quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Toy Story 5 (2026) - 1 h 42 min

 


Toy Story 5 (2026) - IMDb
Dir: McKenna Harris, Andrew Stanton

Animação, Aventura, Comédia, Drama, Família, Fantasia


CLC Score: 7,6





Sinopse

Bonnie está com oito anos e continua brincando com Jessie, Buzz Lightyear, Forky, Bullseye e os demais brinquedos, mas começa a perceber que muitas crianças de sua idade já se relacionam de maneira diferente. Tímida e com dificuldade para fazer amigos, ela recebe dos pais Lilypad, um tablet infantil em forma de sapo que promete ajudá-la a conectar-se com outras crianças. A novidade rapidamente ocupa um espaço crescente em sua rotina e coloca Jessie diante de uma ameaça que parece muito maior do que simplesmente perder a condição de brinquedo favorito: talvez a própria maneira de brincar esteja desaparecendo. 

Convencida de que Bonnie precisa de experiências presenciais e de imaginação, Jessie tenta resistir à influência de Lilypad, mas acaba separada dos demais ao lado de Bullseye. O caminho inesperadamente a leva até a antiga casa de Emily, sua primeira dona, e ao encontro de Blaze, uma menina que ainda conserva alguma relação com brinquedos e brincadeiras tradicionais. Enquanto Jessie tenta retornar para Bonnie, Woody deixa a vida que construiu ao lado de Betty e reaparece para ajudar Buzz e os antigos companheiros. A aventura passa então a colocar frente a frente brinquedos analógicos, tecnologias obsoletas e um dispositivo digital que também acredita estar fazendo aquilo que é melhor para sua criança. 

Análise Crítica

Dirigido por Andrew Stanton, com Kenna Harris na codireção e roteiro dos dois, Toy Story 5 enfrenta um problema que ultrapassa sua própria narrativa: como justificar mais um capítulo de uma série que já encontrou pelo menos duas conclusões emocionalmente convincentes? Toy Story 3 encerrou a relação com Andy; Toy Story 4 completou a transformação de Woody ao permitir que ele deixasse de definir sua existência exclusivamente pela necessidade de pertencer a uma criança. A solução do quinto filme é inteligente porque não tenta desfazer diretamente nenhum desses finais. Em vez disso, pergunta se o problema fundamental de Toy Story mudou. Durante trinta anos, os brinquedos temeram ser substituídos por outros brinquedos ou abandonados quando as crianças crescessem. Agora enfrentam algo diferente: uma infância na qual brincar com objetos físicos deixou de ocupar necessariamente o centro da experiência. 

A escolha de Jessie como principal centro emocional da história é particularmente adequada. Woody e Buzz permanecem importantes — novamente interpretados por Tom Hanks e Tim Allen —, mas Joan Cusack recebe um espaço que permite recuperar um dos traumas fundamentais introduzidos em Toy Story 2. Jessie já sabe o que significa ser abandonada por uma criança. Sua reação diante de Lilypad, portanto, não nasce apenas de conservadorismo ou incompreensão tecnológica; o tablet desperta um medo antigo que ela acredita já ter superado. A ameaça digital encontra uma personagem cuja história sempre esteve ligada à experiência de tornar-se desnecessária. 

Lilypad, interpretada por Greta Lee, funciona melhor justamente quando o filme evita transformá-la numa vilã tecnológica convencional. Ela deseja ajudar Bonnie a fazer amigos e possui, nesse sentido, uma finalidade comparável à dos próprios brinquedos: contribuir para o desenvolvimento e para a felicidade da criança. A diferença está na concepção do que significa ajudá-la. Jessie acredita na imaginação compartilhada, na presença física e na brincadeira; Lilypad oferece redes, convites digitais e interação mediada pela tela. O conflito não opõe simplesmente bem e mal, mas duas tecnologias da infância pertencentes a momentos históricos diferentes. 

Stanton encontra ainda uma solução visual interessante para defender a brincadeira sem depender exclusivamente de discursos. A imaginação de Bonnie ganha uma linguagem própria, com aparência artesanal e texturas inspiradas em desenhos e trabalhos manuais infantis. A Pixar descreve essa opção como uma tentativa de distinguir a imaginação de Bonnie daquela anteriormente associada a Andy. A escolha também produz uma ironia produtiva: uma das empresas tecnologicamente mais sofisticadas da animação digital utiliza seus recursos para simular a materialidade imperfeita de algo feito à mão. 

O risco está na facilidade com que a oposição entre brinquedo e tela poderia produzir uma nostalgia simplificadora. O filme aproxima-se algumas vezes dessa fronteira, sobretudo quando Jessie formula aquilo de que acredita que Bonnie necessita. Mas a narrativa é mais interessante quando questiona a própria certeza da personagem. A tecnologia não desaparece, e a solução não consiste em retornar artificialmente a uma infância anterior aos dispositivos digitais. O desafio é descobrir se imaginação, objetos físicos e tecnologia ainda podem ocupar simultaneamente o mesmo universo. Essa moderação também foi identificada na recepção crítica: o filme formula uma advertência sobre a substituição da experiência presencial sem desenvolver uma rejeição integral da tecnologia. 

⚠️ ATENÇÃO: A PARTIR DESTE PONTO, O TEXTO CONTÉM SPOILERS

Se você ainda não assistiu ao filme, recomendamos interromper a leitura e retornar depois.

A Interpretação da Obra

A primeira transformação importante está em Bonnie. Nos filmes anteriores, o medo dos brinquedos surgia fundamentalmente do crescimento de seus donos: crianças inevitavelmente deixariam de brincar. Toy Story 5 modifica essa lógica porque Bonnie ainda é criança. Ela não abandonou os brinquedos porque chegou à adolescência ou à vida adulta. Começa a afastar-se deles porque o ambiente social ao seu redor sugere que outras formas de interação são mais adequadas à sua idade. Seus colegas preferem telas, e a própria permanência dos brinquedos pode tornar-se motivo de constrangimento. 

Isso muda profundamente a velha ansiedade da franquia. O adversário já não é apenas o tempo.

É uma transformação cultural da infância.

Lilypad compreende imediatamente a vulnerabilidade de Bonnie: ela deseja amigos. O tablet oferece aquilo que a menina procura com uma eficiência impossível para Jessie. Solicitações digitais, conversas e jogos permitem estabelecer conexões rapidamente, evitando parte do desconforto existente quando alguém precisa aproximar-se presencialmente de outra criança.

O problema é que eficiência e intimidade não são necessariamente equivalentes.

Nesse ponto, Toy Story 5 retorna à ideia fundamental da série: brinquedos importam não pelo objeto em si, mas pelo tipo de relação que permitem à criança construir. Quando Andy transformava Woody em xerife ou Buzz em verdadeiro patrulheiro espacial, estava produzindo narrativas. O brinquedo era uma ferramenta através da qual a criança projetava um mundo.

Lilypad oferece um mundo já mediado por uma estrutura digital.

A diferença não está simplesmente entre madeira, plástico e tela. Está entre diferentes graus de participação da criança na construção da experiência.

A humilhação de Bonnie durante a festa do pijama torna essa questão mais dolorosa. Ao perceber que seus brinquedos podem denunciá-la como diferente diante das outras crianças, ela sente vergonha justamente daquilo que expressa uma dimensão autêntica de sua personalidade. Jessie interpreta inicialmente essa reação como prova de que Lilypad está afastando Bonnie de quem ela realmente é. Há alguma verdade nisso, mas Jessie também está projetando sobre Bonnie seu próprio trauma.

É então que o retorno à antiga casa de Emily se torna fundamental.

Jessie passou décadas carregando a lembrança de ter sido abandonada por sua primeira dona. Toy Story 2 transformava essa experiência numa das representações mais dolorosas da franquia sobre o crescimento: Emily amava Jessie e depois deixou de precisar dela.

Em Toy Story 5, Jessie retorna fisicamente ao lugar onde aquela história aconteceu e não encontra Emily esperando por ela. Encontra outra criança, Blaze. 

A passagem do tempo torna-se material.

A casa permanece, mas as pessoas mudaram. Jessie precisa confrontar algo que sempre soube intelectualmente, mas talvez nunca tivesse assimilado completamente: brinquedos podem durar mais do que a infância das pessoas que os amaram.

A presença dos dispositivos tecnológicos obsoletos — Atlas, Snappy e Smarty Pants — amplia essa percepção. Eles pertencem a uma etapa intermediária entre o brinquedo tradicional e a tecnologia representada por Lilypad. Foram novidades em determinado momento e agora também estão esquecidos. 

Isso desmonta uma oposição inicialmente confortável. A tecnologia não é necessariamente aquilo que substitui os brinquedos. A tecnologia também envelhece.

Lilypad, que parece representar o futuro inevitável, contém desde o início sua própria obsolescência. Um dia haverá outro dispositivo, outra interface e outra maneira de crianças se relacionarem com tecnologia. Nesse sentido, Jessie e Lilypad são muito mais parecidas do que imaginam: ambas tentam descobrir como continuar úteis enquanto o mundo ao redor muda.

Woody oferece outra variação dessa questão. Ele já realizou aquilo que Jessie ainda precisa aprender: separou sua identidade da obrigação de ser permanentemente necessário para uma criança. Seu retorno não deveria, portanto, significar restauração da antiga hierarquia. Jessie é agora a xerife do quarto de Bonnie, enquanto Buzz funciona como seu auxiliar; Woody retorna como alguém que pode ajudar sem precisar recuperar o comando. A própria Pixar apresenta Jessie como a nova líder do grupo e Woody como alguém que retorna de sua vida com Betty para procurar os amigos desaparecidos. 

Essa mudança possui importância particular para uma franquia historicamente organizada em torno de Woody. Pela primeira vez, sua presença pode ser significativa sem que a narrativa precise pertencer a ele.

Buzz também ocupa uma posição diferente. Seu sentimento por Jessie e sua hesitação em pedi-la em casamento invertem parte da segurança heroica tradicionalmente associada ao personagem. O patrulheiro espacial que enfrentava aventuras com absoluta convicção encontra dificuldade justamente diante de uma vulnerabilidade afetiva. 

Mas é a tentativa de aproximar Bonnie e Blaze que fornece a resolução conceitual do conflito. Jessie percebe que não pode simplesmente obrigar Bonnie a continuar brincando da maneira antiga. Precisa ajudá-la a encontrar alguém com quem aquilo que ela é possa ser compartilhado.

A diferença é essencial.

Brincar sozinho pode preservar a imaginação; brincar com outra pessoa transforma imaginação em linguagem comum.

Quando Bonnie encontra alguém que também aceita esse universo, o brinquedo deixa de funcionar como marca de inadequação social e passa a tornar-se meio de aproximação. A solução para a solidão da menina não está em escolher entre tecnologia e brinquedos, mas em encontrar relações nas quais não precise esconder aquilo de que gosta.

Lilypad também precisa aprender essa diferença. Sua falha não consiste em ser digital, mas em acreditar que conexão pode ser otimizada como se fosse apenas um problema técnico. Ela consegue aproximar perfis; não consegue garantir amizade.

Jessie comete o erro inverso. Acredita que conhece Bonnie suficientemente bem para decidir como ela deveria viver sua infância.

As duas precisam abandonar uma parcela de controle.

E é nesse ponto que o quinto filme reencontra uma das ideias mais consistentes de toda a série: amar uma criança significa aceitar que ela mudará de maneiras que seus brinquedos — e, por extensão, seus pais — não podem determinar.

Conclusão

A existência de Toy Story 5 inevitavelmente desperta uma pergunta comercial antes mesmo de uma pergunta artística. Depois de dois encerramentos possíveis, por que continuar? O próprio sucesso econômico da franquia torna impossível ignorar essa dimensão. O quinto filme ultrapassou US$ 1 bilhão mundialmente e tornou-se, sem ajuste pela inflação, o maior resultado de bilheteria da série, confirmando que Toy Story continua sendo também um patrimônio comercial extraordinariamente valioso para Disney e Pixar. 

Isso, porém, não determina sozinho o valor do filme. Andrew Stanton encontra uma questão que efetivamente não existia da mesma maneira quando a série começou em 1995. Naquele primeiro filme, Woody temia ser substituído por Buzz, um brinquedo tecnologicamente mais sofisticado. Trinta e um anos depois, a ameaça já não é o brinquedo novo, mas a possibilidade de que o próprio brinquedo deixe de ocupar posição central na infância.

Há uma simetria interessante nessa trajetória. Toy Story começou perguntando o que acontece com um brinquedo quando surge outro mais moderno. Toy Story 5 pergunta o que acontece quando a modernidade talvez já não precise de brinquedos.

Jessie é a personagem adequada para enfrentar essa questão porque conhece a experiência do abandono e, justamente por isso, corre o risco de transformar cuidado em resistência à mudança. Sua trajetória consiste menos em derrotar Lilypad do que em perceber que proteger Bonnie não significa conservar indefinidamente a criança que ela era.

Essa ideia impede que o filme seja apenas uma defesa nostálgica do passado. As telas não desaparecerão, e as crianças não voltarão simplesmente à infância de 1995. O que pode sobreviver é algo anterior tanto a Woody quanto a Lilypad: a necessidade de imaginar, compartilhar experiências e construir vínculos nos quais seja possível apresentar-se sem esconder aquilo que se é.

Talvez essa seja também a melhor justificativa narrativa para retornar mais uma vez a Toy Story. A franquia sempre pareceu tratar da vida secreta dos brinquedos, mas progressivamente revelou que seu verdadeiro assunto era o tempo. Andy cresceu. Bonnie está crescendo. Woody envelheceu. Jessie carrega lembranças de Emily. Tecnologias tornam-se obsoletas. Cada geração acredita por algum tempo que sua maneira de brincar permanecerá, até descobrir que outra já está chegando.

O quinto filme acrescenta apenas uma mudança decisiva a essa velha equação: desta vez, não são somente as crianças que estão crescendo.

A própria ideia de infância está mudando diante dos brinquedos.

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