Dois irmãos se encontram no funeral de sua mãe, cada um no seu caminho de autodestruição, ambos assombrados por uma tragédia em sua juventude.
Introdução: um mergulho nas camadas da dor
Submarino é um dos filmes mais intensos, tristes e
emocionalmente devastadores de Thomas Vinterberg. Ao contrário da explosividade
moral de Festen e da histeria coletiva de A Caça, aqui o diretor
trabalha com um realismo contido, seco, observacional — mas carregado de
sofrimento.
O título, Submarino, remete tanto ao brutal método de
tortura policial quanto à sensação de estar submerso, incapaz de emergir
para respirar.
É assim que vivem seus protagonistas.
Enredo: dois irmãos afundando, cada um à sua maneira
Eles cresceram sob:
- alcoolismo
materno
- violência
doméstica
- negligência
extrema
- e um
trauma terrível envolvendo a morte acidental do bebê da família
Esse trauma é apresentado logo no prólogo, num dos inícios
mais chocantes do cinema escandinavo.
Na vida adulta:
Nick
- vive
sozinho
- é
alcoólatra
- tenta
manter rotinas de disciplina física que mascaram o vazio
- frequenta
ginásios, bares, clínicas de reabilitação
- tem
explosões de violência contida
Nick é alguém que quer amar, mas não sabe como.
O Irmão
- é
dependente químico
- tenta
cuidar do filho pequeno
- está
preso ao ciclo de precariedade, dívidas e criminalidade
- luta
desesperadamente para ser bom pai, mas falha repetidas vezes
Seu arco é visceral e trágico.
Temas centrais
1. A infância como ferida permanente
O filme mostra como um único trauma — a morte do irmão bebê
— molda toda a vida emocional dos protagonistas.
Vinterberg se recusa a oferecer explicações fáceis.
As cicatrizes não desaparecem; elas apenas mudam de forma.
2. Masculinidade quebrada
Nick e o irmão representam formas distintas de masculinidade danificada:
- incapacidade
de pedir ajuda
- repressão
emocional
- sofrimento
silencioso
- rigidez
que esconde fragilidade
- amor
que nunca encontra linguagem
Vinterberg filma homens que não sabem sofrer
“corretamente” — e isso os destrói.
3. A espiral da dependência
Álcool, drogas e violência se tornam válvulas de escape.
Mas também prisões.
O filme entende o vício não como moralidade, mas como
sintoma.
4. A busca fraturada pelo amor
- ternura
inesperada
- tentativas
de reconexão
- pequenos
gestos de cuidado
Essas fagulhas evitam que o filme seja puro niilismo.
5. A estética da tristeza
Submarino segue a tradição do realismo nórdico:
- fotografia
fria, azulada, quase sem cor
- ambientes
pobres, vazios, silenciosos
- montagem
que respeita pausas dolorosas
- câmera
observacional, nunca melodramática
É um filme que não dramatiza a miséria — apenas a deixa existir.
A relação entre os irmãos: amor e falha
Eles:
- compartilham
o mesmo trauma
- se
amam profundamente
- mas
são incapazes de salvar um ao outro
Cada reencontro entre eles é um espelho de dor.
O clímax: um afogamento emocional
Sem spoilers detalhados:
A jornada do irmão mais novo culmina em uma tragédia íntima e inevitável.
Nick, de maneira contida, tenta assumir uma responsabilidade
tardia — um gesto que sugere ao mesmo tempo redenção e desespero.
É um dos finais mais comoventes do cinema de Vinterberg.
Por que Submarino é tão poderoso?
Porque Vinterberg:
- observa
seus personagens sem julgá-los
- retrata
miséria humana com empatia
- equilibra
brutalidade e ternura
- entende
que dor profunda raramente tem solução clara
O filme não oferece catarse — oferece verdade emocional.
Recepção
Submarino estreou no Festival de Berlim e recebeu
críticas fortíssimas por:
- suas
atuações extraordinárias (sobretudo Jakob Cedergren)
- seu
realismo seco
- sua
sensibilidade brutal
É considerado um dos filmes mais maduros de Vinterberg.
Conclusão
Submarino é um mergulho na escuridão humana — mas
também na resistência silenciosa do afeto.
É triste, duro, visceral, e ainda assim profundamente belo na sua honestidade.
Um dos mais importantes filmes dinamarqueses da década de
2010.