Mostrando postagens com marcador CLCindica. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador CLCindica. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 8 de maio de 2026

Dois Procuradores (2025) Zwei Staatsanwälte - 1 h 58 min

Filme incluso na série CLC INDICA

Na URSS de 1937, o promotor Kornev descobre uma carta não destruída de um prisioneiro que revela corrupção no NKVD. Sua busca pela verdade se torna perigosa.


Dois Procuradores (2025) - IMDb
Dir: Sergey Loznitsa
Drama Jurídico, Biografia, Crime, História, Mistério, Suspense


MP4 / HD / LEG: Inglês e português traduzido

AVALIAÇÕES:
IMDB: 7,1   METASCORE: 8,5
Letterboxd: 6,8   CLC Balanced Rating: 7,6
97%Tomatometer78 Reviews

Um jovem promotor chega ao campo de trabalho stalinista convicto de que o sistema ainda funciona. O que encontra é a prova de que nunca funcionou.


Loznitsa e a obsessão com o totalitarismo


Sergei Loznitsa é um dos cineastas mais rigorosos e mais politicamente corajosos do cinema europeu contemporâneo. Nascido na Ucrânia soviética, radicado na Alemanha, fez documentários sobre a Segunda Guerra, sobre Maidan, sobre Babi Yar, e ficções sobre o Gulag e a colaboração nazista. Dois Procuradores é mais um capítulo dessa investigação obsessiva sobre o que o totalitarismo faz com as pessoas que o habitam: não apenas com as vítimas, mas com os funcionários, os burocratas, os crentes que mantêm o sistema funcionando por convicção ou por medo. Através desta adaptação, Loznitsa expõe o poder destrutivo da burocracia sobre o conceito de justiça, que sob Stalin se tornou sinônimo de opressão. 

Demidov e a origem autobiográfica


O filme é baseado na novela homônima de Georgy Demidov, escritor soviético que foi enviado aos campos de trabalho de Kolyma em 1937 e sobreviveu anos de prisão no sistema Gulag, enquanto suas obras permaneceram enterradas sob a censura soviética. Essa origem importa: o que Kornyev, o jovem promotor protagonista, vai descobrir no campo é o que Demidov viveu na carne. Loznitsa usa essa proximidade entre autor e material para dar ao filme uma textura de documento que vai além da reconstituição histórica. Não é apenas um filme sobre o passado soviético. É, principalmente, um arquivo do que o poder faz quando não tem limite. 


Kornyev e a inocência como armadilha

Alexander Kuznetsov interpreta Kornyev com uma convicção que o filme usa como instrumento de tensão: quanto mais o espectador entende o sistema que Kornyev está tentando navegar, mais dolorosa se torna a persistência do personagem em acreditar que ele pode funcionar. Quando Kornyev chega à prisão com uma nota que deveria ter sido destruída, é preciso se perguntar mais sobre o pesadelo que aguarda seu idealismo ingênuo do que sobre como o bilhete escapou da destruição. Loznitsa trata Kornyev como alguém que foi formado para acreditar no que acredita, e que descobre que essa formação era parte do mecanismo de controle. 

A burocracia como horror

A trama não poderia ser mais simples: um jovem promotor cheio de ambição e boa vontade milagrosamente chega a um caso e ao campo de prisioneiros para entrevistar seu predecessor. Convicto de que está no caminho certo e trabalhando dentro de um sistema honesto, ele persegue seu objetivo de remediar as injustiças. O que ele não sabe é que está operando num mundo que já se tornou inferno há muito tempo. Loznitsa filma a burocracia stalinista com a precisão de Kafka: cada porta que Kornyev abre revela outra porta, cada responsável redireciona para outro responsável, cada confirmação produz uma negação equivalente. O horror não está na violência explícita mas na normalidade com que o sistema processa a destruição de pessoas como se fossem papéis mal arquivados. 

Oleg Mutu e a fotografia como argumento

Com composições austeras e quietude perturbadora, a câmera captura o colapso da consciência dentro de um sistema que recompensa o silêncio acima da verdade, envolto em tons cinza-azulados que envolvem o espectador numa atmosfera de sufocamento. Oleg Mutu, o fotógrafo de 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias de Cristian Mungiu e de vários outros filmes essenciais do cinema do leste europeu, usa a luz com uma austeridade que é ela mesma um comentário sobre o ambiente: num sistema onde a verdade foi suprimida, a luz também é administrada com parcimônia. 

O ritmo como experiência

As cenas de vinte minutos ou mais de diálogo puro envolvem o espectador na psicologia dos ideologicamente possuídos. Loznitsa não o ritmo lento como argumento sobre o que a burocracia totalitária faz com o tempo. Kornyev espera. É transferido. Espera de novo. Cada espera é uma demonstração de poder. Apesar de o ritmo ser extremamente lento, o filme não é entediante. Você não tem tempo de olhar para o celular enquanto o filme passa, o que fala do gênio do diretor e da habilidade do cinematógrafo.

Onde assistir

Dois Procuradores estreou na competição principal de Cannes em maio de 2025 e foi lançado na Alemanha em fevereiro de 2026. Está disponível no Telecine, para locação no Prime Video e na Filmoteca Seu Manolo. O filme exige do espectador a disposição de habitar o tempo de Kornyev, que é o tempo da burocracia: lento, opaco e deliberadamente desumanizante. Quem chega esperando thriller político com ritmo convencional vai precisar reajustar completamente as expectativas.

Por que a CLC Indica

Dois Procuradores é exatamente o tipo de filme que a série existe para indicar: qualidade comprovada em Cannes, diretor de prestígio internacional, praticamente invisível no Brasil, e um argumento sobre poder e burocracia que tem a relevância contemporânea que Loznitsa nunca precisou declarar explicitamente. É um filme conciso, duro e bem construído que deixa o espectador com sensação de impotência, mas também com renovada consciência sobre como o poder descontrolado pode destruir quem deveria sustentá-lo. Num momento em que sistemas institucionais ao redor do mundo estão sendo testados de formas que lembram o que o filme retrata, Dois Procuradores funciona como aviso.


Se você chegou até aqui, o Instagram da Filmoteca Seu Manolo foi feito para você. Curadoria, mostras temáticas e análises de cinema todo dia. Veja o post deste filme no Instagram


quinta-feira, 30 de abril de 2026

Primavera (2025) - 1 h 50 min

Filme incluso na série CLC INDICA




Primavera (2025) - IMDb
Dir: Damiano Michieletto
Biografia, Drama, História, Música

MP4 / HD / LEG: Inglês e português traduzido

IMDB: 7,1
Letterboxd: 7,2


Vivaldi não salva Cecilia. A música que ele ensina é que salva. E há uma diferença enorme entre as duas coisas.

Um diretor de ópera no cinema


Damiano Michieletto é um dos diretores de ópera mais respeitados da Europa, com encenações no Teatro alla Scala e na Royal Opera House, e Primavera é seu primeiro longa-metragem. Essa origem importa porque define a lógica do filme: Michieletto não trata a música como trilha sonora nem como ornamento de época. Trata como força dramática primária, o elemento que move personagens, que rompe silêncios, que diz o que as palavras do roteiro não alcançam. A câmera de Daria D'Antonio e a montagem de Walter Fasano, habitual colaborador de Luca Guadagnino, constroem um ritmo visual que responde ao ritmo musical com uma coerência que o cinema raramente consegue quando o assunto é o universo clássico.

Veneza como organismo, não como cartão postal

Michieletto filma a Veneza do século XVIII com uma brutalidade discreta que recusa a nostalgia decorativa. A cidade que aparece em Primavera é um organismo movido por dinheiro, hierarquia e barganha: os patronos escolhem onde gastar seus domingos com a frieza de investidores, o orfanato da Pietà administra suas órfãs como ativos, e a beleza das concertinas que emergem desse ambiente é inseparável da opressão que as produz. A fotografia tem uma qualidade pictórica que remete à pintura veneziana do período, mas sem o brilho contemplativo que esse referencial costuma trazer. Tintoretto, não Ticiano: luz em movimento, diagonais ousadas, drama resolvido num gesto único.


Cecilia e o peso de ser um instrumento

Tecla Insolia interpreta Cecilia com uma presença que sustenta o filme nos momentos em que o roteiro vacila. Cecilia sabe desde o início que é uma commodity: nasceu no orfanato, toca violino porque o orfanato precisa de sua música para atrair doadores, e seu destino fora dos muros é o casamento com um soldado que ela não escolheu. O arco dela não é de descoberta do talento, que já existe e é reconhecido, mas de descoberta do valor desse talento como ferramenta de agência num mundo que não previu que ela pudesse usá-lo assim. Insolia carrega essa consciência crescente com uma economia expressiva que o filme respeita sem sublinhar.

Vivaldi como catalisador, não como herói

Michele Riondino interpreta Vivaldi como um homem que já foi genial e sabe disso, que chega à Pietà diminuído e precisando tanto da orquestra quanto ela precisa dele. A decisão de não romantizar a figura histórica é o acerto central do roteiro de Michieletto e Ludovica Rampoldi: Vivaldi não é o mestre iluminado que liberta a pupila. É alguém que encontra em Cecilia um espelho de sua própria luta com o reconhecimento e as limitações impostas pelo sistema. A relação entre os dois funciona porque nenhum dos dois é redentor do outro. São dois artistas presos em estruturas diferentes que se reconhecem.

A música como argumento, não como ilustração

A trilha original de Fabio Massimo Capogrosso, construída em diálogo com as composições reais de Vivaldi, é parte inseparável da experiência do filme. Michieletto usa a música com a mesma intenção com que a usaria numa encenação de ópera: para expressar o que os personagens não podem dizer, para contradizer o que estão dizendo, para puxar a cena para frente quando a narrativa ameaça parar. Há momentos em que o filme abandona a lógica do drama realista e entra num território mais próximo do musical sem declarar isso, e nesses momentos Primavera encontra sua voz mais própria.

Onde assistir e o que esperar

Primavera estreou no Festival de Toronto em setembro de 2025 e foi lançado na Itália em dezembro do mesmo ano pela Warner Bros. Está disponível em múltiplas plataformas internacionais segundo o Plex, com distribuição confirmada em mais de 50 países. No Brasil, verificar disponibilidade nas plataformas de streaming europeias com acesso regional. Está disponível na Filmoteca Seu Manolo. O filme tem 111 minutos e um ritmo que exige do espectador disposição para habitar o ambiente antes de julgar a narrativa. Espectadores que chegam esperando um cinebiografia convencional de Vivaldi vão precisar reajustar as expectativas: ele é personagem secundário numa história que pertence a Cecilia.


Arte como única saída possível

Primavera pertence a uma tradição de filmes que entendem a criação artística não como privilégio ou vocação romântica, mas como a única forma de existência digna disponível para quem não tem acesso a nenhuma outra. Cecilia não escolhe a música porque a ama acima de tudo. A escolhe porque é o único território onde as regras que a aprisionam têm uma brecha. Michieletto, vindo do universo da ópera onde essa tensão entre disciplina e liberdade é o próprio material de trabalho, filma essa brecha com a precisão de quem a conhece por dentro.

quarta-feira, 29 de abril de 2026

5 Centímetros por segundo (2025) Byosoku 5 senchimetoru - 2 h 3 min

Filme incluso na série CLC indica

Takaki conta a história de sua vida à medida que os tempos de mudança testam seus sentimentos românticos.


Drama, Romance

MP4 / HD- / LEG: Inglês e português traduzido

IMDB: 7,0
Letterboxd: 7,0



A distância entre duas pessoas não se mede em quilômetros. Se mede em quanto tempo leva para uma pétala de cerejeira chegar ao chão.


O peso de adaptar o intraduzível

Quando Makoto Shinkai lançou o anime original em 2007, criou algo que parecia resistir à transposição para o live-action: uma obra cuja beleza dependia da animação como linguagem, do irreal como caminho para o real. Yoshiyuki Okuyama, diretor vindo do universo dos videoclipes, aceita esse desafio sem fingir que é simples. O resultado é um filme que não tenta replicar o anime frame a frame, mas encontrar em atores de carne e osso e em locações físicas a mesma qualidade de presença e ausência que Shinkai construiu com pixels. Às vezes consegue. Às vezes a distância entre os dois filmes é exatamente o tema de ambos.

Takaki e o peso do que não foi dito

Hokuto Matsumura carrega Takaki com uma contenção que é a escolha certa para um personagem cuja tragédia é interna e silenciosa. Takaki não é alguém que sofre de forma demonstrativa: é alguém que continua funcionando enquanto algo essencial vai se apagando, e Matsumura comunica esse apagamento com uma presença física que o anime, por natureza, não podia oferecer. O corpo real do ator adiciona uma dimensão de peso e de tempo que transforma a jornada de Takaki em algo mais próximo do que reconhecemos como experiência vivida.

A estrutura em três atos como cartografia da perda

Okuyama mantém a estrutura triptíca do original, três momentos na vida de Takaki separados por anos e por uma distância que vai deixando de ser geográfica para se tornar existencial. Cada ato tem um registro visual distinto, e o diretor usa essa diferença para marcar o que o tempo faz com a memória: a infância filmada com uma luz quente que parece sempre prestes a desaparecer, a adolescência com uma instabilidade que a câmera deixa transparecer, a idade adulta com uma frieza que é ela mesma um comentário sobre o que foi perdido.

Cerejeiras, trens e a tirania da distância

Os elementos visuais que definem o anime, as pétalas de cerejeira, os cruzamentos ferroviários, a neve sobre os trilhos, retornam no live-action não como citação nostálgica mas como linguagem com função narrativa. Okuyama filma o Japão real com o olhar de quem entende que a beleza do país tem uma relação específica com a transitoriedade, e que essa relação é o coração do que Shinkai criou. As locações não são decoração. São argumento.

O que o live-action ganha e o que perde

A versão de 2025 tem 123 minutos contra os 63 do anime, e essa diferença de duração não é apenas quantitativa. Okuyama usa o tempo adicional para desenvolver personagens secundários que no anime eram apenas silhuetas, especialmente as mulheres ao redor de Takaki, e essa expansão humaniza o universo do filme sem diluir seu foco. O que se perde é a pureza formal do anime: a animação de Shinkai tinha uma coerência estética que o live-action, por sua própria natureza, não pode replicar completamente. Mas o que se ganha é a presença, o peso, a respiração real dos personagens.

Onde assistir e o que esperar

Lançado no Japão em outubro de 2025, 5 Centímetros por Segundo ainda circula com distribuição limitada fora da Ásia. Vale buscar em plataformas especializadas em cinema japonês contemporâneo. Está disponível na Filmoteca Seu Manolo. Espectadores que conhecem o anime vão ter uma experiência inevitavelmente comparativa, e isso não é problema: os dois filmes dialogam de formas que enriquecem os dois. Quem chega sem o anime tem a vantagem de encontrar o filme sem o peso da comparação, e talvez seja essa a melhor forma de entrar pela primeira vez nessa história.

A distância como destino

5 Centímetros por Segundo sempre foi um filme sobre o quanto a vida real difere do que imaginamos quando somos novos e ainda acreditamos que o amor é suficiente para vencer a distância. A versão live-action de Okuyama não trai esse argumento. Amplia-o ao traduzir para corpos reais e locações físicas uma história que, no anime, corria o risco de ser percebida como bela demais para doer de verdade. Dói. E a beleza, como sempre em Shinkai, não atenua a dor. A intensifica.