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terça-feira, 31 de março de 2026

Caso 137 (2025) Dossier 137 - 1 h 55 min



Caso 137 (2025) - IMDb
Dir: Dominik Moll
Crime, Drama

Disponível em streaming no Reserva Imovision

AVALIAÇÕES:
IMDB: 7,2   METASCORE: 7,3
Letterboxd: 7,0   CLC Balanced Rating: 7,3
93%Tomatometer

Alguém atirou na cabeça de um manifestante. Stéphanie foi descobrir quem. O sistema foi descobrir como proteger os seus.


Moll depois de A Noite do 12

Dominik Moll reencontra seu roteirista habitual Gilles Marchand em Caso 137, seu terceiro filme de gênero consecutivo depois de Apenas os Animais e do estrondoso sucesso de A Noite do 12. A comparação com A Noite do 12 é inevitável e em parte desfavorável: aquele filme usava o procedimento policial para investigar algo mais profundo sobre misoginia e impunidade. Caso 137 usa o mesmo procedimento para investigar a violência policial durante os protestos dos Coletes Amarelos, e o resultado é tecnicamente sólido e tematicamente menos surpreendente do que o antecessor sugeria que seria.

Stéphanie e a posição impossível

Caso 137 coloca o espectador num lugar desconfortável: entre a lei e a ordem, o bom policial e o mau policial, o manifestante e o agitador, levantando perguntas para as quais não há respostas simples. Stéphanie Bertrand trabalha na IGPN, a polícia que investiga a própria polícia, e sua posição estrutural é o argumento mais interessante do filme: ela é o sistema tentando se responsabilizar, o que é uma tarefa que o sistema projetou para falhar. Léa Drucker carrega essa contradição com uma precisão que torna Stéphanie simultaneamente competente, limitada e humana, o que é o equilíbrio mais difícil disponível para um personagem nessa posição.

O procedimento como tensão e como limitação

É um filme sobre perguntas. Sobre o negócio oficial de fazê-las, as novas que instantaneamente substituem as respondidas e as suprimidas que envenenam qualquer chance de igualdade social. Moll filma o processo investigativo com uma paciência que replica a burocracia real: depoimentos contraditórios, câmeras que não filmaram o ângulo certo, testemunhos que mudam com a pressão. O problema é que essa fidelidade ao procedimento real torna o segundo ato mais árido do que deveria. 

Léa Drucker e o peso de cada cena

Dizer que Léa Drucker carrega o filme nos ombros é um eufemismo. Ela é o filme, e o filme vale ser visto pela performance dela sozinha. Drucker encontrou em Stéphanie um personagem que exige contenção absoluta numa situação que pede explosão, e essa tensão entre o estado interno e a postura profissional é onde ela entrega seu melhor trabalho. Ganhou o César de Melhor Atriz por essa performance, e o prêmio é justo: é uma das atuações mais economicamente precisas do cinema francês recente.

O que o filme diz sobre a França e o que não diz

Caso 137 é baseado num episódio real dos protestos dos Coletes Amarelos de 2018, e a triste ironia do filme é que ambas as mulheres centrais querem fazer a coisa certa. O problema é que vivem num mundo onde não se trata mais de certo ou errado, mas de de que lado você está. Essa dimensão política poderia ter sido explorada com mais radicalidade, e é onde a comparação com o Godard que teria feito um filme muito diferente sobre o mesmo tema pesa sobre Moll. O diretor optou pela contenção social-realista quando o material talvez pedisse algo mais disposto a incomodar.

Onde assistir e o que esperar

O filme teve sua estreia mundial na competição principal do Festival de Cannes de 2025, onde concorreu à Palme d'Or. Está disponível em plataformas europeias com acesso variável no Brasil e na Filmoteca Seu Manolo. Os 115 minutos são densos no primeiro e no terceiro atos e mais áridos no segundo, onde o acúmulo de procedimento investigativo testa a paciência antes de a tensão retornar. Chegar ao filme sem expectativa de thriller convencional é a melhor preparação: o que Moll oferece é mais próximo do docudrama do que do suspense.

Um bom filme que poderia ter sido mais

Caso 137 é um thriller político competente com uma performance central excepcional e um argumento sobre impunidade institucional que o cinema francês raramente aborda com essa clareza. O que falta é a disposição de ir além do que o procedimento permite, de fazer o sistema desconfortável de forma que a investigação interna, por definição, não consegue. Moll entrega um filme honesto sobre os limites da accountability dentro de uma instituição que controla seus próprios limites. É um argumento válido e bem executado. É também um argumento que fica seguro exatamente onde poderia arriscar.


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