peter Bogdanovich (baseado no romance de McMurtry)
Elenco: Timothy Bottoms, Jeff Bridges, Cybill Shepherd, Ben Johnson, Cloris Leachman, Ellen Burstyn


🌟 Um dos filmes mais importantes, sensíveis e melancólicos da New Hollywood

A Última Sessão de Cinema é uma obra-prima da virada dos anos 1970. Peter Bogdanovich criou um filme à primeira vista simples, mas profundamente devastador, que captura o fim das ilusões de uma geração e o esvaziamento emocional de uma pequena cidade do Texas.

Rodado em preto e branco em plena era da cor, o filme já nasce como um gesto de resistência à estética comercial, reforçando seu tom nostálgico, triste e contemplativo. É considerado um dos maiores filmes da New Hollywood e uma das obras mais importantes do cinema americano.


🎬 Enredo



Na pequena e decadente cidade de Anarene, Texas, início dos anos 1950, seguimos três jovens:

  • Sonny Crawford (Timothy Bottoms), sensível e perdido
  • Duane Jackson (Jeff Bridges), impulsivo e imaturo
  • Jacy Farrow (Cybill Shepherd), bela, rica e vazia emocionalmente

Eles vivem em meio a:

  • amores frustrados
  • descobertas sexuais dolorosas
  • famílias desestruturadas
  • carreiras que nunca vão acontecer
  • amizades que se rompem devagar

O cinema local — o picture show — funciona como último refúgio da comunidade, uma metáfora para o sonho americano que está morrendo. Quando fecha suas portas, simboliza a morte definitiva de um modo de vida.


🎥 Estética e Linguagem

1. Fotografia em preto e branco

O diretor de fotografia Robert Surtees cria imagens que remetem à tradição clássica do cinema americano, mas com profundidade emocional moderna.O preto e branco reforça:

  • melancolia
  • sensação de passado perdido
  • clima de fantasma de uma América falida

2. Ritmo contemplativo

Bogdanovich recusa melodrama e facilitações.
A narrativa se desenrola devagar, acompanhando os silêncios, vazios e frustrações das personagens.

3. Influência de John Ford e do cinema clássico

Mas reinterpretado sob o olhar cético e desencantado da New Hollywood.

4. Realismo emocional

Personagens não mudam por epifanias.
A vida segue, dolorosa e ambígua, como no mundo real.

5. Direção de atores impecável

As performances são grandiosas e íntimas:

  • Cloris Leachman (Oscar de Atriz Coadjuvante)
  • Ben Johnson (Oscar de Ator Coadjuvante)
  • Jeff Bridges se tornou astro após o filme

🔍 Temas Centrais

  • Fim da inocência
  • Juventude e frustração
  • Sexualidade como desorientação
  • Solidão nas pequenas cidades
  • Meio-oeste americano em decadência
  • Nostalgia e perda
  • Sonho americano como ruína
  • O fechamento do cinema como morte simbólica

Anarene é uma cidade morrendo — e seus habitantes também.
É um retrato brutal e poético da América esquecida.


🏆 Impacto e Legado

  • Indicado a 8 Oscars, vencendo 2.
  • Aclamado unanimemente pela crítica.
  • Considerado um dos melhores filmes dos anos 1970.
  • Fez de Bogdanovich um dos cineastas mais promissores da sua geração.
  • Revisado como uma das maiores obras da New Hollywood.

O filme também é lembrado como um dos retratos mais verdadeiros da adolescência no cinema — sem idealização, sem glamour, sem heroísmo. Apenas seres humanos tentando sobreviver ao tédio, à tristeza e ao fim das ilusões.


🎯 Conclusão

A Última Sessão de Cinema é poesia a partir da melancolia.
Um filme sobre o que desaparece, sobre a vida que escapa pelas mãos, sobre o passado que não volta.

Um dos pontos mais altos da New Hollywood e uma obra-prima imortal do cinema.