CRÍTICA LIVRE DE CINEMA indica
Comédia, Drama
Dois homens que o mundo separou em tudo descobrem que a
distância entre eles é menor do que parece.
A adaptação e seu peso
Yan Yana chega com o peso de uma das missões mais difíceis
do cinema: adaptar um filme que virou fenômeno cultural global. Intouchables, o
original francês de 2011, ultrapassou 400 milhões de dólares em bilheteria
mundial e entrou em listas de filmes mais vistos de todos os tempos em vários
países. Mert Baykal não tenta escapar dessa sombra, e essa honestidade é tanto
virtude quanto limitação: o filme é fiel ao original num grau que a crítica
turca apontou como próximo da cópia cena a cena, o que remove parte do
argumento sobre o que a adaptação acrescenta. O que resta é a pergunta sobre o
que a Turquia específica traz para uma história que foi concebida na França e
já foi readaptada em vários países.
Haluk Bilginer e a dignidade do imóvel
Refik, o aristocrata paraplégico interpretado por Haluk Bilginer, é o personagem que o filme precisa que o espectador respeite antes de amar, e Bilginer entrega essa sequência com uma precisão que justifica o casting. O ator, conhecido internacionalmente por seu trabalho na série Şahmaran e seu Prêmio Emmy por Şükran, constrói Refik com uma contenção que torna a vulnerabilidade física mais visível sem torná-la objeto de pena. Bilginer entendeu que o personagem precisa ter poder mesmo imóvel, e que esse poder não vem exatamente da sua condição social, mas da presença, que ele entrega com consistência ao longo das mais de duas horas do filme.
Feyyaz Yiğit e o desafio da comparação
Ferruh, o cuidador de origem humilde interpretado por Feyyaz Yiğit, que também assina o roteiro junto com Aziz Kedi e Baykal, carrega o peso adicional da comparação com Omar Sy, cuja performance em Intouchables foi unanimemente celebrada. A crítica turca dividiu-se sobre Yiğit: parte do Letterboxd aponta que o ator não convence completamente no papel, que há uma qualidade de esforço visível onde o original parecia espontâneo. O que funciona é a energia física do personagem, a dobra entre o humor e a vulnerabilidade que o roteiro pede, mas que não atinge a naturalidade que Omar Sy tornava parecer inevitável.
Istambul como contexto e como argumento
O deslocamento da história de Paris para a Turquia não é
cosmético. A distância de classe entre Refik e Ferruh tem textura específica no
contexto turco, com suas divisões regionais, étnicas e econômicas que diferem
das francesas de formas que o roteiro às vezes explora e às vezes deixa passar.
Baykal filma Istambul com uma atenção que valoriza a cidade sem transformá-la
em cartão postal, e há momentos em que o ambiente urbano turco adiciona algo
que o original não tinha, uma qualidade de tensão social específica que a
França de 2011 não carregava da mesma forma.
O IMAX como escolha e como argumento
Yan Yana é o primeiro filme turco lançado em formato IMAX, e
essa escolha não é apenas marketing. Baykal usou o formato para ampliar a
presença visual de um filme que, na sua essência, é sobre dois homens numa
sala, e o resultado é uma experiência que justifica a tela grande de formas que
nem todo drama consegue. As sequências ao ar livre, especialmente as que
envolvem o parapente que define o universo de Refik antes do acidente, ganham
uma dimensão física que o IMAX serve com eficiência.
Onde assistir e o que esperar
A adaptação como espelho cultural
Yan Yana é mais interessante como fenômeno cultural do que
como obra autônoma. O fato de que uma história sobre a amizade improvável entre
um rico paraplégico e um cuidador de origem humilde ressoou com mais de 2
milhões de turcos em 2025 diz algo sobre o que esse público estava procurando
num momento específico do país. Baykal pode não ter acrescentado muito ao que
Intouchables já havia dito, mas identificou com precisão o momento certo para
dizer a mesma coisa em turco, e esse timing é ele mesmo uma forma de
inteligência cinematográfica.