sexta-feira, 27 de março de 2026

O Espelho (1975) Zerkalo - 1 h 47 min

Incluso nas mostras da Filmoteca Seu Manolo:

IMAGENS DO PENSAMENTO: Cinema e Filosofia

TOP 10. MAS DE QUEM? - Sight and Sound / BFI: Os Maiores Filmes de Todos os Tempos - Lista dos Diretores (2022)

Um homem moribundo de quarenta anos lembra-se do seu passado. Sua infância, sua mãe, a guerra, momentos pessoais e coisas que contam a história recente de toda a nação russa.


O Espelho (1975) - IMDb
Dir: Andrei Tarkovsky
Drama Psicológico, Biografia


MP4 / HD / LEG: Português

IMDB: 7,9   METASCORE: 8,2
Flick Metrix: 85   Letterboxd: 8,6
100%Tomatometer30 Reviews   91%Popcornmeter

O tempo como memória fragmentada


A Vida como Fluxo de Imagens

Em O Espelho, Andrei Tarkovsky abandona qualquer estrutura narrativa convencional para construir um filme que opera como memória em estado puro. Não há uma história linear, mas uma sucessão de lembranças, sonhos, imagens históricas e fragmentos autobiográficos que se entrelaçam sem hierarquia clara.

O tempo deixa de ser organizado ele se manifesta como fluxo, como algo que retorna, se repete e se transforma.


Memória e Identidade

O filme articula diferentes tempos - infância, guerra, vida adulta - não como etapas separadas, mas como dimensões coexistentes. A memória não é evocação do passado, mas presença contínua.

Nesse sentido, a identidade surge como algo instável, construída a partir dessas camadas que nunca se fixam completamente. Ser é lembrar, mas lembrar é também reinventar.


A Imagem como Pensamento Poético

Tarkovsky utiliza a imagem não para representar, mas para sugerir. Elementos como água, fogo, vento e reflexo atravessam o filme, criando uma rede sensorial que substitui a lógica narrativa.

A montagem não organiza; ela associa. Cada imagem carrega múltiplos sentidos, abrindo espaço para uma experiência mais intuitiva do que racional.


Entre o Íntimo e o Histórico

Ao mesclar memórias pessoais com imagens de arquivo da história soviética, o filme dissolve a fronteira entre o individual e o coletivo. A vida privada e os acontecimentos históricos passam a compartilhar o mesmo plano.

O tempo, assim, não pertence apenas ao sujeito; ele é também histórico, político, atravessado por forças maiores.


Recepção e Legado

Inicialmente recebido com dificuldade, The Mirror tornou-se uma das obras mais celebradas de Tarkovsky, frequentemente apontada como uma das experiências mais radicais do cinema moderno.

Sua influência se estende a cineastas que exploram o cinema como linguagem poética e subjetiva.


Leitura Crítica

O Espelho é um filme sobre a impossibilidade de organizar a própria vida em narrativa coerente. Ao fragmentar o tempo, Tarkovsky sugere que a existência não se apresenta como linha, mas como dispersão.

Dentro do eixo Tempo e Existência da mostra IMAGENS DO PENSAMENTO: Cinema e Filosofia, o filme radicaliza a proposta do bloco: não apenas sentir o tempo, mas perceber que ele nunca é único: é múltiplo, instável, profundamente subjetivo.


Para quem é (e para quem não é)

The Mirror é indicado para quem se interessa por cinema experimental, poético e profundamente introspectivo. É uma obra que exige entrega sensorial e abertura interpretativa.

Por outro lado, pode não agradar quem busca narrativa clara ou linearidade: aqui, o filme não guia, ele se oferece como experiência. 

Stalker (1979) - 2 h 42 min

IMAGENS DO PENSAMENTO: Cinema e Filosofia

Um homem guia dois visitantes através de uma área conhecida como Zona em busca de uma sala que conceda desejos.


Stalker (1979) - IMDb
Dir: Andrei Tarkovsky
Drama Psicológica, Ficção Científica Distópica


MP4 / HD / LEG: Português

IMDB: 8,0   METASCORE: 8,5
Flick Metrix: 85   Average Percentile: 77.04%
100%Tomatometer47 Reviews   92%Popcornmeter

O tempo como travessia interior


A Zona e o Deslocamento

Em Stalker, Andrei Tarkovsky constrói um espaço que é, ao mesmo tempo, geográfico e mental: a Zona. Guiando um escritor e um cientista por esse território proibido, o Stalker não conduz apenas uma jornada física, mas uma travessia existencial.

A Zona não funciona segundo leis estáveis — ela exige atenção, escuta, hesitação. Cada passo é uma decisão, e cada desvio pode ser irreversível. O tempo, aqui, deixa de ser medida objetiva e passa a ser vivido como incerteza.


Duração e Experiência

Tarkovsky radicaliza a relação entre cinema e tempo. Seus planos longos, a recusa da montagem acelerada e o ritmo contemplativo criam uma experiência onde o espectador não observa o tempo — ele o habita.

A narrativa se dilui em duração. Caminhar, esperar, parar: ações mínimas ganham densidade, transformando o filme em uma experiência sensorial que exige entrega. O tempo não conduz à ação; ele a suspende.


Desejo e Verdade

No centro da Zona está o Quarto, um lugar onde os desejos mais profundos se realizam. No entanto, o filme desloca rapidamente a questão: o problema não é alcançar o desejo, mas reconhecê-lo.

O que queremos de fato? E o que acontece quando somos confrontados com essa verdade? Tarkovsky transforma a promessa de realização em um dilema ético e existencial.


Paisagem e Espírito

A materialidade da Zona — água, ferrugem, vegetação, ruínas — constrói um mundo que parece ao mesmo tempo abandonado e vivo. A natureza não é cenário, mas presença ativa, quase consciente.

Essa paisagem não explica: ela sugere. Cada imagem carrega uma densidade simbólica que não se resolve em significado único, mas se abre à experiência.


Recepção e Legado

Embora inicialmente recebido com certa reserva, Stalker tornou-se uma das obras mais influentes do cinema moderno, sendo central para discussões sobre tempo, espiritualidade e linguagem cinematográfica.

Hoje, é frequentemente associado a uma ideia de cinema que resiste à pressa — um cinema que exige contemplação e disponibilidade.


Leitura Crítica

Stalker é um filme sobre a dificuldade de desejar — e sobre o medo de confrontar aquilo que nos constitui. Ao transformar o percurso em experiência, Tarkovsky sugere que o sentido não está no destino, mas no próprio atravessamento.

Dentro do eixo Tempo e Existência da mostra IMAGENS DO PENSAMENTO: Cinema e Filosofia, o filme ocupa um lugar essencial: ele nos obriga a desacelerar, a habitar o tempo, a perceber que existir talvez seja, antes de tudo, permanecer.


Para quem é (e para quem não é)

Stalker é fundamental para quem se interessa por cinema contemplativo, filosofia e experiências que desafiam a narrativa convencional.

Por outro lado, pode afastar espectadores que buscam ritmo acelerado ou resoluções claras: aqui, o filme não responde — ele permanece.

 







quarta-feira, 25 de março de 2026

Close: Você Perto de Mim (2022) Close - 1 h 44 min

O MUNDO EM DISPUTA: Cinema Sociopolítico

A amizade entre os dois meninos de treze anos, Leo e Rémi acaba de repente. Lutando para entender o que aconteceu, Léo procura Sophie, mãe de Rémi.


Drama


MP4 / HD / LEG: Português

IMDB: 7,8   METASCORE: 8,1
FLICK METRIX: 83   Average Percentile: 64.19%
91%Tomatometer154 Reviews   88%Popcornmeter

Crescer pode significar aprender a se afastar.


🌼 A intimidade sem nome


Em Close, Lukas Dhont acompanha a relação intensa entre dois garotos cuja proximidade não precisa ser definida para existir. A amizade é física, cotidiana, natural — um espaço onde o afeto circula sem mediação.
👉 estar perto é suficiente.


🏫 O olhar do outro

Tudo se transforma quando esse vínculo passa a ser observado e questionado. O ambiente escolar introduz normas, interpretações, expectativas.
👉 o problema não está na relação — mas em como ela é vista.


🧍 Distância e ruptura


Diante da pressão externa, a proximidade se torna insustentável. O que antes era espontâneo passa a ser evitado, reprimido, negado.
👉 afastar-se torna-se uma forma de proteção — e também de perda.


🌫️ O silêncio como consequência


O filme constrói sua força naquilo que não é dito. Emoções não articuladas, gestos interrompidos, ausência de explicação.
👉 o que não se expressa permanece.


🏛️ Recepção e contexto


Amplamente reconhecido por sua sensibilidade e rigor, o filme foi premiado em festivais internacionais e consolidou-se como uma das obras mais marcantes do cinema contemporâneo sobre infância e afeto.


🎯 Para quem é (e para quem não é)

Indicado para quem aprecia narrativas intimistas e emocionalmente delicadas.
Pode não agradar quem busca explicações claras ou resolução dramática convencional — aqui, o impacto está na sutileza.


🧭 Leitura Crítica


Close
revela como normas sociais podem atravessar relações antes mesmo que elas sejam compreendidas por quem as vive. Ao acompanhar a transformação de um vínculo, o filme expõe a fragilidade da intimidade diante do olhar coletivo.

Na mostra O Mundo em Disputa — Cinema Sociopolítico, ele ocupa um lugar essencial:
👉 onde o político se manifesta na forma como o afeto é permitido — ou interrompido.

Porque, no fim, talvez crescer seja aprender não apenas quem somos —
👉 mas o que o mundo nos deixa ser.

 


Retrato de uma Jovem em Chamas (2019) Portrait de la jeune fille en feu - 2 h 2 min


Em uma ilha solitária da Bretanha no final do século 18, uma moça pinta o retrato de casamento de outra jovem mulher, e elas criam intimidade.



Romance Sensual, Drama


CLC Score: 9,0



Sem música. Sem homens no centro. Sem concessão. Céline Sciamma filmou o desejo como se nunca tivesse sido filmado antes.

A tela em branco como território


Retrato de uma Jovem em Chamas começa com Marianne carregando suas telas numa escada de pedra molhada, e uma delas cai no mar. A imagem é ao mesmo tempo prática e metafórica, e Céline Sciamma a usa sem sublinhar: o que vai ser pintado neste filme vai custar algo, e o custo vai ser proporcional à proximidade com o que está sendo retratado. Marianne foi contratada para pintar o retrato de casamento de Héloïse, uma jovem bretã que recusou posar para o pintor anterior. A solução encontrada pela mãe de Héloïse é que Marianne se passe por dama de companhia, observe Héloïse durante o dia e pinte de memória à noite.

Sciamma instala essa premissa com uma economia que é a marca formal do filme inteiro: nada é explicado além do necessário, nada é sublinhado além do inevitável, e a distância entre o que os personagens dizem e o que estão sentindo é o território onde o filme mora. Marianne está pintando alguém que não sabe que está sendo pintada, e essa assimetria de olhar é o primeiro argumento do filme sobre poder, desejo e o que acontece quando o objeto do olhar começa a olhar de volta.


Sciamma e a recusa como método

A decisão de fazer Retrato de uma Jovem em Chamas sem trilha sonora diegética, sem música que organize a emoção do espectador, é a escolha formal mais radical do filme e a que define sua textura. O que existe em vez de trilha é o som do ambiente, o vento bretão, o fogo, os passos na pedra, as respirações, e esses sons têm uma presença que a música normalmente silencia. Sciamma entendeu que a música é uma forma de dizer ao espectador o que sentir, e que um filme sobre dois olhares que aprendem a se ver não pode se dar ao luxo de instruir a emoção de fora.

A ausência de homens no centro narrativo é consequência lógica de uma história que se passa num espaço feminino isolado e que examina o que acontece dentro desse espaço quando as estruturas que normalmente organizam o desejo feminino não estão presentes para organizá-lo. O noivo de Héloïse existe como pressão fora do quadro, como prazo, como a razão pela qual o retrato precisa ser feito. Mas não existe como presença, e essa ausência é o que cria o espaço onde o filme acontece.


Noémie Merlant e o olhar como instrumento


Noémie Merlant constrói Marianne como alguém cujo instrumento de trabalho é o olhar, e Sciamma usa essa profissão para fazer o argumento central do filme sobre a diferença entre observar e ver. Marianne chegou para observar Héloïse com suficiente distância para retratá-la fielmente. O que vai acontecendo, à medida que o filme avança, é que observar vai se tornando ver, e ver vai se tornando uma forma de contato que o retrato não consegue mais conter.

Merlant comunica essa transformação através de uma progressão de pequenos detalhes físicos: a distância que mantém de Héloïse no início, a forma como os olhos se movem quando Héloïse não está olhando, o momento em que a câmera de Sciamma captura Marianne sendo capturada pelo que está olhando. É uma performance construída sobre o exterior, sobre o que o corpo faz quando a pessoa dentro do corpo está tentando não fazer nada, e a precisão dessa construção é o que torna o filme emocionalmente verdadeiro em vez de apenas formalmente interessante.


Adèle Haenel e o momento em que Héloïse olha de volta


Adèle Haenel interpreta Héloïse com uma presença que o filme usa de forma estratégica: nos primeiros atos, Héloïse é principalmente o que Marianne vê, e Haenel constrói o personagem com uma opacidade que replica a experiência de Marianne tentando entendê-la. À medida que Héloïse começa a olhar de volta, o personagem abre, e o que estava por baixo da opacidade vai se revelando com uma velocidade que o filme calibra com precisão.

Há uma cena em que Héloïse vê o retrato que Marianne fez dela às escondidas e descreve o que vê: não uma mulher, mas a ideia que outra pessoa fez dela, a versão de Héloïse que existe no olhar de Marianne em vez da Héloïse que existe para si mesma. Sciamma usa essa cena para fazer o argumento mais filosófico do filme sobre representação e identidade, e Haenel o entrega com uma serenidade que não é frieza: é a clareza de alguém que acabou de ver algo sobre si mesma que não sabia que estava sendo visto.


O fogo e o que ele significa cada vez

Retrato de uma Jovem em Chamas usa o fogo três vezes de formas que o filme não explica e não precisa explicar. A primeira vez é acidente, a segunda é ritual, a terceira é o momento que o título do filme estava construindo desde o início. Sciamma filma cada aparição do fogo com uma atenção que transforma o elemento em personagem sem transformá-lo em símbolo óbvio: o fogo significa coisas diferentes em cada contexto, e a acumulação dessas diferentes significações ao longo do filme é o que torna a última aparição tão precisa.

A cena do fogo noturno com as mulheres da aldeia é o centro ritual do filme e o momento em que Sciamma mais claramente declara o território que está habitando: um mundo feminino com suas próprias regras, seus próprios rituais, sua própria relação com o corpo e com o desejo, que existe paralelo ao mundo masculino sem precisar dele para se sustentar. É uma das cenas mais belas do cinema europeu recente, e funciona porque foi construída com suficiente rigor para que a beleza não pareça calculada.


Onde assistir e o que esperar

Retrato de uma Jovem em Chamas está disponível no Prime Video e na Filmoteca Seu Manolo. O filme tem 119 minutos que pedem uma atenção específica ao rosto e ao espaço: Sciamma e a diretora de fotografia Claire Mathon usam a luz natural bretã com uma consistência que transforma cada enquadramento num argumento sobre como a luz cai diferente sobre pessoas que estão sendo vistas de formas diferentes. A ausência de trilha sonora pode desconcertar nos primeiros minutos e vai se tornando a coisa mais certa do filme à medida que o silêncio começa a carregar o peso que a música normalmente carrega. A cena final, Héloïse num teatro ouvindo Vivaldi, é um dos finais mais precisos do cinema contemporâneo e funciona como conclusão de um argumento que o filme inteiro estava construindo sobre o que resta de um amor que não pode continuar.


O que Sciamma filmou

Retrato de uma Jovem em Chamas é um filme que claramente divide o espectador em dois: quem entra na frequência do filme encontra uma das experiências mais intensas e mais duradouras do cinema recente, quem não entra pode achar que nada está acontecendo. A Filmoteca existe exatamente para preparar o espectador para essa segunda possibilidade sem dissuadi-lo da primeira.

O que Sciamma filmou não é uma história de amor ambientada no século XVIII. É um exame do que o desejo faz com o olhar, do que o olhar faz com o desejo, e de como duas pessoas podem construir entre si um mundo completo dentro de um espaço e de um tempo que não oferece condições para que esse mundo dure. O retrato que Marianne pinta de Héloïse não é o retrato de casamento que foi encomendado. É outra coisa, feita com outro olhar, para outro propósito, e o filme inteiro é a história de como esse outro olhar foi possível e do que custou ser possível. Sciamma filmou o desejo como se nunca tivesse sido filmado antes porque partiu de uma pergunta que o cinema raramente faz: como é ver e ser vista por alguém que está olhando de verdade?


terça-feira, 24 de março de 2026

Jeanne Dielman (1975) Jeanne Dielman, 23, quai du commerce, 1080 Bruxelles - 3 h 22 min

Filme incluso nas mostras da Filmoteca Seu Manolo






Jeanne Dielman (1975) - IMDb
Dir: Chantal Akerman
Drama Psicológico


MP4 / HD / LEG: Português

IMDB: 7,5   METASCORE: 9,4
FLICK METRIX: 84   Letterboxd: 8,6
95%Tomatometer65 Reviews   77%Popcornmeter

O cotidiano pode ser a forma mais radical de política.


O tempo como experiência material

Em Jeanne Dielman, Chantal Akerman transforma o tempo em matéria visível. Planos longos, ações repetidas, gestos minuciosos: o filme não resume o cotidiano, ele o faz durar. Ver torna-se acompanhar o tempo em sua extensão.


🍽️ A rotina como estrutura

A vida de Jeanne é organizada por tarefas domésticas: cozinhar, limpar, arrumar, repetir. A repetição não é apenas formal, é a própria condição da personagem. O cotidiano é forma.


🧍 O corpo disciplinado

Cada gesto é preciso, controlado, quase ritualístico. O filme revela como o corpo é moldado por expectativas sociais invisíveis, especialmente no espaço doméstico. A norma se inscreve no gesto.


🌫️ A fissura na repetição

À medida que pequenas variações surgem, a estabilidade da rotina começa a se romper. O que parecia sólido revela sua fragilidade. Basta um desvio para que tudo se desorganize.


🏛️ Recepção e legado

Considerado um dos marcos do cinema moderno e feminista, o filme redefiniu a relação entre tempo, narrativa e representação do cotidiano.


🎯 Para quem é (e para quem não é)

Indicado para quem se interessa por cinema contemplativo, formal e radical.
Pode não agradar quem busca ritmo acelerado ou narrativa tradicional. Aqui, a experiência está na duração.


🧭 Leitura Crítica

Jeanne Dielman desloca o político para o espaço mais íntimo e aparentemente neutro: o lar. Ao tornar visível o trabalho invisível, o filme revela estruturas profundas de organização social.

Na mostra O MUNDO EM DISPUTA: Cinema Sociopolítico, ele ocupa um lugar essencial: onde o político deixa de ser evento e se torna rotina.

Na mostra O CANSAÇO DE EXISTIR: O Esforço Constante de Continuar Sendo, ele ocupa o espaço do desgaste da rotina, quando se acumula de forma quase invisível. O que se repete demais deixa de sustentar e começa a corroer.

Porque, no limite, talvez a forma mais silenciosa de poder seja aquela que se repete todos os dias. 

No (2012) - 1 h 58 min

 O MUNDO EM DISPUTA: Cinema Sociopolítico

Um publicitário apresenta uma campanha para derrotar Augusto Pinochet no referendo de 1988 no Chile.


No (2012) - IMDb
Dir: Pablo Larraín
Drama Político, História


MP4 / HD- / LEG: Português

IMDB: 7,4   METASCORE: 8,1
FLICK METRIX: 7,5   Average Percentile: 61.84%
93%Tomatometer132 Reviews   80%Popcornmeter

Às vezes, mudar a história é uma questão de linguagem.


📺 A política como comunicação

Em No, Pablo Larraín desloca o centro do conflito político para o campo da imagem e da publicidade. Em vez de confrontos diretos, a disputa se dá na construção de uma narrativa: como convencer um país inteiro a dizer “não” a uma ditadura?
👉 a política se transforma em estratégia de comunicação.


🎯 Entre marketing e ideologia

O protagonista, um publicitário, propõe uma campanha baseada não no medo ou na denúncia, mas na promessa de alegria. A decisão é controversa: suavizar a violência para conquistar adesão.
👉 a questão não é apenas o que dizer — mas como dizer.


📼 Estética e contexto

O uso de câmeras U-matic e a textura de vídeo aproximam o filme das imagens reais da época, borrando a fronteira entre ficção e arquivo. A forma não apenas representa o passado — ela o reinscreve.


⚖️ Ambiguidade política


O filme evita simplificações. A vitória do “Não” não é apresentada como solução absoluta, mas como resultado de negociações, concessões e estratégias.
👉 a democracia também se constrói dentro de limites.


🏛️ Recepção e lugar histórico

Baseado no plebiscito chileno de 1988, o filme se insere em uma reflexão mais ampla sobre transições políticas e o papel da mídia nesses processos.


🎯 Para quem é (e para quem não é)


Indicado para quem se interessa por cinema político que foge do confronto direto e investiga os mecanismos simbólicos do poder.
Pode não agradar quem busca uma narrativa mais explícita ou posicionamentos claros — aqui, a força está na ambiguidade.


🧭 Leitura Crítica

No revela que a política contemporânea não se decide apenas nas ruas ou nas instituições, mas também nas imagens que circulam. Ao transformar uma campanha publicitária em campo de disputa histórica, o filme sugere que o poder passa, cada vez mais, pela forma de comunicação.

Na mostra O Mundo em Disputa — Cinema Sociopolítico, ele ocupa um lugar decisivo:
👉 o momento em que a política se torna também uma questão de linguagem.

Porque, no fim, vencer uma eleição pode depender de algo simples —
👉 a capacidade de imaginar um futuro.

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