Filme incluso na mostra da Filmoteca Seu Manolo:
1953, o ano em que tudo mudou
Torrentes de Paixão chegou aos cinemas no início de 1953, meses antes de Os Homens Preferem as Loiras transformar Marilyn Monroe na maior estrela do mundo. Nos créditos, o nome dela vem depois do de Jean Peters e Joseph Cotten, os protagonistas oficiais da história. A 20th Century Fox ainda estava testando até onde aquela atriz conseguia carregar um filme e Torrentes de Paixão funciona, em retrospecto, como o experimento que confirmou a resposta.O filme é um thriller passado nas cataratas do Niágara, com um casal em lua de mel, Ray e Polly Cutler, hospedado no mesmo motel que George e Rose Loomis, casal cujo casamento já está em ruínas antes mesmo de a história começar. Rose tem um amante. George tem cicatrizes de guerra que o roteiro nunca explica em detalhe, mas que a performance de Cotten deixa visíveis em cada gesto contido. As cataratas, filmadas em Technicolor por Joseph MacDonald, são tratadas como força que amplifica tudo: o som constante, a água que nunca para, a sensação de estar perto de algo que pode engolir qualquer coisa.
Rose Loomis e o nascimento de um tipo
Rose é o primeiro papel de Monroe a explorar abertamente a sensualidade como ameaça, não como charme. Ela aparece pela primeira vez dormindo, indiferente ao barulho e à movimentação do motel, e a câmera de Hathaway a filma com uma demora que comunica imediatamente o que o roteiro vai confirmar depois: Rose é o centro de gravidade de qualquer cena em que está, e todo mundo ao redor dela sabe disso, inclusive ela.O plano de Rose é simples na superfície e cruel na execução: o amante deveria matar George durante uma excursão até a base das cataratas, criando a aparência de acidente. O que torna a personagem interessante não é a maldade do plano, mas a naturalidade com que Rose o conduz, sorrindo para Polly, fingindo preocupação com o marido, vivendo a vida normal do motel enquanto espera a notícia da morte dele. Monroe constrói essa naturalidade sem nenhum sinal exterior de culpa, o que torna Rose mais perturbadora do que uma vilã caricatural seria.
George e a guerra que não terminou
Joseph Cotten interpreta George como um homem que sobreviveu a algo, provavelmente a Segunda Guerra, e que voltou incapaz de confiar, de relaxar, de habitar a própria vida com normalidade. A instabilidade de George é o motor real do filme: quando o plano de Rose dá errado e é o amante quem morre, George, presumido morto, na verdade sobrevive, e a partir daí o filme se torna sobre o que um homem já fragilizado faz quando descobre que a própria mulher tentou matá-lo.A cena em que George confronta Rose no hospital, sussurrando, contido, é mais aterrorizante do que qualquer grito poderia ser. Cotten entrega um homem que processou a traição em silêncio e que chegou a uma conclusão que ele mesmo trata como inevitável.
A caminhada e o que ela estabeleceu
Existe uma cena em Torrentes de Paixão que se tornaria referência: Rose caminhando por uma rua, de costas para a câmera, num vestido justo, por um tempo que se estende além do que qualquer necessidade narrativa exigiria. A imprensa da época chamou de "a caminhada mais longa do cinema", e a cena foi desenhada deliberadamente para isso, para que o público olhasse, sem pressa, sem interrupção.É o tipo de cena que, vista hoje, antecipa exatamente o mecanismo que definiria o resto da carreira de Monroe: o corpo dela como atração que justifica, por si só, segundos de tela que nenhum roteiro pediria de qualquer outro ator.
Onde o instrumento começa
Torrentes de Paixão termina com George estrangulando Rose na torre do carrilhão, e morrendo pouco depois, ao tentar escapar num barco que é sugado pelas cataratas. É um final de tragédia clássica, dois personagens destruídos pela mesma força que os trouxe até ali. Mas o que o filme deixou, além do enredo, foi a primeira demonstração pública de como Hollywood pretendia usar Marilyn Monroe: como presença que a câmera trata com uma atenção diferente de tudo ao redor, justificada pela narrativa como perigo, mas comunicada ao espectador como prazer.Meses depois, a mesma atenção seria reembalada como comédia, como charme, como a loira que todo homem rico desejaria. A ferramenta era a mesma. Só a moldura mudaria.